Arte Contemporânea

Bienal de Arte: São Paulo se lança a três meses de arte existencialista e de protesto

Evento apresenta reflexões sobre ecologia e espiritualidade e uma forte carga política

Fotograma de 'O peixe', filme do alagoano Jonathas de Andrade que faz parte da Bienal.
Fotograma de 'O peixe', filme do alagoano Jonathas de Andrade que faz parte da Bienal.

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Jochen Volz, curador-geral do evento, assegura que o que quer esta Bienal – a mais verde de que se tem notícia até hoje – é celebrar a arte como lugar de resistência e transformação, indo muito além de um panorama cinzento. “Começamos a trabalhar nesse projeto em 2014, ano em que vimos bastantes publicações sobre o fim do mundo como o conhecemos. Precisamos de outras formas de pensar um possível novo futuro”, disse o alemão, casado com a artista brasileira Rivane Neuenschwander e que por 10 anos foi o diretor artístico do celebrado Instituto Inhotim. Para ele, a Bienal passou de ser uma vitrine internacional da arte contemporânea a funcionar como uma “plataforma para experimentações”.

Nesta ocasião se experimenta com as tensões entre o natural e o artificial, entre o mortal e o etéreo. Todo o espaço foi pensado como um jardim, o que resultou em uma das montagens mais fluídas do evento, livre de hierarquias e sem divisórias. Começamos no natural, num trajeto que tem início em uma floresta de esculturas de madeira de Frans Krajcberg, artista polonês de 95 anos radicado na Bahia desde a década de 1970. Logo, nos deparamos com Ágora: OcaTaperaTerreiro, a oca criada pelo artista paraense Bené Fonteles especialmente para a mostra.

Esculturas de madeira de Frans Krajcberg.
Esculturas de madeira de Frans Krajcberg.

O único que se apresenta em separado são os vídeos, por motivos óbvios. Mas eles se unem à exposição ao mesmo tempo em que servem para passar um bom tempo pensando o que faz com que os humanos, que somos um produto natural, nos sintamos artificiais ante a natureza. Em O peixe (2016), do alagoano Jonathas de Andrade, pescadores abraçam seus peixes até encaminhá-los à morte; do vídeo editado Everything and More (2015), a estadunidense Rachel Rose mostra a Terra retratada por um astronauta; En forma de nosotros (2016), a peruana Rita Ponce de León nos convida a imaginar os espaços moldados por uma bailarina; Em Hell Yeah We Fuck Die (2016), da alemã Hito Steyerl, se vê vários robôs maltratados em testes.

É difícil não sentir que algo está está prestes a desabar. É o que está em Chão, de José Bento, uma superfície de de 627 m2 coberta com tacos de madeira e com molas em algumas partes que o visitante percorre para sentir instabilidade e desconfiar da paisagem.

Obra 'Chão', de José Bento.
Obra 'Chão', de José Bento.

Nem tudo é abstrato

Nesta Bienal, pensar um país e um mundo melhores necessariamente passa por chamar à ação, como grita a Oficina de Imaginação Política que estará ativa nos três meses da mostra. Aliás, a política reverbera em mais espaços da mostra, com uma série de intervenções espontâneas de artistas contra Michel Temer. O novo presidente, que assumiu o cargo após a controversa destituição de Dilma Rousseff em agosto, é o alvo principal dos protestos mesmo antes da abertura ao público - como quando o coletivo Opavivará interrompeu a apresentação dos curadores à imprensa. Lá estão, contínuos no Ibirapuera, os gritos "Fora, Temer". No Brasil, como no mundo, a incerteza está longe de acabar.

Fotograma de um dos 'Vídeos nas Aldeias'.
Fotograma de um dos 'Vídeos nas Aldeias'.

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