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Suposto estupro de jovem negro pela polícia gera protestos em Paris

A vítima recebeu no hospital a visita de Hollande e pediu calma aos que foram às ruas

A noite de terça-feira, dia 8 de fevereiro, deixou um saldo de 17 prisões em vários bairros da periferia norte de Paris, no quarto dia de protestos deflagrados pelo suposto estupro com um cassetete de um jovem negro na quinta-feira, dia 2, durante uma patrulha policial. Na véspera, a vítima tinha pedido calma em seu quarto no hospital, onde foi operado em função de uma lesão de 10 centímetros na região anal. Durante o dia, recebeu a visita do presidente François Hollande. Quatro policiais foram acusados, três por violência agravada e um por estupro, e estão em liberdade condicional. Este novo episódio de violência policial comoveu o país.

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O presidente François Hollande visita a suposta vítima de estupro por parte de policiais no hospital. AFP

“Amo minha cidade e quando voltar quero encontrá-la de novo como estava”, pediu nesta terça-feira o jovem Théo, de 22 anos, em seu leito no hospital. “Então, pessoal, chega de guerra, confiem na justiça e rezem por mim”, acrescentou com esforço, ainda convalescente. Ao seu lado estava o presidente François Hollande, que foi visitá-lo sem ser anunciado. Os jornalistas do jornal local El Parisien estavam ali para uma reportagem e gravaram o encontro e a mensagem de Théo.

O apelo de Théo foi em parte atendido no bairro em que mora, cité des 3.000, um conjunto habitacional localizado em uma região carente de Aulnay-sous-Bois, no departamento de Seine-Saint-Denis, onde ocorreu a blitz para checagem dos documentos – a qual foi alvo da acusação. No local foram registrados protestos à noite desde sábado e, na segunda-feira, a tensão chegou ao maior nível quando policiais atiraram para cima para intimidar os jovens manifestantes, uma medida pouco frequente, sobretudo em uma área residencial. Nos dez primeiros meses de 2016, a polícia recorreu a disparos desse tipo em apenas três ocasiões, segundo dados da Controladoria Geral da Polícia, citada pelo jornal Le Monde. Na segunda-feira, 26 pessoas foram presas.

Na terça-feira voltaram a ser registrados incidentes na cité des 3.000, mas menos intensos, segundo a delegacia de polícia, que confia que o apelo de Théo, um jovem sem antecedentes criminais e descrito como exemplo por seus familiares, permita acalmar os ânimos. No entanto, na primeira noite também foram jogados coquetéis molotov e veículos foram incendiados em localidades vizinhas. Entre elas está Clichy-Sous-Bois, epicentro dos distúrbios de 2005, provocados na época pela morte de dois jovens que fugiam da polícia – uma repetição que as autoridades pareciam temer. No total foram presas 17 pessoas durante a noite de terça-feira, cinco delas em Aulnay-sous-Bois.

Os fatos que deram origem a esse novo episódio de tensão, vivido como uma nova demonstração de violência policial e de racismo, começaram na quinta-feira, 2 de fevereiro. Quatro policiais realizavam uma patrulha para a checagem da identidade de cerca de dez pessoas na cité des 3.000. Entre eles estava o jovem Théo, de 22 anos, que resistiu e recebeu os golpes dos agentes. Ao chegar à delegacia, os policiais se deram conta de que o jovem sangrava e chamaram o resgate, segundo fontes policiais. O jovem foi transferido ao hospital, onde foi operado por uma lesão na região anal de 10 centímetros de profundidade, e recebeu 60 dias de licença médica.

Em seu depoimento, Théo afirma que um dos policiais enfiou o cassetete em seu ânus “voluntariamente” ao mesmo tempo em que davam-lhe uma verdadeira surra em plena rua. Lembra também dos insultos racistas. Já os acusados relatam uma luta durante a qual a calça do jovem caiu e garantem que a lesão foi involuntária. A promotoria acusou três dos agentes de violência agravada e um por estupro. Os quatro estão suspensos e sob controle judicial.

A menos de três meses das eleições presidenciais, Théo recebeu o apoio, além do presidente Hollande, da maioria dos candidatos e de grande parte da classe política. A única voz dissonante foi da ultradireitista Marine Le Pen, da Frente Nacional, que preferiu dar seu “apoio” às forças de segurança, “a menos que a justiça demonstre que cometeram delito ou crime”

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