A agonia da URSS

Em 8 de dezembro de 1991, Boris Yeltsin, Stanislav Shushkevich e Leonid Kravchuk deram o tiro de misericórdia na URSS

Boris Yeltsin se dirige à multidão do alto de um tanque em Moscou durante a tentativa de golpe de Estado de agosto na URSS.
Boris Yeltsin se dirige à multidão do alto de um tanque em Moscou durante a tentativa de golpe de Estado de agosto na URSS.AFP

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Ao chegar ao poder em 1985, na qualidade de secretário-geral do Politburo (órgão diretor colegiado máximo do PCUS), Mikhail Gorbachov empreendeu uma política de reformas conhecida como “perestroika”. De seu ponto de partida (a necessidade de sair do estancamento econômico e superar o crescente atraso tecnológico) até seu ponto final, a “perestroika” passou por diversas fases e estabeleceu várias prioridades. A consequência não desejada por seus criadores foi o desmembramento da União Soviética, o Estado criado como alternativa ao capitalismo depois da revolução de 1971 e consolidado por seus fundadores mediante o Tratado da União de 1922.

Os historiadores discutem se aquele processo foi inevitável e se teria sido possível desenvolver-se de outra maneira e em outro ritmo, mas a verdade é que a “perestroika” escapou das mãos de seus protagonistas iniciais e acabou sendo vítima da própria complexidade da tarefa empreendida e da falta de experiência e tecnologia para concluir com sucesso um processo sem precedentes.

Em 1990, os sintomas de desintegração já afloravam claramente. Os dirigentes das quinze repúblicas federativas da URSS cultivavam seus próprios projetos, que não estavam em sintonia com os de Gorbachov e sua equipe, divididos entre uma ala conservadora e outra mais radical. O novo parlamento surgido em 1989 na URSS propôs, em março de 1990, emendas ao artigo 6 da Constituição, que determinava o papel dirigente do Partido Comunista. A consequência foi o desmoronamentos da coluna vertebral do Estado. Esse mesmo parlamento, no mesmo ano, elegeu Mikhail Gorbachov como presidente da URSS, o que, para muitos analistas, foi o início do fim, pois privou o líder da “perestroika” da legitimidade que teria se tivesse sido eleito por sufrágio universal.

Boris Yeltsin, o líder russo, é que foi eleito por sufrágio universal e utilizou a “soberania” da Rússia (declaração de soberania aprovada em 12 de junho de 1990) para lutar contra o centro federal representado por Gorbachov e tirar-lhe poderes. Yeltsin se fez eleger como presidente da Rússia, enquanto outros dirigentes republicanos se consolidaram como líderes de seus territórios (que formalmente nunca tinham deixado de ser Estados independentes com direito à secessão da URSS) e deixaram de apoiar o projeto democratizador do Estado único soviético. A tentativa de golpe de Estado de agosto de 1991 foi mortal para a União Soviética que, já perdida nas repúblicas bálticas, entrou em fase de agonia.

No outono de 1991, na dacha de Novoogariovo, nas proximidades de Moscou, Gorbachov tentou novamente salvar o Estado e as discussões sobre um novo Tratado da União. Na época, Leonid Kravchuk era o chefe da Rada Suprema da Ucrânia (o parlamento daquela república), onde a ideia da independência da Ucrânia adquiria cada vez mais força. O referendo de 1o de dezembro na Ucrânia confirmou a vontade de independência daquele país e reverteu a tendência expressa em março de 1991, quando a república eslava votou pela manutenção da URSS.

A desintegração da URSS foi uma surpresa para o mundo. Em julho de 1991, o presidente dos EUA, George Bush pai, pronunciando-se diante o parlamento em Kiev, instou a classe política ucraniana a manter-se na URSS. No entanto, quando encontrou em Madri com Gorbachov em outubro em uma conferência sobre o Oriente Médio, Bush encheu de perguntas o líder soviético, que se mostrava confiante de que a Ucrânia permaneceria ao lado da Rússia.

Depois do encontro nos bosques da Bielorrússia em 8 de dezembro, os líderes eslavos participaram de um encontro com os líderes de outras repúblicas da URSS em Alma Atá, no Casaquistão, em 21 de dezembro. O tratado de constituição da Comunidade de Estados Independentes (a CEI), que era uma forma de manter os vínculos durante o processo de “divórcio”, foi assinado por um total de 11 dos 15 Estados da URSS: Cazaquistão, Armênia, Azerbaijão, Quirguistão, Moldávia, Tadjiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, além das três repúblicas eslavas.

A URSS tinha deixado de existir em 25 de dezembro de 1991. Gorbachov renunciou à presidência do Estado desaparecido e entregou a maleta nuclear a Boris Yeltsin, na qualidade de chefe do Estado declarado herdeiro da URSS. Pela última vez, naquele dia, foi arriada a bandeira soviética do Krêmlin. Naqueles dias finais na fortaleza do poder russo e soviético, alguns jornalistas compraram a preços módicos, dos empregados do Krêmlin, peças da louça com a cruz e o martelo da URSS.