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Um atlas humano da literatura

Daniel Mordzinski, o “fotógrafo dos escritores”, lança seu primeiro livro de retratos no Brasil

O escritor baiano Jorge Amado.
O escritor baiano Jorge Amado.Daniel Mordzinski

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A lógica diz que um escritor deve ter intimidade com palavras, não com câmeras. Daniel Mordzinski, há quase 40 anos, decidiu subverter essa regra dedicando a própria vida a arrancar de escritores como Borges, Jorge Amado, Saramago, Ian McEwan e Davi Grossman um traço da viva alma que eles põem no papel. De devolvê-los, enfim, ao lugar onde pertencem: o mundo.

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E conseguiu. Depois de lançar vários livros, o fotógrafo argentino (Buenos Aires; 1960) lança seu primeiro título no Brasil: A literatura na lente de Daniel Mordzinski (Sesi-SP Editora), um álbum de retratos de grandes nomes das letras mundiais, com destaque para autores hispânicos, brasileiros e de outros países de língua portuguesa.

Para quem não dissocia (e nem quer dissociar) criador de criatura, o livro é um deleite que vai além de belos retratos. Em quase 400 imagens, ela entrega o lado “demasiado humano” dos escritores – quem, como diz a escritora carioca Adriana Lisboa no prefácio, “são seres que não raro pensam ser maiores do que são”, “mas que também estão ali, a alma em punho, de quando em quando, humildemente perseguindo sua própria voz”.

Aparecem García Márquez sentado na cama de um quarto de hotel, Ricardo Piglia de calças dobradas entrando no mar, Gonçalo M. Tavares fazendo malabarismo e Wendy Guerra completamente nua, deitada. Um Jorge Amado cotidiano faz compras no mercado, um Rubem Fonseca desprotegido olha para a câmera e uma Adriana Lisboa pícara posa com manequins em uma vitrine.

A escritora cubana Wendy Guerra.
A escritora cubana Wendy Guerra.Daniel Mordzinski
“Minhas fotos são travessuras visuais que tentam tirar o escritor de outros lugares comuns da literatura”

“Minhas fotos” – que Mordzinksi chama de fotinskis – “são travessuras visuais que tentam tirar o escritor das bibliotecas e de outros lugares comuns da literatura”. Para que aconteçam, “tem que haver intimidade, um tipo de diálogo, ainda que seja inaudível”, explica o fotógrafo e ávido leitor. Graças ao seu trabalho em jornalismo (ele é colaborador do El País e de vários festivais literários), o “fotógrafo dos escritores”, como é conhecido, garante que nada o intimida. Nem mesmo a emoção de testemunhar o adeus à fotógrafa e escritora Susan Sontag ao lado de grandes artistas como Annie Leibovitz, Salman Rushdie, Isabelle Huppert e Patti Smith no cemitério Montparnasse, de Paris. “Só tem uma exceção: conhecer um escritor cujo livro me fez chorar”.

Em tanto tempo provocando escritores com sua câmera, Mordzinski diz que aprendeu uma lição. “Aprendi que o fotógrafo, assim como o escritor e tantas pessoas deste mundo, está sempre sozinho em momentos decisivos, como o de preencher uma página em branco ou dar um simples clique”, releva. “Graças à fotografia, aprendi a imaginar a solidão dos demais e a compreender a minha também”.

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