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Trump amedronta e se impõe

É urgente limitar o risco de uma onda de protecionismo global

Trabalhadores da Ford ouvem o presidente da empresa, Mark Fields, em 3 de janeiro.
Trabalhadores da Ford ouvem o presidente da empresa, Mark Fields, em 3 de janeiro.R. COOK

Uma vez mais pelo Twitter. E uma vez mais antes de pôr os pés na Casa Branca. Ele já conseguiu isso em dezembro, ao forçar a empresa de refrigeração Carrier a cancelar seus planos de expansão no México. Ele o anunciou triunfalmente na ocasião e agora voltou a proclamar: acabou o tempo que as empresas norte-americanas podiam se mudar para o exterior sem “consequências”, que avaliou em tarifas de 35%.

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Agora, a vítima é nada menos do que a Ford, a empresa pioneira de uma das indústrias mais importantes do mundo, que também cedeu à pressão do presidente eleito ao anunciar que cancelará um investimento de 1,6 bilhão de dólares (cerca de 5,15 bilhões de reais) previsto no México. Os executivos da Ford afirmam ter revisto para baixo as previsões da demanda por veículos compactos baratos que planejavam produzir na fábrica mexicana de San Luis Potosí, e que no lugar desse investimento decidiram aumentar a produção de veículos elétricos fabricados nos EUA. Mas tudo indica que esta última explicação é apenas uma maneira de dignificar uma decisão que procura congraçar-se com um presidente que está a poucos dias de tomar posse e que, para confirmar que seus extemporâneos tuítes devem ser levados a sério, nomeou uma equipe (Robert Lightizer como negociador de Tratados, Wilbur Ross como secretário de Comércio e Peter Navarro como principal conselheiro em assuntos relativos ao comércio) que deixa claro que em matéria de comércio não improvisa em absoluto e nem pensa fazê-lo.

Apesar das incertezas que cercam a presidência de Trump, está se desenhando com toda a nitidez um mandato presidido por fortes confrontos com o México, a China e todos aqueles que ousarem se opor às suas ameaças e bravatas, dentro ou fora dos EUA. Trump esquece — ou, pior ainda — desconhece que os EUA são o principal beneficiário de uma ordem internacional aberta e que a abertura de uma dinâmica protecionista que leve outros países a impor tarifas sobre as exportações norte-americanas prejudicaria significativamente os EUA. É urgente — antes que seja tarde demais — uma ação internacional concertada para delimitar o caminho a Trump e limitar o risco de uma onda de protecionismo global.

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