Brasil teme ser afetado pelo clima protecionista nos EUA

Novo embaixador receia que Washington abandone seus “compromissos de livre comércio”

O presidente brasileiro Michel Temer na terça-feira
O presidente brasileiro Michel Temer na terça-feiraEVARISTO SA (AFP)

O Executivo de Michel Temer, há duas semanas no cargo depois da destituição de Dilma Rousseff, quer fazer da abertura comercial um dos pilares dos seus dois anos de mandato para tentar revigorar a economia brasileira. Em seu discurso de aceitação do cargo, em maio, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, pediu a “eliminação das barreiras não tarifárias e dos regulamentos que dificultam as trocas comerciais” com os EUA.

Em seu primeiro ato público, o novo embaixador do Brasil em Washington, Sérgio Amaral, insistiu na terça-feira nesse mantra e lamentou que o Brasil só tenha acordos de livre comércio com três países, enquanto o México, disse, tem com cerca de quarenta. Mas lançou a advertência sobre o protecionismo nos EUA: “Já devem ter notado que a questão do livre comércio tomou a dianteira nas discussões [eleitorais] e temo que, seja quem for o eleito, será induzido ou forçado a tomar algumas medidas na área de comércio que não correspondem aos compromissos tradicionais de livre comércio dos Estados Unidos”, disse em um colóquio no Wilson Center, um laboratório de ideias.

O protecionismo é uma das bandeiras eleitorais do republicano Donald Trump. O bilionário nova-iorquino defende que os acordos de livre comércio, como o que os EUA têm com o México e o Canadá, mais prejudicaram do que beneficiaram a primeira potência mundial. Promete impor altas taxas alfandegárias ao México e à China para diminuir as deslocalizações de empresas.

Aprovação à queda de Cunha

O embaixador Sérgio Amaral descreveu como um "desenvolvimento muito importante" a decisão da Câmara dos Deputados de cassar o deputado Eduardo Cunha, o promotor do impeachment de Dilma Rousseff, acusado de desvios de fundos milionários.

Amaral disse que o caso mostra o “funcionamento normal” dos órgãos judiciais e legislativos brasileiros. Minimizou seu impacto na situação política, afirmando que a votação era um fato consumado, mas disse que é positivo para a imagem do Brasil no exterior porque envia uma mensagem de firmeza. “Pessoas acusadas de corrupção têm uma posição de liderança no Congresso e o Congresso tem responsabilidade”, afirmou.

O debate protecionista também está tendo impacto nas bases democratas, o que obrigou Hillary Clinton a se distanciar de tratados comerciais como o de 12 países do Pacífico, conhecido como TPP, o que a afasta do presidente Barack Obama.

O embaixador também estendeu sua reflexão protecionista à Europa, onde disse haver um “sentimento crescente contra a globalização”. Falou de uma “ironia da história”: num momento em que o Brasil está firmemente empenhado em sentar-se à mesa de negociações, talvez os EUA e a Europa estejam menos dispostos a fazê-lo.

A Alemanha e a França arrefeceram nas últimas semanas a possibilidade de alcançar no curto prazo um acordo de livre comércio entre a UE e os EUA, conhecido como TTIP. Também esfriaram as negociações de um acordo entre a UE e o Mercosul, do qual o Brasil faz parte.

Relação bilateral

O desejo de fortalecer os laços comerciais é habitual entre Brasília e Washington, que na semana passada declarou seu apoio ao Governo Temer. Também são habituais outras prioridades e promessas, que Amaral exaltou no colóquio, como aumentar os investimentos ou a colaboração em temas ambientais.

Menos frequentemente é que um embaixador fale com a franqueza usada por Amaral, diplomata e político veterano, que enfatizou que as duas potências devem colocar a relação em um “momento de maturidade” e deixar para trás as turbulências, e que o entendimento se baseie mais no mérito e na confiança do que na ideologia.

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