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Projetar a Antártica em um festival de cinema no extremo do mundo

Evento no sul do Chile exibe filmes ambientais com destaque à maior reserva planetária de água doce

Cena do documentário chileno 'Tánana', sobre um descendente do povo yaguán, originário da Patagônia chilena.
Cena do documentário chileno 'Tánana', sobre um descendente do povo yaguán, originário da Patagônia chilena.Reprodução

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O filme foi uma das 51 obras selecionadas pelo 5° Festival Internacional de Cinema da Antártica, o FICAMS, que aconteceu no fim de novembro na Patagônia, no extremo sul do Chile, com o intuito de discutir a postura do ser humano na Terra. O correto é habitar o espaço e gastar seus recursos ou coabitá-lo e agir de maneira sustentável? A resposta é óbvia, mas poucos são os lugares no mundo que escancaram todo dia essa responsabilidade ambiental. Um deles, o “pulmão do mundo”, é a Amazônia. Outro, sem dúvida, é a Antártica – a maior reserva marinha e também de água doce do planeta.

O cinema poderia ajudar a projetá-la, com toda a carga de significados que ela representa. O FICAMS sabe disso e, pouco a pouco, aproveita os encantos naturais do estreito de Magalhães, que atrai pessoas do mundo inteiro a Punta Arenas, para se transformar nessa janela verde. Para a edição deste ano, o festival recebeu mais de 150 obras sobre meio ambiente e sustentabilidade em geral e selecionou ao fim 32 títulos, entre longas e curtas de ficção e documentários divididos em duas seções competitivas (nacional e aberta). E exibiu outras 19 produções em uma mostra paralela, cuja missão é ampliar os temas que passeiam pela programação: aquecimento global, consumo, reciclagem, entre os gerais, e pesca, povos originários e espécies animais e vegetais em risco na região, entre os mais específicos.

Em cinco dias de atividades nesse fim de novembro, um público de 1.200 pessoas frequentou gratuitamente a sala destinada ao festival no cinema do único shopping center de Punta Arenas. Nada mal para uma cidade que nesta época do ano tem temperaturas agradáveis e luz das 4h da manhã às 11h da noite – e que provavelmente preferiria estar ao ar livre. Há cinco anos, na primeira edição do FICAMS, em 2011, esse número rondava os 800 espectadores, o que leva o evento a celebrar seu crescente poder de mobilização.

Por cinco dias, 1.200 pessoas frequentaram o cinema do único shopping center de Punta Arenas. Nada mal para uma cidade que nesta época do ano tem temperaturas agradáveis e luz das 4h da manhã às 11h da noite

“Nossa maior indagação é para onde queremos ir como seres humanos, reconhecendo os demais coabitantes do planeta”, explica Cristian Valle, codiretor do festival ao lado de Nicolás Recabarren e Macarena Fernández. Para ele, destacar a Antártica do nome às mesas de debate do evento, incluindo os filmes, significa por em primeiro plano “um dos equilibrantes do ecossistema mundial” e também refletir sobre o continente gélido, que de Punta Arenas está a menos de 4.000 quilômetros de distância. “O Chile se vê em grande parte como um país mineiro, e inclusive muitos chilenos são alheios à cultura do extremo sul. Mas o fato é que compartilhamos uma cultura antártica”, explica o realizador audiovisual, ressaltando uma das coisas que o FICAMS gostaria de mudar.

Outra delas, sem dúvida, é a consciência sobre o clima. Nos dias do festival em Punta Arenas – antes de partir em itinerância nas regiões próximas de Puerto Natales e Cabo de Hornos –, os termômetros da cidade chegaram a marcar máximas de 21°C. O fato, celebrado sobretudo à beira das águas do estreito de Magalhães, mostra que as mudanças climáticas deixaram de ser só objeto de estudos e alertas de cientistas. Por isso, uma grande conquista do evento seria tocar o maior número possível de “pessoas comuns”. Com isso sonha Cristián Valle: “Se o festival fosse para nossos amigos ligados em meio ambiente, exibiríamos os filmes na minha casa”, brinca o diretor.

