O “administrador” Doria vira alvo dos rivais na corrida pela Prefeitura de SP

O até então pouco conhecido candidato tucano começa a se colocar no caminho dos então favoritos

Doria em campanha na periferia de São Paulo.
Doria em campanha na periferia de São Paulo.Divulgação

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Nos primeiros dias da campanha eleitoral, João Doria Júnior circulava pelas periferias de São Paulo como um estranho. Não fosse o séquito de funcionários e as peças de roupas que chegam a custar mais do que o salário de trabalhadores brasileiros, poderia até passar despercebido. O novo rosto tucano escolhido pelo grupo do governador Geraldo Alckmin  – a contragosto de muitos caciques do PSDB – era desconhecido da metade da população em 24 de agosto, segundo o Datafolha. No último levantamento do instituto, feito 15 dias depois, quando as caminhadas pelas ruas e as inserções de rádio e TV já haviam começado, era reconhecido por quase 70% dos entrevistados e tinha subido 11 pontos na pesquisa. A pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira, dia 27 de setembro, confirmou a tendência: ele saltou para 30% nas intenções de voto e lidera isolado a corrida eleitoral. Celso Russomano aparece em segundo com 22% e Marta Suplicy caiu cinco pontos desde o último levantamento, do dia 21, registrando 15% das intenções de voto.

A reação à disparada de Doria foi imediata. A campanha do atual prefeito Fernando Haddad (PT), que amarga um quarto lugar, com 11%, mudou de estratégia e colocou Doria no centro do ataque, ao lado de Marta. A avaliação é de que Doria, agora, tem mais chances de chegar ao segundo turno do que o atual primeiro colocado nas pesquisas, Celso Russomanno (PRB), o apresentador-candidato que caiu em um mês caiu nove pontos no Datafolha, de 31% para 22%.

Perfis genéricos no Facebook, que são apontados como os "lados Bs" das campanhas eleitorais  – não são assumidos oficialmente, mas são ligados a equipes de candidatos e responsáveis pelos ataques mais sujos – têm associado Doria a um "riquinho" ao chamá-lo de "João Dólar", ligado sua imagem a de figuras como o deputado cassado Eduardo Cunha e explorado em vídeos declarações de seus companheiros de partido que foram contrários a sua escolha. Vídeos que atacam as suas declarações de "não ser político" também passaram a circular. Um deles mostra imagens de Dilma Rousseff, Fernando Haddad e o ex-prefeito Celso Pitta, que ao serem eleitos não eram políticos profissionais, para afirmar que não precisa ser político para fazer gestões apontadas como ruins.

Questionada sobre a alta do seu adversário, Marta disse chegou a dizer que vê com preocupação o avanço de um nome “sem nenhuma experiência [na vida pública]”. E comparou Doria com DIlma, Pitta e Haddad.

Banner que circula nas páginas dos apoiadores de Haddad.
Banner que circula nas páginas dos apoiadores de Haddad.

A disparada súbita de Doria tem como uma das causas, justamente, o fato de ele ser desconhecido da população em geral e ter sua imagem mais vinculada ao mundo empresarial, e menos aos políticos tradicionais. A ojeriza da população com a classe política é usada por sua campanha para dissociá-lo deste meio. "Sou um administrador, não sou um político", ressalta ele, com frequência, que ainda se beneficia por ter o maior tempo de TV para propaganda entre os candidatos, beneficiado pela coligação entre 11 partidos. O arco de alianças inclui o PV, o PP, DEM e PSB.

Outra vantagem de Doria é concorrer com figuras já bastante familiares ao eleitor e com altas rejeições – o Datafolha aponta que Marta, Haddad, Luiza Erundina e Russomanno são conhecidos por mais de 90% da população e todos ocupam ou já ocuparam cargos políticos tanto no Legislativo como no Executivo. "Ele é o candidato com o processo mais dinâmico. Com baixa rejeição, tem teto para um crescimento alto", avalia a socióloga Fátima Pacheco Jordão, diretora da Fato Pesquisa e Jornalismo. Ela também ressalta que a imagem de "administrador" é um de seus pontos favoráveis. "A população já tem uma noção muito clara da crise. A ideia de que é preciso um gestor com competência para gerir o Orçamento superou a ideia de que o poder público não tem dinheiro porque há muita corrupção", acredita ela.

