Editoriais
i

Europa na defensiva

Os 27 apostam na segurança como mínimo denominador comum

Os líderes europeus posam, na quinta-feira, durante a cúpula informal de Bratislava.
Os líderes europeus posam, na quinta-feira, durante a cúpula informal de Bratislava.FILIP SINGER (EFE)

A cúpula de Bratislava, realizada sem a presença do Reino Unido, deixou claro até que ponto a União Europeia está mergulhada numa profunda crise de identidade e de projeto. Trata-se, como observou na última quarta-feira o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, em seu discurso sobre o estado da União ao Parlamento Europeu, de uma “crise existencial” que ameaça a sobrevivência do projeto europeu.

Mais informações

O primeiro golpe nesse processo de involução foi o referendo britânico em junho, que desencadeará num futuro próximo a saída do Reino Unido da União Europeia. O enorme fracasso histórico significa que a retirada é a primeira vitória das forças populistas e xenófobas que, desde dentro, assediam a União Europeia.

Seria desejável que o Brexit fosse um fato isolado, mas é mais do que provável não será a única e nem a última vitória do populismo e da xenofobia. Na verdade, as tímidas, e mesmo vergonhosas, respostas que os Estados-Membros estão dando à crise de asilo e de acolhida, juntamente com as propostas para enterrar definitivamente o Acordo de Livre Comércio com os EUA (conhecido como TTIP), desenham um cenário mais caracterizado por líderes que decidem se curvar às pressões populistas do que enfrentá-las de forma decisiva em campo aberto.

As divisões entre Norte e Sul, Leste e Oeste e entre membros e não membros da zona do euro, à qual se soma uma série de Governos e forças políticas profundamente reacionárias em matéria de identidade e de imigração, paralisam a UE. Tanto François Hollande quanto Angela Merkel vivem em função de seus calendários eleitorais, o que impede que o eixo franco-alemão, do qual caberia esperar iniciativas decisivas, possa apontar o caminho. Não admira que, nessas circunstâncias, a cúpula de Bratislava tenha identificado a segurança como mínimo denominador comum, capaz de unir os 27 e manter a ficção de um projeto comum até que o calendário eleitoral se defina em Berlim e Paris e se saiba alguma coisa mais sobre como será conduzido o processo de saída do Reino Unido.

No entanto, mesmo que se deva saudar essa aposta na segurança, pois certamente a Europa precisa tornar suas fronteiras mais seguras se quiser preservar a livre circulação dentro delas, devemos criticar que essa abordagem seja feita principalmente a partir de uma concepção defensiva. A segurança da Europa não depende apenas de sua capacidade de controlar e fechar suas fronteiras, mas da capacidade de projetar essa segurança fora delas, o que exige uma verdadeira política externa e de segurança comum. Uma Europa que hipoteca tudo em nome da segurança contra um ambiente hostil é uma Europa que assume a agenda populista em vez de combatê-la.