Serviços de inteligência dos EUA acusam Putin de tentar ajudar Trump em eleição

Presidente eleito admite pela primeira vez a possibilidade de ciberataques, mas nega que eles tenham influenciado as eleições, e denuncia “caça às bruxas”

Donald Trump em uma entrevista coletiva na Flórida dia 28 de dezembro.
Donald Trump em uma entrevista coletiva na Flórida dia 28 de dezembro.Evan Vucci (AP)

“Consideramos que Putin e o Governo russo tentaram ajudar na eleição do presidente eleito Donald Trump, descreditando a Secretária [Hillary] Clinton e colocando-a de forma negativa em comparação a ele”, afirmam a CIA, o FBI e a Agência de Segurança Nacional no relatório. Além disso, as agências acrescentam que, quando Moscou percebeu que Clinton tinha mais chances de vitória, “a campanha centrou-se mais em depreciar seu futuro governo”.

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“Os objetivos da Rússia eram atingir a opinião pública a respeito do processo democrático dos EUA”, conclui o relatório, assim como havia sido adiantado pelos responsáveis das agências na quinta-feira, no Congresso. As agências também argumentam que a Rússia tem um “histórico” de campanhas ocultas na tentativa de influenciar as eleições americanas.

A polêmica surge a duas semanas da posse de Trump como governante do país, no próximo dia 20 de janeiro. O empresário nova-iorquino recebeu o documento completo, em primeira-mão, pouco antes da divulgação oficial, durante reunião com os responsáveis de Inteligência, a quem estava criticando até então a respeito desta investigação. Depois do encontro, o magnata continuo negando que a espionagem atribuída ao Kremlin havia sido decisiva para sua vitória, embora tenha admitido que a Rússia pode ter realizado os ciberataques.

“Embora a Rússia, a China e outros países, grupos e pessoas externas estejam tentando entrar na ciberestrutura de nossas instituições governamentais, em nossos negócios e organizações, incluindo o Comitê Nacional Democrata, isso não teve qualquer efeito no resultado das eleições, inclusive porque não houve qualquer alteração nas máquinas de votação”, destacou o presidente eleito.

Os maiores vazamentos da campanha presidencial aconteceram no meio do ano passado, quando foram divulgados e-mails de membros do Partido Democrata que demonstravam sua atuação para favorecer a vitória de Hillary Clinton sobre seu rival nas primárias, o esquerdista Bernie Sanders. O escândalo custou o emprego da presidenta do Comitê Democrata, Debbie Wasserman Schultz. Meses depois, o Wikileaks também publicou uma série de e-mails do chefe da campanha de Clinton, John Podesta, que mostravam contradições da campanha democrata.

As 17 agências envolvidas na investigação confirmaram o envolvimento russo sem dúvidas, mas o presidente eleito acredita que há uma politização destes órgãos. Para Trump, a investigação é uma reação à perda das eleições por parte de Hillary, embora as agências estadunidenses já destacavam o envolvimento de Moscou desde outubro, um mês antes do pleito. Na entrevista ao Times, Trump também falou sobre o roubo de dados pessoais de funcionários por parte da China, em 2015, e denunciou que este caso não tem merecido o mesmo tratamento. “Há pouco tempo, a China hackeou 20 milhões de nomes do Governo. Como ninguém fala nisso? É uma caças às bruxas política”, enfatizou.

O presidente eleito também falou sobre algumas das notícias desta semana, que diziam que o Comitê Democrata negou ao FBI o acesso a seus servidores depois do ataque. “Como eles têm certeza do ataque se nem tiveram acesso aos servidores?”, criticou.

O caso de espionagem durante as eleições levou o presidente Obama a impor pesadas sanções sobre a Rússia. As medidas colocarão Trump em uma situação complicada se ele insistir em duvidar da autoria russa. Na quinta-feira, no Congresso, o diretor da Inteligência Nacional, James Clapper, foi incisivo: “Apenas os governantes do mais alto escalão russo poderiam ter autorizado os recentes roubos e vazamentos de dados relacionados às eleições, devido ao alcance e à sensibilidade dos alvos”.

O caso também faz o presidente eleito bater de frente com muitos republicados, que acreditam no envolvimento de Moscou e enxergam com surpresa a simpatia de Trump por Putin.

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