Chefes de inteligência desmentem Trump e acusam novamente a Rússia

Principais agências consideram “sem precedentes” a interferência eleitoral de Moscou

O Diretor de Inteligência Nacional, James Clapper (e) e o da NSA, Mike Rogers
O Diretor de Inteligência Nacional, James Clapper (e) e o da NSA, Mike RogersCHIP SOMODEVILLA (AFP)

“A Rússia é um ciberator pleno que constitui uma grande ameaça para o Governo dos EUA e seus interesses militares, diplomáticos e comerciais, bem como à infraestrutura crítica e as redes de recursos principais”, afirmaram o Diretor Nacional de Inteligência, James Clapper, o chefe da Agência de Segurança Nacional (NSA), Michael Rogers, e o subsecretário de Defesa para Inteligência, Marcel Lettre. A periculosidade da Rússia é resultado de “seu ciberprograma altamente ofensivo e suas sofisticadas táticas, técnicas e procedimentos”, explicaram em um comunicado conjunto feito ao Comitê de Forças Armadas do Senado.

Também não cabe dúvida, acrescentaram, que só o Kremlin pode ter dado o aval para essas atividades, como afirmaram desde outubro e reiteraram em um relatório apresentado nesta quinta-feira ao presidente Barack Obama e na sexta-feira a Trump.

Mais informações

“Somente os mais altos responsáveis da Rússia poderiam ter autorizado os recentes roubos e vazamentos de dados relacionados com as eleições, dado o alcance e a sensibilidade dos objetivos”, sublinharam. Qual é o grau de confiança nessas afirmações? “Muito alta”, respondeu Clapper, enquanto as outras testemunhas concordavam. De volta ao assunto do nível de responsabilidades ao longo da audiência, o Diretor Nacional de Inteligência duvidou de que na Rússia possa ser feito algo “politicamente sensível para outro país” sem a autorização expressa do presidente Vladimir Putin. Clapper, que entrou nos serviços de inteligência no início dos anos 60, durante a Guerra Fria, ainda disse que a interferência russa nestas eleições não teve precedentes.

“Não acredito ter visto uma campanha mais agressiva ou direta para interferir em nosso processo eleitoral que a deste caso”, declarou, notando que a interferência russa foi além da espionagem cibernética e também foi vista em propaganda e divulgação de notícias falsas.

O comitê presidido pelo senador republicano John McCain, um dos mais fortes críticos de Trump e sua firme defesa russa, inaugurou o novo Congresso recém aberto com uma audiência genericamente intitulada “Ciberameaças estrangeiras nos EUA” mas que, sem dúvida, teve como objetivo analisar as recentes acusações de ciberespionagem contra Moscou que o presidente russo, Vladimir Putin, negou enfaticamente e que o presidente eleito norte-americano tem questionado repetidamente. McCain é o republicano que, junto com o colega senador Lindsey Graham, lidera as críticas contra Trump por sua defesa de Moscou contra os próprios serviços de inteligência.

Enquanto Trump voltava a questionar as conclusões das agências norte-americanas e a decisão de Obama de punir a Rússia expulsando 35 diplomatas nos últimos dias e horas de 2016, McCain estava viajando pelos países que se sentem ameaçados pela Rússia: Ucrânia, Geórgia, Estônia, Letônia e Lituânia. Foi acompanhado por Graham, que também é parte do comitê que discutiu na quinta-feira a responsabilidade russa na pirataria informática a estruturas e personalidades democratas durante a campanha.

Segundo McCain, que chegou a pedir a criação de um comitê especial para investigar as acusações contra a Rússia — algo com que a liderança do seu partido, que domina o Congresso, não concordou — “todo norte-americano deveria se sentir alarmado com ataques da Rússia contra a nossa nação”.

Os responsáveis pela inteligência russa se recusaram a revelar novos detalhes sobre as evidências que levaram as 17 agências envolvidas a apontar, de forma unânime, a Rússia pelos ciberataques. Obama deve receber na quinta-feira o relatório que solicitou sobre este assunto e que Trump também poderá ver em sua reunião com os líderes da inteligência, incluindo Clapper e Rogers, que será realizada na sexta-feira em Nova York. Segundo confirmou Clapper, também está sendo preparado um relatório desclassificado que, espera-se, poderá ser divulgado ao público na próxima semana para que todos os norte-americanos possam entender melhor a situação. O chefe de inteligência, que vai deixar o cargo que ocupa desde 2010 quando o novo gabinete assumir, evitou a todo momento fazer uma crítica aberta a Trump, mas lamentou que seja dada mais credibilidade, como fez o presidente eleito, a pessoas como Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, que aos serviços de inteligência nacionais. Algo que, advertiu, mina a confiança neles.

“A confiança do público na comunidade de inteligência é crucial”, disse Clapper, que também destacou “a dependência de outros países” no trabalho feito por agências norte-americanas. Como revelou, nos últimos tempos recebeu “muitas demonstrações de preocupação dos aliados estrangeiros pelo que foi interpretado como um menosprezo da comunidade de inteligência”.

Neste sentido, e parafraseando a defesa de Trump feita pelo seu vice-presidente, Mike Pence, um dia antes, ao afirmar que o presidente eleito está apenas mostrando um “ceticismo saudável”, Clapper disse que “há uma diferença entre o ceticismo saudável, que deveriam ter os mais altos responsáveis, e o desprezo”.

Nos últimos dias, Trump acusou Clapper e os outros responsáveis pela inteligência dos EUA de ter atrasado o encontro sobre a “chamada atividade hacker russa”, segundo disse, com explícitas aspas em um tuíte, plataforma na qual também deu credibilidade às declarações de Assange negando a autoria russa dos vazamentos publicados por WikiLeaks. Tanto Clapper quanto Rogers rejeitaram enfaticamente dar crédito, como fez Trump, a Assange, um personagem que no passado, com suas revelações, “colocou em perigo” pessoas dos Estados Unidos, acusaram.