EUA respaldam impeachment e prometem trabalhar com Michel Temer

Vice-presidente Joe Biden demonstra desejo de virar a página e abrir novo capítulo com aliado-chave

O vice-presidente Joe Biden na abertura da XX Conferência da CAF.
O vice-presidente Joe Biden na abertura da XX Conferência da CAF.Cliff Owen (AP)

Biden qualificou o impeachment no Brasil como uma das “maiores mudanças políticas” sofridas na região nos últimos tempos, mas salientou que, ao contrário de épocas anteriores na região, isso foi feito “obedecendo a Constituição para navegar um momento político e econômico difícil, e de acordo com os procedimentos estabelecidos”.

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Portanto, “os EUA continuarão trabalhando estreitamente com o presidente Temer, porque o Brasil é e continuará a ser um dos mais próximos parceiros dos EUA na região”, afirmou o vice-presidente. E também porque, sublinhou, “na democracia as alianças não se baseiam em alguns líderes, mas numa relação duradoura com os povos”.

As palavras de Biden não são uma surpresa. Os EUA tiveram uma postura muito pragmática nos últimos meses em relação ao Brasil e, depois da confirmação da destituição de Dilma, o Departamento de Estado concluiu que esta tinha ocorrido “dentro do marco constitucional”. Ainda assim, são a constatação no mais alto nível do desejo de Washington de virar a página e abrir um novo capítulo com um aliado-chave na região. Especialmente depois da morna relação que o Governo Obama teve com Dilma, que foi marcada pela desconfiança gerada pela revelação de que os EUA haviam espionado o telefone da presidente em 2013. Dilma Rousseff cancelou uma visita de Estado que os EUA tinham preparado para o fim daquele ano e só voltou a por os pés na Casa Branca quase dois anos mais tarde, quando seu segundo governo já estava marcado pelos sinais incipientes de recessão econômica que acabaram precipitando sua queda.

O tom conciliador de Biden na abertura da conferência anual da CAF, com a qual o EL PAÍS colabora, mudou quando ele se referiu à situação na Venezuela.

O vice-presidente dos EUA reclamou com firmeza a realização do referendo revogatório antes do fim do ano, como exige a oposição para permitir uma verdadeira mudança no poder e não uma mera transferência dentro do chavismo. E acusou o Governo de Maduro de usar “táticas repressivas em violação de sua própria Constituição” e dos princípios estabelecidos na Carta Democrática Interamericana.

“Na semana passada, centenas de milhares de venezuelanos saíram às ruas para reivindicar seu direito constitucional. Suas vozes não devem ser ignoradas”, afirmou Biden. “Pedimos que o referendo se realize antes do fim do ano, a Constituição venezuelana deve ser respeitada. E os presos políticos libertados”, disse.

No primeiro painel dos dois dias de conferência, organizada conjuntamente pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e o laboratório de ideias Diálogo Interamericano, Thomas Shannon, o veterano diplomata que John Kerry incumbiu de tentar reabrir um diálogo direto com Caracas, disse que o papel dos EUA na crise venezuelana não é mais do que tentar ajudar a encontrar uma saída interna.

“É claro que só os venezuelanos podem encontrar uma maneira de sair dessa crise, mas eles não poderão fazer isso sozinhos, precisarão da solidariedade de toda a região (...) o hemisfério precisa falar”, afirmou.

A Conferência da CAF analisa nesta edição os desafios e possibilidades de um hemisfério ocidental no qual ocorreram mudanças vertiginosas. Além de Brasil e Venezuela, serão avaliados em detalhes o processo de paz na Colômbia, a aproximação de Washington e Havana e o efeito das eleições norte-americanas de novembro para a América Latina.

Biden evitou mencionar especificamente uma corrida presidencial na qual um dos candidatos, o republicano Donald Trump, baseou boa parte de seu discurso em insultos e ofensas contra os migrantes procedentes da região, sobretudo do vizinho México, onde gerou inclusive uma crise interna de governo.

Mas o vice-presidente, o homem a quem Obama confiou as relações diretas com a América Latina e que fez mais de cinco de viagens à região nesses quase oito anos de governo democrata, deixou claro que a postura de Trump rompe com os esforços da era Obama que agora termina no sentido de criar uma relação “de iguais” com um hemisfério para o qual durante anos fez vistas grossas.