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OPINIÃO

Leitura na escola: território em conflito

Livros infanto-juvenis também são vítimas da onda conservadora no Brasil

18 de abril, Dia Nacional do Livro Infantil.
18 de abril, Dia Nacional do Livro Infantil.

Carlota, Molly e Mary são garotas boazinhas, mas gostam de fazer suas “artes”. Quando o pai ou a tutora percebem alguma atitude reprovável, contam histórias que se relacionam ao malfeito, fazendo com que as meninas confessem e acabem por emendar-se. Eis a estrutura básica de O tesouro das meninas, impresso no século XVIII e considerado um dos primeiros livros infantis brasileiros, ao lado de sua contraparte masculina, O tesouro dos meninos. Escritas originalmente em francês, as obras não escondem seu objetivo: educar os jovens para a civilidade, domar seus espíritos brutos com narrativas suaves, porém edificantes. Nos prefácios de ambos, os autores recomendam a leitura a pais, professores e, por último (talvez menos importante), aos próprios jovens.

Lá se vão duzentos anos, mas a expectativa dos pais em relação ao que seus filhos devem ler parece continuar a mesma. Praticamente todos os educadores brasileiros são testemunhas de ataques das famílias às escolas, motivados pela adoção de livros considerados impróprios ou, num jargão típico da anglofonia globalizada, "inapropriados" para crianças. Colégios particulares são alvos fáceis do neoconservadorismo moralista redivivo no Brasil. Afinal, são prestadores de serviço e devem satisfações ao cliente.

Um recente exemplo do conflito entre pais e mestres ocorreu em Belo Horizonte. O tradicional colégio católico Santa Maria solicitou aos alunos a leitura de A marca de uma lágrima, romance de Pedro Bandeira publicado em 1985 e premiado como melhor livro juvenil pela Associação Paulista dos Críticos de Arte no ano seguinte. Trata-se da história de um amor não correspondido entre adolescentes no contexto da descoberta da sexualidade. Pais de alunos do sétimo ano fizeram um abaixo-assinado para a remoção do livro, alegando que ele poderia “causar comportamentos irreparáveis (sic), presentes e futuros” incompatíveis com uma escola “reconhecidamente católica”.

Kéfera é um fenômeno que passa incólume pelos zelosos pais de família. Afinal, promove a cultura do consumo e do sucesso. Nada tem a ver com a ameaçadora reflexão crítica que a escola teima em sustentar

O campo da sexualidade e do comportamento é o alvo predileto de reações moralistas diante da leitura de obras de ficção, da mesma forma que temas políticos estão na mira da sanha conservadora, a rastrear qualquer suspeita de “doutrinação socialista” nos livros didáticos de História e Geografia. No final do ano passado, o Colégio Marista de Brasília se viu às voltas com a controversa retirada do livro A família de Sara, de Gisela Gama Andrade, de sua lista de leituras. Trata-se da história de uma menina cuja família é composta pela mãe e por dois irmãos; Sara não gosta da comemoração escolar do dia dos pais e reclama da festa. A polêmica, que transbordou para as redes sociais e ganhou a hashtag #voltasara, passa pelo reconhecimento de novas realidades familiares, em oposição à defesa irrestrita, por alguns, da chamada família tradicional brasileira.

A forte rejeição a discussões mais contemporâneas sobre comportamento parece indicar uma recusa anterior, a recusa à realidade. Estamos testemunhando uma espécie de privatização da infância: os pais não querem ceder seus filhos ao mundo, desejam mantê-los envoltos no conforto de suas casas, decidindo, ou imaginando decidir, quando e como eles irão amadurecer, quando e como terão contato com temas e problemas que se impõem no mundo exterior. A escola, no entanto, é o espaço destinado a preparar os mais jovens à esfera pública, à atuação no espaço coletivo. Muitas famílias não aceitam esse papel da instituição escolar, encarando-a como extensão de suas vontades e preferências particulares.

O discurso protetor e moralista curiosamente desaparece quando o assunto é a leitura fora da escola. A última Bienal do Livro de São Paulo que o diga: crianças e adolescentes lotaram o auditório principal para receber a youtuber Kéfera Buchmann. Celebridade do mundo virtual, ela é autora de best-sellers que misturam banalidades da vida cotidiana a afirmações sobre como ser famoso, temperadas com pitadas indulgentes de autoajuda e exibicionismo narcisista.

No palco da Bienal, Kéfera dançou a clássica Na boquinha da garrafa, cantada em uníssono pelos jovens que precisam ser protegidos da exposição precoce à educação sexual. Para alegria da galera, a videomaker também fez uma “sarrada” – movimento que consiste num pulo e na projeção dos quadris para frente. Milhares de exemplares vendidos, milhões de curtidas nas redes sociais, Kéfera é um fenômeno que passa incólume pelos zelosos pais de família. Afinal, é movido pelos impulsos do mercado, promove a cultura do consumo e do sucesso. Nada tem a ver com a ameaçadora reflexão crítica que a escola teima em sustentar.

José Ruy Lozano é professor do Instituto Sidarta e autor de livros didáticos.

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