Oposição fala em impeachment de Temer enquanto aliados minimizam demissão de Geddel

FHC diz que governo pode ser uma pinguela, mas é o que se tem. Três peemedebistas e um petebista são cotados para ministério

Geddel e Temer em imagem de junho passado.
Geddel e Temer em imagem de junho passado.EVARISTO SA

A demissão do ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) da secretaria de Governo de Michel Temer deu combustível para a oposição tentar emplacar um pedido de impeachment e fez com que os aliados do presidente minimizassem o uso do cargo público para interesses pessoais.

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A sexta-feira em Brasília foi de intensa articulação política e de dezenas de declarações de todos os lados. A preocupação da gestão peemedebista é que as votações no Congresso Nacional na próxima semana  – a da proposta de emenda constitucional do Teto de Gastos, no Senado, e a das Dez Medidas Contra a Corrupção, na Câmara dos Deputados – possam sofrer alguma influência diante da crise gerada pela queda de um dos homens de confiança do presidente. Ao perder o seu sexto ministro em seis meses, o Palácio do Planalto diz que o ministro demissionário não soube avaliar o tamanho da crise e diz que ele deveria ter se demitido, antes, principalmente para não atrapalhar uma agenda positiva que Temer queria implementar no seu Governo até o fim do ano.

O ex-ministro da Cultura Marcelo Calero disse à Polícia Federal que Temer e Geddel o pressionaram para interceder em favor do então colega da secretaria de Governo na construção de um luxuoso edifício residencial em Salvador. Essa obra foi embargada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão que é vinculado à Cultura. Como Geddel comprou um apartamento nesse prédio, ele queria que Calero atuasse junto ao IPHAN para reverter esse impedimento. O então ministro se negou a fazê-lo e, segundo relatou à Polícia Federal, passou a receber pressão de vários representantes da gestão Temer, entre eles Geddel e o próprio presidente, além do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e do secretário de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo Rocha.

“O governo vacilou bastante. A decisão pela saída tinha que ser no primeiro momento. A denúncia é grave, robusta", diz Jarbas Vasconcelos

O deputado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), um dos poucos parlamentares independentes no Legislativo brasileiro que vez ou outra é consultado pelo presidente, fez um diagnóstico semelhante ao feito por assessores da presidência. “O governo vacilou bastante. A decisão pela saída tinha que ser no primeiro momento. A denúncia é grave, robusta. Fica a lição. Contra Geddel existiam precedentes. Agora, tem de fazer substituição rápida e que seja uma pessoa de bons antecedentes”, afirmou. O agora ex-ministro fora citado na operação Lava Jato e, na década de 1990, chegou a ser investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que acabou o inocentando.

Uma das razões que interferiram na demora por essa demissão foi a de que Geddel e Temer são amigos de longa data e o presidente avaliava que seu subordinado estava fazendo um bom trabalho na articulação com o Legislativo, pois juntos conseguiram aprovar todas as propostas que enviaram desde que assumiram os cargos com o impeachment de Dilma Rousseff (PT).

Candidatos a ministro

A queda mal foi concretizada e já começaram a surgir os nomes de prováveis substitutos. Alguns deles são Moreira Franco, o atual secretário responsável pelo programa de privatizações do Governo, os ex-deputados Sandro Mabel e Rodrigo Rocha Loures, e os deputados federais Darcídio Perondi e Jovair Arantes.

Desses todos ventilados até o momento, apenas Jovair não é do PMDB, é filiado ao PTB. Se Temer se decidir por esse último, terá levado em conta não só a troca de seu articulador político, mas também buscará fazer uma costura política para acalmar sua base no Legislativo, já que Jovair é um dos fortes nomes do grupo denominado Centrão na disputa pela presidência da Câmara em fevereiro do ano que vem.

Mabel é atualmente, um empresário e assessor especial da Presidência que não foi nomeado oficialmente no cargo, mas despacha no Palácio do Planalto. Rocha Loures é chefe da assessoria parlamentar da Vice-Presidência e trabalha com Temer desde 2011. Perondi foi o relator da PEC do Teto de Gastos na Câmara e é um combativo deputado defensor do Governo. Todos atuaram nas articulações parlamentares para derrubar a gestão Rousseff.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Temer disse que o próximo ministro tem de ser “alguém que não seja metido com nada”. Quando assumiu o cargo, ainda que interinamente, o presidente dizia que teria um ministério de notáveis. Agora, registra a malquista média de uma exoneração de ministro por mês.

De impedimento à pinguela possível

No Senado a gritaria em torno do caso foi amplificada. O líder da minoria, Lindbergh Farias (PT-RJ), disse que nem a saída de Geddel do Governo seria capaz de frear uma investigação contra Temer. “Esse é um caso claro de crime de responsabilidade, de advocacia administrativa, de trafico de influência. Se o presidente Michel Temer fez isso com um ministro da Cultura, para intervir num empreendimento imobiliário na Bahia, fico a pensar nos outros ministérios. O que estaria acontecendo com o pré-sal, que envolve multinacionais petroleiras?”, questionou o petista. Até segunda-feira as legendas de oposição deverão apresentar um dos pedidos de impedimento do presidente.

O tom da senadora Vanessa Graziotin (PCdoB-AM) foi semelhante. “O Geddel deveria ter se demitido na semana passada, quando foi divulgada a prática ilegal, imoral e criminosa que ele estava adotando”, declarou a parlamentar.

Entre os aliados de Temer, seus principais defensores foram dois tucanos, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso e o senador Aécio Neves, além do senador e presidente interino do PMDB, Romero Jucá – este que foi o primeiro ministro de Temer a cair por suspeita de envolvimento na operação Lava Jato.

"O que temos que fazer é atravessar o rio. Isso é uma ponte, pode ser uma ponte frágil, uma pinguela, mas é o que se tem", diz Fernando Henrique Cardoso

Participando de um evento do PSDB em Brasília e de um almoço de alguns dos correligionários com Temer no Palácio da Alvorada, FHC disse que não é o momento para se preocupar com “coisas pequenas”, pois é preciso se preocupar com a recuperação econômica do Brasil. “Na situação de transição é difícil, ministros caem, outros vêm. O importante é não perder o rumo. Diante das circunstâncias brasileiras, depois do impeachment, o que temos que fazer é atravessar o rio. Isso é uma ponte, pode ser uma ponte frágil, uma pinguela, mas é o que se tem”, afirmou.

Já Aécio, que perdeu as últimas eleições presidenciais, disse que respeita a decisão pessoal de Geddel de pedir demissão em prol do bem da gestão peemedebista e que o PSDB reafirma o apoio ao governo federal. “Nosso esforço, nesse instante é olhar para frente. Temos um Brasil em frangalhos, onde a economia não reage, onde o desemprego continua crescendo. Temos que ter força e união para aqui no Congresso Nacional avançarmos na agenda do ajuste fiscal pois somente ela vai inspirar novos investimentos no país e a partir daí a recuperação do emprego” declarou.

Jucá, que também é líder do Governo no Congresso, tratou a queda do sexto ministro de Temer como um fato isolado e disse acreditar que isso não afetará nas votações no Legislativo nas próximas semanas. “As votações Congresso são compromisso da base e qualquer fato isolado não terá impacto no entendimento que o governo tem para melhorar o país”, afirmou em sua conta no Twitter.