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Eating with myself: pelo direito de jantar sozinho

Comer desacompanhado induz a sublinhar o prato, a colocá-lo dentro de uma moldura para apreciar suas qualidades e defeitos

Mònica Escudero

Passei muitos anos sistematicamente comendo sozinho, nos mais variados salões e balcões. Só eu, cara a cara com os pratos. Não é queixume nem chororô. Tampouco uma declaração de misantropia. Era parte do meu trabalho. Para escrever sobre restaurantes, sempre fiz questão de visitar as casas mais de uma vez (preferencialmente, três vezes), em horários e dias diferentes. Ora ia com minha família, ora com amigos... Mas nunca abri mão de, ao menos, uma refeição solitária. E sempre gostei.

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Comer desacompanhado induz a sublinhar o prato, a colocá-lo dentro de uma moldura para apreciar suas qualidades e defeitos – isso, no caso de quem gosta de fazer conjecturas sobre preparações e menus. No meu caso específico, estar só sempre funcionou como momento de concentração, de estabelecer relações, de observar tudo em profundidade. O que inclui até um aguçamento da bisbilhotice, para quem tem curiosidade sobre o que acontece na mesa alheia.

Não sei se você, dentro dos padrões mínimos de etiqueta, já brincou com a comida (ou melhor, com os sentidos) na hora do almoço. Se tapamos o nariz, provocamos uma supressão não só de aromas, mas dos sabores, como se sabe. Quando provamos algo de olhos fechados, percebemos mais agudamente texturas, temperaturas. Já o silêncio, para mim, potencializa a atenção: com o que se come, com o que se pensa e sente enquanto se come. Sobre as conexões entre audição e percepções gustativas, me recordo de um estudo da Universidade de Oxford, publicado em 2014. Resumindo a tese, a música ambiente, quando reforçada nos agudos, realça a sensibilidade para o doce; os graves, chamam mais os amargos. Já o barulho em excesso nos conduz à sensaboria (talvez por isso ninguém ligue muito para o que come em alguns clubes noturnos).

Quando estou sozinho à mesa, me volta com mais força aquela ideia do pensador francês Jean Baudriallard, que eu adapto do meu jeito: “Um objeto não tem um valor intrínseco, ele é um feixe de significados”. Em suma, o que temos à nossa frente não é só um ingrediente, manipulado, cozido (ou cru), temperado; é uma ideia, é uma história, é um dado cultural e social, é um contexto de serviço, ambiente... Ou, como explica ainda melhor o filósofo italiano Nicola Perullo, em seu livro O Gosto como Experiência, o paladar nunca está só na boca: o que chega pelas papilas é só o começo, apenas aciona uma rede de funções e referências.

Descrevendo assim, soa complexo. Mas é apenas para tentar explicar quão estimulante pode ser um repasto solitário. Parece anacrônico que ainda paire uma certa névoa de estranhamento, quando não preconceito, sobre quem vai sozinho a um restaurante. “Ah, coitado!”; “E aí não arrumou ninguém para ir com você?” sempre foram as observações/questões de praxe. Ninguém considera que existe um prazeroso lado egoísta nesse tipo de experiência: é tudo seu! Assim como não existe a necessidade de pactuar o comer, o que beber. Em contrapartida, não temos com quem trocar impressões e emoções. Mas não é intrigante que tantos questionem os programas solitários? Se você, que é a unidade mínima e irredutível da sua existência, não se suportar, quem haverá de fazê-lo?

Mais engraçado ainda é quando maîtres e garçons se apiedam da sua solidão e resolvem ser a sua companhia de jantar

Conheço gente que senta, faz o pedido e afunda a cara em livros, em jornais, para suportar o sentimento paranoico de estar sendo observado pela brigada e pelos outros clientes – como se, de fato, alguém estivesse se importando... (A versão contemporânea desse comportamento, em maior escala e extremos quase patológicos, é o uso do celular à mesa). Assim como deparo com pessoas que quase se desculpam quando são vistas sozinhas num salão. Um constrangimento semelhante ao do meu tempo de adolescente, quando alguém perguntava qual tinha sido o programa de sábado à noite – e você, obviamente, havia ficado em casa. Que fique claro: comer sozinho, sem embaraços, deveria ser visto como um prazer e um direito inalienável do cidadão.