Mas apesar de não ser um político tradicional, Doria fez política desde cedo no mundo empresarial. Ele foi o criador do LIDE, que se descreve como uma "associação de empresários, destinada a fortalecer o pensamento, o relacionamento e os princípios éticos de governança corporativa no Brasil". Na prática, organiza encontros entre pessoas importantes do mundo político e econômico, em eventos muitas vezes realizados em cenários paradisíacos e com a cobertura da imprensa.

Por suas conexões, é acusado pelos opositores de querer ser um representante do mundo empresarial no setor público. E ele, de fato, não esconde que sua intenção é estreitar os laços entre os dois mundos. "Vamos começar vendendo o estádio do Pacaembu, o autódromo de Interlagos e o parque de convenções do Anhembi. Numa mostra clara e definitiva de que o Estado não pode e não deve estar onde ele não é necessário", afirmou, em uma entrevista a este jornal, em dezembro passado. O candidato tucano também ressalta em sua campanha a intenção de fazer Parcerias Público Privadas (PPPs) em diversas áreas, entre elas a construção de creches e de conjuntos habitacionais. Nessas parcerias, geralmente a iniciativa privada constrói o prédio, que depois é administrado pelo poder público – seus defensores dizem que ela permite mais agilidade na realização das obras; seus críticos dizem que são apenas uma forma do setor privado lucrar, sem muita fiscalização, com dinheiro público.

Doria também demonstra sua preferência pelas parcerias na área da saúde. Uma de suas principais propostas, chamada de "Corujão da Saúde", prevê que a Prefeitura pague para utilizar, entre 20h e 8h, a estrutura de 40 hospitais privados para a realização de exames de usuários do Sistema Único de Saúde. Seria uma alternativa temporária, adotada por um ano, para tentar diminuir a fila de espera na rede pública. "O setor privado tem instalações adequadas, equipamentos que funcionam. Na rede pública, às vezes um tomógrafo está quebrado há seis meses e não se arruma porque tem que se fazer tomada de preço", afirmou ele em sabatina do EL PAÍS Brasil e da TV Brasil. Questionado se as pessoas de áreas periféricas teriam condições de chegar a essas unidades de saúde de madrugada, pela escassez de transporte público neste período, ele diz acreditar que há transporte, sim, "ou você acha que todo mundo anda de Uber?", mas diz que criará novas linhas se necessário.

"João Dólar"

Candidato mais rico dentre os que concorrem em São Paulo (declarou um patrimônio de 180 milhões à Justiça Eleitoral), ele já afirma estar colocando recursos próprios na campanha. Mas quer se desfazer do estereótipo de "João Dólar", que o prejudica entre os mais pobres e que pode prejudicá-lo em um eventual segundo turno contra Marta e Russomanno, preferidos dos mais pobres, avalia Jordão. Para isso, tem explorado a imagem de que passou dificuldades na vida. "Sou filho de nordestino", ressalta. Conta sempre que seu pai, o ex-deputado João Doria, teve que deixar o Brasil para um exílio na França na ditadura militar, época em que sua família passou por dificuldades e, por isso, ele começou a trabalhar aos 13 anos. Em sua página de campanha, destaca que é um"vencedor",  "batalhador", sempre "dormiu e acordou tarde" e obteve o sucesso como "fruto de muito trabalho". A avaliação em sua campanha é que a imagem de homem que "venceu na vida" lhe garante pontos.

Caso consiga se cacifar como prefeito de São Paulo, Doria pode se transformar no novo nome forte do PSDB em São Paulo, onde os principais caciques já estão desgastados. Entra, então, na linha de sucessão de Geraldo Alckmin, seu padrinho político. Na sabatina do EL PAÍS Brasil e da TV Brasil, feita nesta quarta, ele evitou, por duas vezes, responder diretamente se deixaria a Prefeitura, caso eleito, para concorrer ao Governo do Estado em 2018. Depois de desligadas as câmeras, ouviu de um jornalista, em tom de brincadeira, que havia se esquivado da pergunta. Sorriu e disparou: "Aprendi com você". 

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