Fauna antártica.
Fauna antártica.Reprodução (Ficams)

Outra grande motivação do FICAMS é inspirar talentos locais a investir em produções próprias. Para isso, parte do programa desta 5ª edição foi dedicada a encontros com profissionais de audiovisual, meio ambiente e ciência – a maioria deles, chilenos. Estiveram presentes para trocar experiências, entre outros, o cineasta Carlos Flores e diretor do Festival Internacional de Documentários de Santiago (Fidocs), Fernando Lataste, produtor do Festival Internacional de Cinema de Valdívia, as produtoras Beatriz Rosselot e Macarena Concha e o arquiteto e pesquisador Pedro Serrano. Todos são figuras com projetos de destaque em Santiago e em outras cidades chilenas, como Viña del Mar e Concepción. E que têm a Patagônia cada vez mais no radar.

Um tema debatido por eles, por sinal, foi a capital como centro dos esforços culturais no Chile – algo que prejudica o pulo do gato da indústria. “Todo esforço de descentralização do audiovisual no país deve ser aplaudido. O potencial do FICAMS para atrair o público ao sul é enorme”, opina Rosselot. Na visão de Serrano, isso pode acontecer se ele, de fato e em um sentido amplo, projetar a Antártica. “É um lugar quase desconhecido, ao qual a imensa maioria das pessoas só vai chegar pelo audiovisual”, disse o especialista convidado a falar sobre “o habitar e a relação do homem com o seu entorno” no fórum organizado em paralelo aos filmes. Para ele, “o continente antártico é de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Temos de reivindicá-lo, sem ser donos dele”.

Veja abaixo alguns destaques do FICAMS para rastrear e assistir depois:

'Castores – La invasión del fin del mundo', de Pablo Chehebar (Argentina)

É o documentário que venceu a competição internacional. Trata de um tema que poucos conhecem: a superpopulação de castores na Terra do Fogo, a última pontinha da América do Sul antes da Antártica, compartilhada por Argentina e Chile.

'Surire', de Bettina Perut e Iván Osnovikoff (Chile)

Venceu a competição nacional. O documentário retrata personagens do altiplano chileno, na fronteira com a Bolívia, uma região desértica em que a vida é garantida a cada dia, em ritmo lento e paisagens deslumbrantes – hoje ameaçadas por um projeto mineiro.

'Tánana', de Alberto Serrano Fillol e Cristóbal Azócar (Chile)

“Pronto para zarpar”, no idioma yagán (um dos povos originários da Patagônia chilena), é o significado do título desse documentário sobre Martín Gonzáles. Martín, descendente dos yagán, um povo das águas, constrói um barco e se prepara para cruzar o Cabo de los Hornos, depois de 40 anos proibido de navegar.

'La hija de la laguna', de Ernesto Cabellos (Peru)

Celebrado documentário peruano, que já circulou por vários festivais internacionais, angariando prêmios e menções honrosas. É protagonizado por Nélida, uma mulher dos Andes peruanos que fala com os espíritos das águas. Ela luta ao lado de outros camponeses para deter a destruição causada em sua região pela maior mineradora da América do Sul.

'S.O.S. Antártica' , de Roberto Matamala e Lilian Villanueva (Chile)

Uma animação de ficção que aborda o aquecimento global e como ele afeta a Antártica e o resto do mundo. Três personagens protagonizam a história: uma alga vermelha, um pinguim e uma baleia. É um chamado a crianças e jovens para cuidar do planeta.

'Yubartas', de Van Rouveroy (Colômbia e Holanda)

Documentário holandês produzido na Colômbia, sobre as baleias que migram da Patagônia para o Chocó, no noroeste colombiano, onde se reproduzem todos os anos. Vários problemas ameaçam esse ciclo, o que fez com que comunidades chocoanas se organizassem para salvá-las.

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