Por um bom tempo, consegui desempenhar meu trabalho de crítico sem ser reconhecido por cozinheiros, garçons, proprietários. Como um cliente comum, que se acomoda, escolhe, come, paga e sai. Com o advento dos smartphones e das redes sociais, o anonimato se tornou mais difícil (até porque o mundo da gastronomia não é tão amplo assim). Eu sabia que os chefs e toda a turma estavam de olho em mim. Do mesmo modo que, por motivos diferentes, eu estava de olho neles.

Tendo ou não de relatar para os leitores sobre minhas visitas, sempre gostei de observar as dinâmicas da cozinha e do salão. Um almoço ou um jantar contêm elementos cenográficos, coreográficos. E não importa se o cozinheiro brigou com a namorada ou se os impostos estão atrasados: o comensal precisa sair feliz. Do meu posto observador, eu consigo verificar, por exemplo, que ao fundo há uma mesa localizada quase numa zona de sombra de serviço: ninguém a enxerga ou escuta. Ou que está havendo uma divergência entre o maître e o cozinheiro, sobre um pedido mal anotado.

E, logo à minha direita, escuto seis senhoras conversando sobre viagens. Uma delas tinha acabado de voltar da Toscana e, ao começar a descrever seu roteiro de passeios e vinhos, teve que ouvir de uma das amigas que a “Úmbria é muito mais legal do que a Toscana”, provocando um espanto semelhante ao que eu buscava nos tempos de faculdade, quando queria chocar meus colegas afirmando que os Byrds eram melhores do que os Beatles (não eram; assim como a charmosa e menos explorada Úmbria não é mais legal do que a Toscana).

Contudo, não foram poucas as vezes em que a brigada de salão pareceu mais incomodada com a minha condição do que eu mesmo. Comensais solitários que aparecem munidos de cadernos e câmaras fotográficas parrudas podem despertar uma natural curiosidade: seriam profissionais da imprensa, dos blogs? Ou só aficionados, foodies? Mas e o cliente que surge sem alarde, não usa o celular, não recorre a um livro, nem anota nada? Este sim, é esquisito.

Mais engraçado ainda é quando maîtres e garçons se apiedam da sua solidão e resolvem ser a sua companhia de jantar – sem que ninguém tenha pedido. Lembro de uma atendente que me interrogou durante toda a minha estada: “Você mora aqui perto?”; “Não trouxe a mulher, a namorada?”. “Já pediu entrada e prato, vai mesmo querer sobremesa? Você come bem, né? E até que é magro”. Ou o rapaz que, entusiasmado por trabalhar num restaurante de perfil mais vanguardista, não saía do lado da minha mesa (a sala estava quase vazia). “Aqui é tudo muito especial, os meninos voltaram da Europa faz pouco tempo”. Ao servir a entrada, um ovo perfeito (no caso, imperfeito), ele ficou a um metro, me vigiando: “Tá sentindo? O sabor é diferenciado. É feito à baixa temperatura”.

Em poucos minutos, e sem ter indagado, eu já sabia sobre a trajetória dos donos, sobre o dinheiro investido na casa... Então, ele me trouxe o prato principal, um leitão, e, enquanto eu ainda mastigava, perguntou: “E aí, surpreendeu?”. Antes que ele voltasse à carga, só me restou recorrer a algo que eu mesmo recrimino. Saquei o telefone do bolso e disse que precisava fazer uma ligação, se ele pudesse me dar licença...

O melhor ficou para o fim. Paguei minha conta e, quando eu já levantava, ele me disse: “Quando a família voltar de viagem (hã?) o senhor traz ela aqui. É chato comer sozinho, né?”. Agradeci, e só pensei: “Quem disse que eu jantei sozinho?".

Luiz Américo Camargo é comentarista e consultor gastronômico, especializado em eventos e produção de conteúdo. Foi um dos fundadores do Paladar, marca de gastronomia de O Estado de S. Paulo. É também colunista do jornal Zero Hora.

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