Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Cuba e Venezuela, uma relação de socialismo e petróleo

Chegada de Hugo Chávez ao poder foi crucial para consolidar a relação entre os dois países

Fidel Castro
Hugo Chávez e Fidel Castro, em um hospital de Havana em 2006. REUTERS

Apenas 15 dias depois de sua entrada triunfal em Havana com um séquito de barbudos, Fidel Castro chegou a Caracas. Era sua primeira viagem ao exterior como chefe do Governo revolucionário, depois de derrubar o regime de Fulgencio Batista. Mas não foi por ingenuidade, e sim para sinalizar o estilo inovador da sua liderança, que ele desembarcou do avião na Venezuela com um fuzil pendurado no ombro.

Castro escolheu visitar a Venezuela para agradecer o apoio recebido de Caracas durante a ofensiva final de sua campanha guerrilheira iniciada na Serra Maestra: dinheiro, armas e outros equipamentos, sim, mas sobretudo respaldo político. O comandante era esperado com um banho de povo na capital venezuelana, onde, um ano antes, havia assumido o poder uma Junta Cívico-Militar encabeçada por um oficial naval de tendência progressista, o vice-almirante Wolfgang Larrazábal.

“Hoje eu diria tudo afirmando que senti uma emoção maior ao entrar em Caracas do que experimentei ao entrar em Havana”, manifestou ele no começo do seu discurso àquela que, tantos anos depois, continua sendo lembrada com a maior concentração política já ocorrida na cidade. Era 23 de janeiro de 1959, e completava-se o primeiro aniversário da deposição da ditadura do general Marcos Pérez Jiménez. Cerca de 100.000 pessoas lotavam a avenida Bolívar. A principal atração do comício eram as palavras do líder da Revolução Cubana, que tantas expectativas gerava naqueles dias. Antecipando seu internacionalismo militante, que o levaria a respaldar ativamente a própria insurgência venezuelana pouco tempo depois, Castro demonstrou sua gratidão por “este povo bom e generoso, ao qual não dei nada e do qual os cubanos recebemos tudo”.

A visita, porém, terminaria em desastre. Um acidente na pista de aterrissagem custou a vida de um membro da comitiva cubana e, além dessa tragédia, Castro se desentenderia com o pai fundador da social-democracia na Venezuela, Rómulo Betancourt, que detinha então o título de presidente-eleito, após ganhar a primeira eleição livre em dez anos, em 7 de dezembro de 1958. Sobre a reunião entre Castro e Betancourt há tantas especulações como a respeito do encontro entre os libertadores Bolívar e San Martín em Guayaquil, em 1822. Sabe-se, entretanto, que Castro, antecipando uma ruptura com os Estados Unidos, pediu ao dirigente venezuelano pactuar um fornecimento estável de petróleo em condições favoráveis, ao que Betancourt se negou com crueldade: se queria petróleo, que pagasse.

Se o petróleo foi determinante para a Cuba dos irmãos Castro, não menos importante foi a presença de médicos cubanos na Venezuela

Pouco tempo depois, Betancourt se tornou inimigo de Castro. O modelo de pacto social e de democracia representativa da Venezuela servia como contraponto na América Latina à fórmula cubana de luta armada e regime de partido único. Um setor da juventude venezuelana foi combater o sistema capitalista a partir das montanhas, animado primeiro pelo exemplo castrista e, mais tarde, apoiado e instrumentalizado por Havana, num ambiente que levaria Caracas a romper suas relações com a ilha. Em meio a essa crise, e apesar do seu gênio estratégico, Castro dificilmente previu que teria de esperar mais 40 anos para conseguir sua tão desejada torneira de petróleo na Venezuela.

A partir daí, uma mistura de orgulho ferido e avidez por combustível estimulou Fidel Castro a colocar as mãos sobre a Venezuela. Soube, em todo caso, adaptar esses apetites geoestratégicos às realidades do final da Guerra Fria e do vindouro período especial cubano – quando o desaparecimento do subsídio soviético asfixiou a economia da maior das Antilhas. Aceitou uma conciliação com Carlos Andrés Pérez, que foi duas vezes presidente da Venezuela após servir como ministro de Betancourt. Pérez, com presunções de líder continental, entendeu que essa projeção só poderia significar uma normalização das relações com Cuba e, num plano mais pessoal, se firmar como interlocutor de Fidel.

Para a posse de Pérez em seu segundo mandato, em 1989, Castro voltou a Caracas, 30 anos depois da primeira visita. Era a relíquia entre o grupo de presidentes que compareceu à solenidade. Deu entrevistas que consagraram deslumbrados jornalistas que nem sequer haviam nascido quando Castro tomou o poder, e ofereceu conselhos próprios de um avô a uma sociedade que a essa altura mal lhes deu crédito, embalada que estava na direção da abertura econômica.

