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Matteo Renzi renuncia ao cargo de primeiro-ministro da Itália após derrota em referendo

O 'não' se impõe com quase 60% dos votos, em um referendo com alta participação popular

Mateo Renzi, depois de anunciar esta noite sua demissão.
Mateo Renzi, depois de anunciar esta noite sua demissão.ANDREAS SOLARO (AFP)

Matteo Renzi jogou tudo, perdeu de maneira clamorosa e não esperou o final da apuração para, como havia prometido, apresentar sua renúncia se o seu projeto de reforma constitucional não superasse a prova do referendo. “Assumo toda a responsabilidade pela derrota”, disse o ainda primeiro-ministro da Itália após parabenizar os partidários do não, “e quando se perde não é possível ir dormir vaiando o resultado como se não fosse nada. Aqui termina a minha experiência de Governo”. Os italianos compareceram em massa às urnas para expressar seu repúdio ao plano de Renzi de reformar 43 artigos da Constituição do país, Sergio Mattarella. O presidente da República decidirá agora quem tomará as rédeas do Executivo.

Na segunda-feira, após se reunir com seus ministros, Matteo Renzi subirá ao Palácio do Quirinale para apresentar sua renúncia ao presidente da República. Uma renúncia que, assim que a votação foi encerrada e se conheceu o tamanho da derrota através das primeiras pesquisas de boca de urna, os representantes da oposição já haviam solicitado.

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O primeiro foi Matteo Salvini, o líder da Liga Norte, que aproveitou a conjuntura para lançar vivas a Donald Trump, Vladimir Putin e Marine Le Pen. Mais tarde foi Renato Brunetta, um dos homens de confiança de Silvio Berlusconi, quem alertou: “Se as pesquisas de boca de urna se confirmarem, Renzi deve renunciar. Quando e como é ele quem deve decidir, mas precisa sair”. O último foi Beppe Grillo, o líder do Movimento 5 Estrelas (M5S), que pediu a convocação de eleições.

A oposição e os críticos do Partido Democrático (PD) do ainda primeiro-ministro irão lutar a partir de agora para repartir as sobras de Renzi, que há poucos meses parecia invencível, a única figura de peso na política italiana, e que caiu por um erro de cálculo que só pode ser atribuído ao seu excesso de confiança. Seu projeto de dar mais poder ao Governo – através de uma reforma da lei eleitoral que penalizaria os partidos menores e tiraria do Senado seu poder de bloqueio – foi entendido pela oposição e boa parte da população como uma tentativa de se perpetuar no poder. Um poder ao qual chegou sem passar pelas urnas – após tomar o Governo de seu colega de partido Enrico Letta –, mas que perderá democraticamente.

Em apenas um mês, Renzi foi de último presidente estrangeiro recebido por Barack Obama na Casa Branca ao responsável por uma manobra que dividiu a Itália e que lança o país em um futuro incerto.

Especialmente porque, além das reformas concretas e de uma única pergunta confusa para modificar 47 artigos da Constituição, o que estava por trás era um voto de confiança a Renzi. O jovem ex-prefeito de Florença transformou a consulta em um plebiscito sobre sua liderança. E se deu mal. Ele não recebeu 59,11% dos votos, e sim somente 40,89%. A participação foi massiva, com 68,2% dos eleitores. Somente duas regiões deram seu apoio à reforma do primeiro-ministro: em sua Toscana natal e em Trentino. No restante do país, o repúdio se impôs inexoravelmente.

Queda do euro

Os partidos italianos da oposição, sempre em disputa, souberam se unir nessa ocasião em uma frente única – “uma bagunça” nas palavras de Renzi – e tomar o discurso do primeiro-ministro, acusando-o de sustentar sua reforma no apoio e nos interesses de banqueiros e grandes empresários. A estratégia deu resultado, e o não ao referendo se transforou em um voto antissistema, de repúdio aos poderes fortes e à casta.

A derrota de Renzi lança novas dúvidas sobre o projeto europeu e a moeda comum refletiu tal estado de ânimo ao cair mais de 1% em relação ao dólar após a derrota de Renzi se confirmar, até valer 1,055 euro por dólar.

Renzi quis atribuir a si próprio a inteira responsabilidade pela derrota. “A experiência do meu Governo acaba aqui”, anunciou. “Eu queria reduzir o número das cadeiras e quem saiu fui eu. O resultado é claro. A vitória do não foi extraordinária. Perdi, e mesmo que na política italiana ninguém nunca perca, eu quero repetir em voz alta. Eu perdi. Sou diferente e o digo com um nó na garganta. Acredito na democracia. E quando se perde não é possível ir dormir vaiando o resultado como se não fosse nada. Aqui acaba meu Governo. Eu vou embora sem remorsos”. Deixa a incógnita sobre se vai para sempre ou para preparar seu regresso.

Para ressaltar a necessidade de sua reforma, que o Senado já aprovou em outubro de 2015 e a Câmara dos Deputados em abril, Renzi costumava lembrar que seu Governo era o 63° em 70 anos de democracia. A Itália terá agora que buscar seu chefe de Governo número 64 em somente sete décadas.

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