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O que você deve saber sobre a eleição presidencial na França, crucial para o futuro da Europa

Primeiro turno ocorrerá em abril deste ano, mas campanha cai na confusão de candidatos e programas

Eleições na França
A candidata da FN, Marine Le Pen, na segunda-feira, em Nice. AP

A campanha eleitoral na França mergulha em uma fase de profunda incerteza que invalida todas as previsões feitas até agora. Os inesperados resultados das primárias à direita e à esquerda, o nepotismo do conservador François Fillón e a surpreendente ascensão do neófito ex-ministro Emmanuel Macron produziram uma situação inédita. A menos de dois meses e meio das eleições presidenciais, somente a ultradireitista Frente Nacional definiu com clareza programa e candidata, Marine Le Pen.

“A imaginação no poder.” Em um almoço com quatro jornalistas, a ministra da Educação e número três do Governo, Najat Vallaud-Belkacem, relembrou nesta terça-feira esse lema de maio de 68 para descrever a situação em mutação. São estes os principais fatores de instabilidade.

Fillón, o resistente. O favorito até 20 dias atrás afunda por causa de salários oficiais irregulares para sua esposa. Recebido algumas vezes com cartazes e gritos de “Fillón, Ladrão” ou “Fillón, impostor”, ele teve que suspender vários atos. Esta semana só um está programado. Como seu futuro depende de uma iminente decisão judicial – disse que renunciará se for indiciado – e se acumulam provas de que o emprego de sua esposa era fictício, o candidato conservador optou pelo contra-ataque. Ele se considera vítima “de uma profunda injustiça” e acusa a procuradoria de não respeitar “a separação de poderes” por estar investigando-o.

Rebelião na direita. Incentivados por políticos leais ao ex-presidente Nicolas Sarkozy, parlamentares do partido conservador Os Republicanos pediu nesta terça-feira a François Fillón que retire sua candidatura. “Não podemos fazer campanha. Corremos na direção de um desastre anunciado. Estamos diante de uma situação desastrosa”, disse o deputado sarkozista George Fenech, aglutinador da revolta. “Há eleitores que nos abandonam todos os dias, e eu entendo”, alertou Christian Estrosi, da ala radical do partido. Líderes regionais em cidades como Limoges e Clermont-Ferrand puseram empecilhos para a ida de Fillón a seus redutos.

Em uma reunião com seu grupo parlamentar, Fillón respondeu com dureza: “A retirada de minha candidatura criaria um problema maior. Não há alternativa melhor”. “Os eleitores da direita são ambivalentes”, comenta a ministra Belkacem, e podem votar nele apesar do caso de corrupção, como ocorre, diz, em outros países europeus.

Macron, sem programa. O ex-ministro é hoje o favorito, segundo as pesquisas. E está na frente apesar de seu programa ainda ser desconhecido. “O programa não é o coração de uma campanha”, argumenta. Ele o apresentará em março. Se ganhar, a França enfrentará provavelmente um grave problema de governabilidade. Emmanuel Macron se instalaria no Eliseu, mas seria praticamente impossível contar com uma maioria parlamentar. Negocia empréstimos bancários de oito ou nove milhões de euros (26 ou 29 milhões de reais) e diz ter outro tanto de contribuições particulares.

A esquerda busca aliados. Benoît Hamon, candidato socialista, mantém uma campanha de baixo perfil. Gasta suas energias tentando aliar-se com outras forças de esquerda e os verdes. Se não der certo, e até agora não está conseguindo, a esquerda será eliminada no primeiro turno.

No rio revolto, Le Pen. Lidera o partido sem que ninguém lhe faça sombra dentro da legenda. Iniciou a campanha no dia 6 com 144 promessas no programa. Suas propostas contra os estrangeiros e os muçulmanos, a linha-dura em segurança e o plano antieuropeísta quase não foram alvo de críticas. E também o fato de que, com meia dúzia de ações, Marine Le Pen e seu partido são os que têm mais causas judiciais por corrupção. Não renunciará se for indiciada porque se considera “perseguida”.

A fraqueza dos demais beneficia Le Pen. As pesquisas preveem que vencerá no primeiro turno, mas perderá no segundo. “Le Pen não será eleita nunca”, afirmou na semana passada em um almoço com jornalistas o ministro da Economia, Michel Sapin. “Vão perder muito dinheiro”, avisou aos investidores que tomam posições diante de um hipotético triunfo de Le Pen. “Seu rival ganhará com 60% ou 70% dos votos.”

MACRON ACUSA MOSCOU DE INGERÊNCIA

C. Y.

Nas águas revoltas da campanha se junta o redemoinho da suposta “ingerência de um Estado estrangeiro decidido a desestabilizar um candidato que pode vencer”. Esse Estado é a Rússia e o candidato, Emmanuel Macron. Quem escreve é Richard Ferrand, secretário-geral do partido do ex-ministro, no jornal Le Monde.

Como provas diz que o partido sofre “milhares de ciberataques”, muitos deles da Ucrânia, origem de turbulências eleitorais nos Estados Unidos. Lembra que o Russia Today e o SputnikNews, de propriedade pública, divulgaram que Macron é financiado pelo “rico lobby gay” e que é um “agente americano a serviço do lobby bancário”. E que Julian Assange declarou ao Izvestia que tem “informações interessantes” sobre Macron. Supõe-se que sobre sua vida privada.

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