Plebiscito na Colômbia

Após o ‘não’ aos acordos, líderes políticos tentam salvar processo de paz na Colômbia

Humberto de la Calle põe seu cargo de chefe das negociações à disposição do presidente

Bandeira branca manchada de sangue após o resultado do plebiscito.
Bandeira branca manchada de sangue após o resultado do plebiscito.LUIS ACOSTA (AFP)

A Colômbia ainda está tentando digerir o resultado do plebiscito deste domingo. A recusa dada nas urnas ao acordo entre o Governo e as FARC, que ninguém havia previsto, obriga a elite política e a guerrilha a tentarem consolidar a unidade em um país dividido em dois. Assim que saiu o resultado, tanto o presidente, Juan Manuel Santos, quanto o líder das FARC, conhecido como Timochenko, bem como o grande vencedor do dia, o ex-presidente Álvaro Uribe, respaldado pelo “não”, lançaram mensagens conciliadoras. A primeira consequência política se expressou nesta segunda-feira com a decisão do chefe das negociações pelo lado do Governo, Humberto de la Calle, que pôs o cargo à disposição; até o momento, não houve pronunciamento de Santos sobre isso.

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“Continuarei buscando a paz até o último minuto do meu mandato porque esse é o caminho para deixarmos um país melhor para os nossos filhos”, disse Santos após a derrota, que representou um golpe gigantesco contra a sua imagem, que já não era das melhores antes do plebiscito. Desde o primeiro momento, o presidente havia prometido que a última palavra caberia à população do país. A consulta, que ele não tinha obrigação de convocar, acabou virando contra si. “Como Chefe de Estado, sou o fiador da estabilidade da nação, e essa decisão democrática não deve afetar esta estabilidade, que eu irei garantir. Como presidente, mantenho intactas as minhas prerrogativas e a minha obrigação de manter a ordem pública, de buscar e negociar a paz. O cessar-fogo e a interrupção bilateral definitiva das hostilidades continuam e continuarão em vigor. Escutarei tanto os que disseram não quanto os que disseram sim, afirmou.

O chamamento ao diálogo teve eco em seu antecessor, Álvaro Uribe. “Colombianos, vamos corrigir os rumos. Todos nós queremos a paz”, afirmou, em tom sereno. Em algumas horas, diante da votação surpreendente, os dirigentes políticos abaixaram o tom incendiário adotado nas últimas semanas. “Vamos trabalhar junto com o Governo para poder revisar esse acordo e para que esta paz chegue a bom termo, com justiça, indenização, reconciliação e perdão”, insistiu Uribe. “Uma paz em que todos sejam contemplados, e não apenas metade dos colombianos”.

O presidente do país convocou uma reunião para a manhã desta segunda-feira com as várias forças políticas. Todas estiveram presentes, com exceção do Centro Democrático, de Uribe, que pediu um encontro apenas com delegados designados pelo Governo. Antes desse encontro, Santos recebeu Humberto de la Calle, que fora encarregado de viajar para Havana juntamente com Sergio Jaramillo, Alto Comissário para a Paz, para que realizassem as reuniões com a delegação das FARC. O chefe das negociações, porém, pôs o cargo à disposição. “Os erros que possamos ter cometido são de minha exclusiva responsabilidade. Assumo integralmente a minha responsabilidade política. Não serei um obstáculo para o que vem pela frente. Continuarei trabalhando incessantemente pela paz onde quer que eu possa ser útil”, afirmou De la Calle.

“A paz não foi derrotada. Respeito profundamente as opiniões contrárias. É hora de união. É preciso buscar um acordo nacional”, defendeu De la Calle.

Os integrantes da guerrilha também se mostraram a favor de não se jogar fora tudo o que já foi negociado. “As FARC mantêm o seu desejo de paz e reiteram sua disposição de usar somente a palavra como arma para a construção do futuro”, afirmou Timochenko, em nota. Para além das boas intenções, todos procuram uma saída em meio a um mar de incertezas.

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