Política externa

Temer e Macri ‘pulam’ temas espinhosos e fazem aceno ao México

Presidente argentino faz visita de Estado a Brasília para reforçar aliança com Brasil Mandatários, alinhados, decidem não falar de seus próprios imbróglios protecionistas

Temer recebe Macri no Palácio do Planalto
Temer recebe Macri no Palácio do PlanaltoADRIANO MACHADO (REUTERS)

Os presidentes do Brasil, Michel Temer, e da Argentina, Mauricio Macri, não pouparam esforços para ressaltar o momento de convergência de ideias entre os Governos – de centro-direita, ortodoxos na economia e com discurso pró-abertura comercial – durante visita de Estado do argentino a Brasília nesta terça-feira, o terceiro encontro dos dois em seis meses. A sintonia guiou as declarações de apoio a uma conduta ativa do Mercosul em busca de novos acordos comerciais, em especial com a Aliança do Pacífico, o bloco do qual faz parte o México, agora ameaçado pelo protecionismo de Donald Trump. O alinhamento serviu também a um objetivo tático: os mandatários decidiram não falar, por ora, de seus próprios imbróglios protecionistas, como a renegociação do acordo automotivo bilateral e as petições brasileiras para entrar no mercado de açúcar vizinho, e nem sequer mencionaram a Venezuela, país que vive a maior crise econômica da região e que, atualmente, está suspensa do bloco _Caracas receberia citação em nota depois.

MAIS INFORMAÇÕES

"Temos de dar um impulso histórico ao Mercosul para que 2017 seja um ano de inflexão positiva", discursou Macri, que defendeu que fortalecer o bloco internamente, grupo presidido nesta temporada pela Argentina, é necessário para que haja intensificação de trocas comerciais internas, mas também para que seja possível estabelecer mais acordos externos. “Devemos começar pela Aliança no Pacífico, mas também com o México, que com essa mudança de cenário, agora deve olhar para o sul com maior decisão”, disse Macri em referência às dificuldades mexicanas com Trump, que incluem a construção de um muro na fronteira com o país. O aceno ao Governo de Enrique Peña Nieto vem após Brasil e Argentina terem recebidos críticas por não terem sido incisivos na condenação de Washington: ambos parecem ao mesmo tempo querer se descolar da retórica anti-EUA de seus antecessores ao passo que tentam manter pontes com o errático mandatário republicano. A intenção de aproximação com a Aliança do Pacífico, o bloco mais aberto ao comércio integrado por México, Peru, Chile e Colômbia, já existia no passado, mas ganha força com as novas convicções de Macri e Temer. O mesmo vale para a negociação entre o Mercosul e a União Europeia que se arrasta há 15 anos e foi defendida pelo presidente brasileiro.

As loas à abertura, no entanto, esbarram em lobbies internos quando o assunto é o próprio Mercosul. Alguns dos problemas crônicos da relação seguem, como a renegociação do acordo automotivo bilateral. Já era para estar em vigor o livre comércio de veículos entre os países, mas o forte déficit argentino segue empurrando para adiante a discussão, ainda que o novo comando econômico argentino insista que não analisará isoladamente o superávit comercial brasileiro, de 4,33 bilhões de dólares em 2016. 

“Temos modos semelhantes de enfrentar esses desafios: reformas ambiciosas”, disse Temer referindo-se aos projetos de seu Governo, como o estabelecimento de um teto de gastos públicos e a proposta sobre uma reforma previdenciária, com uma perspectiva ainda débil de crescimento para 2017 (0,2% segundo o FMI). Na Argentina, está em curso uma agenda de forte ajuste econômico (mas com um alento de esperar um pouco mais, 2,8%, também segundo o FMI). "Frente a tantas dúvidas que o mundo nos apresenta é que temos de ser aliados no século XXI", disse Macri.

Assinaturas

De concreto, foi assinada uma carta conjunta ao presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, ligado ao Banco Mundial, em que é requisitada assistência para a elaboração de estudos para criação de uma agência binacional responsável por harmonizar normas técnicas, sanitárias e fitossanitárias dos países. A entidade, segundo os mandatários, seria responsável por aumentar os fluxos de comércios, já que reduziria barreiras para importações e exportações. “Isso significaria um marco que fortalecerá não só o comércio, mas também o desenvolvimento da produção de nossos países”, disse Macri.

Os presidentes das agências de comércio internacional dos países, Roberto Jaguaribe e Juan Procaccini, assinaram acordos para intercâmbio de publicações sobre respectivos comércios, estímulo a missões comerciais, além de promoção de contatos entre empresários. Já os ministros do exterior, José Serra e Susana Malcorra, firmaram compromisso de ajustar relações fronteiriças para que comunidades, que vivem na fronteira, possam ser atendidas por ambulâncias e carros de bombeiros que poderão passar de um país para o outro. Além disso, os dois ministros também assinaram acordo para cooperação de diplomacia digital.

Arquivado Em: