E a tecnologia mudou tudo

O digital sacudiu os alicerces da cultura, e nem sempre para o bem. Avançamos com poucos recursos para nos situarmos neste novo agora

Ilustração de Eva Vázquez.
Ilustração de Eva Vázquez.

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Numa conversa com Josep Ramoneda em setembro de 2012, Ferran Mascarell, artífice da política cultural de Barcelona nos anos 1990 e secretário de Cultura do Governo regional catalão, dizia não acreditar que a tecnologia digital ou a internet tivessem transformado significativamente as maneiras de pensar e produzir a cultura. Na visão dele, e de muitos outros intelectuais, a rede mundial de computadores era um canal de distribuição a mais, e só. Entretanto, é difícil encontrar uma disciplina da cultura ou das artes que não tenha sido sacudida até seus alicerces pelo efeito disruptivo do digital.

Em certo sentido, quase toda a cultura que produzimos já é cultura digital: os discos são gravados em computadores, os filmes são montados e pós-produzidos em sistemas digitais de edição, os livros são escritos em processadores de texto. É difícil pensar que essa substituição de ferramentas não tenha transformado de maneira nenhuma o que é composto, filmado ou escrito. Mas não é só isso. Qualquer site consiste basicamente de um back-end (a plataforma de criação, organização e disponibilização do conteúdo) e de um front-end, o espaço onde o usuário interage com palavras, imagens ou vídeos. Nos últimos 25 anos, tanto o back-end como o front-end da cultura sofreram atualizações tão profundas que não só se tornou difícil reconhecer esse artefato chamado indústria cultural como também, às vezes, há dúvidas de que ele continue existindo.

No back-end, a democratização das ferramentas criativas foi a primeira grande reviravolta. Desde a década de noventa, qualquer computador doméstico é potencialmente um estúdio de gravação, e todos os hinos da dance music e a da música eletrônica foram compostos e gravados em dormitórios e garagens. A substituição do celuloide pelo vídeo digital coloca o sonho de ser cineasta nas mãos de milhões de pessoas que nunca pisaram num set de filmagens. Tangerine, um dos sucessos do cinema independente norte-americano em 2015, foi integralmente gravado com dois celulares iPhone 5S.

Para escrever nunca foram necessários muitos meios – embora acadêmicos como Katherine Hayles estejam convencidos de que não se escreve igual com um processador de textos, a lápis ou com uma máquina de escrever –, mas a necessidade de uma gráfica e uma editora foi durante muito tempo uma barreira intransponível para a entrada. Agora, não só lemos em telas e livros eletrônicos como também existem plataformas digitais permitindo que um livro autopublicado chegue a milhões de leitores com apenas um clique. O gatekeeper tradicional é burlado por fenômenos que ele não antecipa, não compreende e não controla: de best-sellers que encontraram um público sem passar por nenhuma editora tradicional (50 Tons de Cinza) até figuras como a do blogueiro, capaz de competir com as macroestruturas daquela que outrora foi a imprensa massificada.

Aceitamos operar dentro de uma máquina de controle que penetra nos nossos telefones, hábitos e intimidades e cujos mecanismos não conhecemos

As formas de comercialização também entraram em sua própria era glacial desde que um adolescente chamado Shawn Fawning descobriu, em 1999, que não havia nada mais corriqueiro do que compartilhar em escala global arquivos sonoros que continham canções. A era peer to peer (P2P) não só colocou em crise indústrias tradicionais dos conteúdos como também obrigou a uma revisão de toda a estrutura da propriedade intelectual. Numa época em que o conhecimento pode ser reproduzido de forma instantânea, infinitamente e a custo zero, como conciliar essa oportunidade cultural com a necessidade de proporcionar um meio de vida aos criadores? Como sair da histeria binária do “a Internet vem aí”, que impede explorar novos marcos, formas e contextos?

No front-end, o antigo usuário ou consumidor, que hoje pode ser também produtor (o famoso prosumer), articula agora a voz de uma multidão que já não está mais interessada nas formas antigas de comunicação de ideias. São novos sujeitos, públicos e atores que fogem das vozes autorizadas, ou de cima para baixo, e se apresentam como autores ou no mínimo coparticipantes. O melhor exemplo dessa mudança é sem dúvida a substituição da enciclopédia, emblema do conhecimento autorizado e hierárquico da ilustração, pela Wikipedia, um oceano de vozes em conflito e cooperação, em permanente mutação, que põe em crise a própria ideia de que o conhecimento seja algo passível de ser organizado e fixado no tempo de maneira definitiva. Os próprios autores tradicionais estão abandonando a obra como objeto fechado e acabado; o rapper Kanye West, uma das maiores estrelas da música nesta década, decidiu continuar modificando seu último disco dias depois de seu lançamento. Afinal de contas, tratava-se apenas de uma playlist de canções alojadas em um servidor, ao qual todos acessamos a partir dos nossos celulares.

A obra de arte na era do cloud computing ainda carece de uma teoria que a explique e lhe dê sentido, mas é muito difícil negar que a tecnologia muda tudo – as formas de criar, os modos de ver e tudo o que está no meio disso –, e nem sempre para o bem. Destruímos meios de vida, substituindo milhares de pequenas livrarias e lojas de discos por monopólios digitais como nunca existiram, e aceitamos operar dentro de uma máquina de controle que penetra nos nossos telefones, hábitos e intimidades e cujos mecanismos não conhecemos nem entendemos. O Grande Irmão cultural articulado pelas bases de dados, por servidores e pelo registro individual de preferências de consumo constitui um novo campo de batalha que ainda não exploramos nem calibramos. Muitos de nós, envoltos na luta por um passado que não voltará, continuamos avançando como sonâmbulos e com poucos recursos epistemológicos para nos situarmos neste novo agora.

Gemma Galdon Clavell é doutora em Políticas de Segurança e Tecnologia.

José Luis de Vicente é curador independente.

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