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Partido xenófobo obtém resultado histórico e supera sigla de Merkel na Alemanha

Populistas do AfD tiram votos de todo o arco parlamentar, de pós-comunistas a neonazistas

Alexander Gauland e Leif-Erik Holm, dirigentes do partido AfD comemoram em Berlim o segundo lugar nas eleições regionais de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Carsten Koall

A onda é já imparável. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD), que nasceu em 2013 como reação aos resgates da zona do euro e ganhou um novo impulso com a crise de refugiados do ano passado, impôs neste domingo uma humilhação histórica à União Democrata-Cristã (CDU). Pela primeira vez, o partido encabeçado pela chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel perdeu a hegemonia do espectro conservador em um Parlamento regional. É verdade que o Estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é pouco relevante na política nacional, mas seus votantes acabam de enviar uma mensagem de indignação, que transcende suas fronteiras, com a política migratória de Merkel. A líder ultradireitista francesa Marine Le Pen felicitou “os patriotas do AfD” por conseguirem o que parecia impossível: varrer o partido da chanceler.

Os democratas-cristãos não chegaram a 20% dos votos, enquanto o AfD entra pela primeira vez no Parlamento deste Estado do nordeste alemão, com impressionantes 21%. Os sociais-democratas podem respirar tranquilos com seus 30%: apesar de terem sofrido um forte retrocesso, mantêm o primeiro lugar e poderão continuar governando o Land em coalizão com a CDU. Os populistas se beneficiam de votos procedentes de todo o arco parlamentar, dos pós-comunistas a neonazistas. Seu resultado se explica também por um importante aumento da participação eleitoral.

O resultado é “amargo”, como admitiu o secretário-geral da CDU, Peter Tauber. “Sobretudo para nossos companheiros de lá”, acrescentou. Mas o golpe retumba também em Berlim, e é talvez ainda mais duro para Merkel por provir do Estado onde ela vota, e onde há apenas três anos teve 56% dos votos.

A apenas um ano das eleições federais, os democratas-cristãos se esforçavam no domingo em encontrar razões que explicassem este voto de protesto. Enquanto isso, os populistas de direita mostravam seu entusiasmo. “Somos os únicos que falamos abertamente da crise migratória. Os outros partidos se negaram”, dizia Leif-Erik Holm, candidato do AfD. Seu partido, que postula para a Alemanha a recusa de qualquer refugiado adicional, já está presente em 9 dos 16 Parlamentos regionais e espera eleger deputados também na cidade-Estado de Berlim, dentro de duas semanas. Tudo parece propício para que, dentro de pouco mais de um ano, entre com força no Bundestag, a Câmara dos Deputados federal. As pesquisas lhe dão cerca de 11% dos votos no país inteiro, o que faria do AfD a terceira ou quarta força.

O sucesso do AfD, uma formação que há apenas um ano parecia condenada à irrelevância devido às suas guerras fratricidas, está ligado diretamente à gestão da crise migratória por Merkel, que no ano passado autorizou a entrada no país de mais de um milhão de solicitantes de asilo. As autoridades prognosticam que neste ano chegarão outros 300.000.

Além de rejeitar os refugiados, o partido liderado por Frauke Petry agrupa uma mixórdia de correntes conservadoras que denunciam o que consideram ser imposições da ideologia de gênero e do politicamente correto, pregam uma aproximação com a Rússia de Vladimir Putin e, sobretudo, se erguem como movimento de protesto contra as elites e contra a figura de Merkel. O AfD mantém um discurso ambíguo: por um lado, se apresenta como conservador ortodoxo, mas com uma visão liberal da economia; ao mesmo tempo, abriga um inflamado setor extremista. Assim, destacados líderes atacaram a seleção nacional de futebol por considerá-la insuficientemente alemã – supõe-se que pelo fato de muitos jogadores serem de famílias imigrantes – e lançaram palavras de ordem racistas que seriam impensáveis num partido democrático alemão, como citar supostas diferenças de comportamento sexual entre africanos e europeus.

O AfD já obtivera um sucesso esmagador na tripla eleição regional de março, quando se tornou a segunda maior força na Saxônia-Anhalt. Mas naquela ocasião ficou atrás da CDU, relegando os sociais-democratas ao humilhante terceiro lugar. Não é por acaso que seus dois melhores resultados procedam da antiga Alemanha Oriental. É nessa parte do país que os extremistas contam com mais apoio – o que ocorre também com o neonazista NPD, que está em processo de ser ilegalizado por representar um perigo para a ordem democrática, e que só tinha representação em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Mas o crescimento do AfD também atingiu o NPD, que neste domingo não alcançou o piso de 5% necessário para se manter no Parlamento regional.

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