Mas, a partir do Caracazo de alguns dias depois, em fevereiro de 1989, as comoções sociais levariam à ruína não só com o programa de ajustes econômicos de Carlos Andrés Pérez como também o seu próprio Governo. Entre essas turbulências se incluía uma insurreição militar tentada por um obscuro tenente-coronel paraquedistas, numa madrugada de fevereiro de 1992.

Castro não simpatizou, ao menos publicamente, com o putsch do comandante Hugo Chávez. Não entrava nos seus cálculos. Naquela mesma madrugada, enviou uma mensagem de apoio ao presidente Pérez, que de toda forma, e a despeito das apostas de Havana, seria apeado do poder por impeachment naquele mesmo ano de 1992. Mas a verdade exigiria novas reacomodações.

Em 1994, o presidente da Venezuela, o democrata-cristão Rafael Caldera, que entre suas primeiras decisões de Governo havia indultado Chávez do crime de rebelião militar, depois de passar dois anos na prisão, recebeu em seu gabinete representantes da cúpula anticastrista no exílio. Embora sua segunda eleição tivesse tido muito a ver com o apoio da esquerda local, e desde seu primeiro Governo (1968-73) tivesse sido um artífice da distensão com Cuba – em 1996, assinaria dezenas de acordos comerciais com a ilha –, Caldera quis mostrar sua autonomia de voo.

É impossível entender a Cuba das últimas duas décadas sem a Venezuela de Chávez

Castro reagiu com desagrado ao encontro. Então convidou Hugo Chávez a dar uma conferência na Universidade de Havana. O que parecia em princípio uma represália a Caldera acabou se tornando um ato magnífico de previsão estratégica por parte do dirigente cubano, que intuiu o potencial da estrela emergente de Chávez. Em 13 de dezembro de 1994, Fidel Castro foi ao aeroporto de Havana receber Hugo Chávez, então um militar derrotado, recém-saído da prisão após tentar um golpe, mas que quatro anos depois seria eleito presidente da Venezuela – uma trajetória muito parecida com a do próprio Castro depois do assalto ao quartel Moncada, em 1953. Foi amor à primeira vista. “Senti seu olhar penetrante”, recordaria Chávez. Aquela recepção foi a primeira de muitas, e o início de uma relação que marcou a história recente dos dois países.

É impossível entender a Cuba das últimas duas décadas sem a Venezuela de Chávez, assim como o crescimento e consolidação da Revolução Bolivariana não podem ser explicados sem a figura de Fidel. Ambos foram os pilares sobre os quais se construiu o socialismo do século XXI, que preponderou durante anos na América Latina e que hoje vive seus últimos estertores, com a Venezuela mergulhada numa crise econômica e institucional galopante. Juntos, os dois líderes impulsionaram organismos de integração como a ALBA e a Petrocaribe, hoje convertidos em símbolos de uma época passada e pouco relevantes, especialmente o primeiro.

A relação entre Chávez e Castro, forjada a partir de uma concepção similar do socialismo, transcendeu o aspecto ideológico. Antes da chegada do mandatário venezuelano ao poder, os intercâmbios comerciais entre os dois países não superavam algumas dezenas de milhões de dólares. Com a consolidação de Chávez, ultrapassaram os seis bilhões de dólares no ano anterior à morte do líder bolivariano, ocorrida em março de 2013. Some-se a isso o fornecimento de mais de 100.000 barris de petróleo a preço preferencial, uma tendência que se viu afetada pelo desmoronamento dos preços do produto no mercado internacional e pela deterioração da situação política e econômica da Venezuela. No primeiro semestre de 2016, segundo a Reuters, o fornecimento de petróleo caiu 20%.

Se o petróleo foi determinante para a Cuba dos irmãos Castro – supre 60% da demanda da ilha –, não menos importante foi a presença de médicos cubanos na Venezuela. Até a morte de Chávez, calculava-se que quase 32.000 médicos cubanos trabalhavam na Venezuela, e que mais de 176.000 venezuelanos haviam sido atendidos na ilha, além de 676.000 pessoas operadas graças à colaboração com Cuba. Todo isso forjou um respaldo incondicional das bases chavistas ao seu líder, um respaldo do qual o sucessor dele, Nicolás Maduro, goza cada vez menos.

A chegada de Maduro à presidência, junto com a queda dos preços do petróleo, aumentou a dissociação entre a forma como uns e outros enxergam a atualidade. Embora o regime cubano tenha mantido uma férrea defesa da Venezuela, mesmo quando Raúl Castro optou por retomar o diálogo com os Estados Unidos, Caracas se foi isolando cada vez mais na América Latina.

MAIS INFORMAÇÕES