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Robinson Faria, governador do RN

Governador do RN: “O PCC ameaçou tocar fogo em Natal, mas não podemos recuar”

Temendo mais assassinatos de presos, Robinson Faria vai separar detentos por facção e quer transferir seis líderes do PCC

Presos amotinados sobre o telhado do presídio de Alcaçus, em Natal, nesta terça-feira.
Presos amotinados sobre o telhado do presídio de Alcaçus, em Natal, nesta terça-feira. EFE

Em menos de seis meses, o governador do Rio Grande do Norte, Robinson Faria (PSD), enfrenta sua segunda crise penitenciária. Em agosto, as rebeliões ocorreram por conta da instalação de bloqueadores de celular em presídios. Agora, ao menos 26 presidiários foram assassinados em Alcaçuz em retaliação à morte de 60 integrantes do PCC em Manaus. Diante do cenário catastrófico, Faria vê uma saída: remover os líderes das facções criminosas para prisões federais. Seis deles deverão ser transferidos nos próximos dias. Desde esta terça-feira, o governador está em Brasília para pedir ajuda do governo Michel Temer (PMDB).

Pergunta. Por que a crise penitenciária chegou a esse ponto no Rio Grande do Norte?

Resposta. Essa crise penitenciária não é uma questão local. Ela é um problema nacional que envolve, principalmente, o tráfico de drogas. O PCC hoje domina praticamente o tráfico internacional de drogas no Brasil. E as demais facções também querem ter uma fatia dessa droga, do comércio. E há uma briga nos Estados. Quando não se consegue entrar nesse mercado, há os confrontos. No meu Estado foi uma retaliação a Manaus. Os criminosos do PCC se vingaram lá e os membros deles de São Paulo comemoraram. É uma briga nacional. Meu Estado foi intimidado, e eu não recuei. É preciso haver uma união nacional para combater esse problema. Nós pedimos a transferência de seis líderes do PCC para presídios federais.

P. O PCC já ameaçou uma retaliação ao Estado?

R. Sim. Mas nós não podemos recuar. Ele falou que, se entrássemos no presídio, iam tocar fogo em Natal. Por enquanto, está sob controle. O que não podemos é ceder ao PCC. Mas temos de tomar cuidado com nossa atuação. Se a polícia entrar sem o devido cuidado, pode haver novas mortes, pode ter confrontos com policiais e vai ser um novo Carandiru.

P. O Sindicato do Crime, a facção local, domina 24 das 32 penitenciárias locais. Como vocês vão trabalhar isso?

R. O Sindicato do Crime não tem o poder financeiro e bélico do PCC. Ele, o PCC, é a maior indústria da violência do país. Vamos trabalhar com a separação dos detentos, agora.

P. Quando será feita essa separação?

R. Iniciamos hoje um processo, falamos com o Ministério Público e o Judiciário para separar essas duas facções. No caso de Alcaçuz, vamos retirar os presos do PCC de lá porque foram eles que fizeram o ataque. Infelizmente, existe PCC em quatro presídios, mas em menor quantidade que o sindicato do crime do RN. Mas eles têm mais poder de aliciamento, de armamentos. Acho que na hora que se separar, poderá se voltar à normalidade.

P. E qual é o tamanho do PCC no Estado?

R. Estima-se que ao todo são entre 500 e 600 presos do PCC. Em Alcaçuz, por exemplo, só havia 200 do PCC contra quase 800 do Sindicato. Eles tiveram êxito porque pegaram o sindicato desprevenido.

P. Ano passado o Rio Grande do Norte registrou ataques a ônibus e prédios públicos em decorrência da instalação de bloqueadores de celulares. Como isso está hoje?

R. Eu implantei os bloqueadores e hoje eles seguem funcionando. Nessa rebelião de sábado, eles conseguiram destruir a base blindada que armazenava o bloqueador de celular. E isso é muito estranho, precisa ser investigado, se houve facilitação. Momentaneamente ficamos sem bloqueador, mas já voltou a funcionar.

P. Quando se separam os presos por facções, o Estado não admite que fracassou no combate à criminalidade e que não tem controle de suas prisões?

R. Não. Essa é uma tratativa fundamental. Já que existe hoje essa guerra nacional do PCC contra as demais facções, nós temos de separar. Senão, todo dia teremos uma matança de uma facção contra a outra. Mas com a transferência dos líderes, imaginamos que a violência vá diminuir.

P. O que o senhor pediu para o ministro da Justiça hoje?

R. Pedi e ele autorizou o envio de uma equipe de pronto-atendimento da Força Nacional, o envio de um helicóptero para ajudar nas buscas, pedimos um aumento do efetivo e um apoio financeiro, para reconstruir Alcaçuz. Ano passado o presidente já liberou quase 50 milhões de reais, mas vai estudar a liberação de mais recursos.