Cúpula do G20 na China

G20 prega combate à desigualdade como antídoto contra o protecionismo

Cúpula termina com o compromisso de relançar o crescimento, mas sem grandes avanços

Lagarde, diretora-gerente do FMI, com o presidente Xi, nesta segunda-feira
Lagarde, diretora-gerente do FMI, com o presidente Xi, nesta segunda-feira

A proposta dos líderes passa pelo compromisso conjunto de lutar contra o protecionismo e eliminar obstáculos ao comércio e ao investimento internacional. Trata-se, segundo admitiram, de explicar as bondades do processo de globalização a uma população cada vez mais cética e em meio a vozes cada vez mais sonoras que pedem a colocação de barreiras à concorrência externa. "Vamos apoiar os mecanismos multilaterais de comércio e nos oporemos ao protecionismo para reverter a diminuição do comércio mundial", afirmou o presidente chinês, Xi Jinping, em sua declaração final. Os europeus e norte-americanos bateram pé especialmente em que o intercâmbio de mercadorias seja "justo", numa advertência velada à China pelos subsídios a setores como o siderúrgico.

O candidato presidencial republicano dos EUA, Donald Trump, é quem melhor encarna a defesa do protecionismo, mas há outros sinais, como o recente anúncio da França de que pedirá formalmente no fim do mês a suspensão das negociações do tratado de livre comércio entre a União Europeia e os EUA.

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A luta contra as desigualdades econômicas e sociais, bem como os esforços para evitar a evasão fiscal (em especial por parte das grandes multinacionais), são dois dos pontos que saíram reforçados no comunicado final em comparação com convocatórias anteriores.

"Nosso crescimento tem que ser inclusivo para que seja forte, sustentável e equilibrado", diz o texto, que defende que os benefícios da globalização "sejam amplamente compartilhados". "É um tema que já não pode ser deixado de lado. Os líderes estão conscientes de que a possibilidade de retroceder é cada vez mais real por causa do aumento do populismo, como demonstra a vitória da xenófoba AfD sobre o partido da chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel, no domingo. "Se não abordarmos o problema da desigualdade, o sistema de governança global na forma como o conhecemos atualmente poderia correr perigo", afirmou um diplomata europeu que participou das conversações destes dois dias.

Apesar de no domingo Xi Jinping ter feito um chamado aos líderes para evitarem "palavras vazias" durante as negociações, depois do encontro não houve nem vestígios do Plano Hangzhou que tanto esperavam os anfitriões. O texto final não inclui um programa de estímulo ou outra ação conjunta específica que ajude a curar os males de que padece a economia mundial. Assumir um compromisso de tal calibre se mostrou impossível pelas circunstâncias díspares de cada país e os assuntos domésticos, como já atestaram as reuniões dos ministros das Finanças do clube em fevereiro e julho.

Os líderes respaldaram uma vez mais o uso de "todas as ferramentas possíveis" para avivar o crescimento, ou seja, o coquetel formado por políticas monetárias e fiscais expansivas e a concretização de reformas estruturais. Pedem menor dependência dos bancos centrais e mais das reformas — geralmente dolorosas e para as quais falta vontade política —, mas, ao mesmo tempo, os líderes reconhecem que "resta muito por fazer" neste campo.

A falta de ação coordenada nos últimos anos e os atrasos no cumprimento dos acordos — um relatório recente do FMI mostra que os integrantes do G20 mal puseram em prática a metade das promessas da cúpula de Brisbane de 2014 — turvam o papel do grupo como condutor da coordenação global em política econômica. "É o principal fórum de cooperação internacional, mas ainda resta muito caminho para torná-lo um sistema de governança mundial", diz outro diplomata europeu.

No entanto, os negociadores insistem em que, embora algumas questões tomem mais tempo que outras, o G20 avançou de forma significativa em questões como a cooperação na luta contra as artimanhas de indivíduos e empresas para não pagar impostos. Os membros estão finalizando um programa automático para compartilhar informação fiscal, que entraria em vigor no máximo em 2018. Para a cúpula do ano que vem na Alemanha, o grupo encarregou a OCDE de preparar um relatório sobre os países e regiões que não mostraram intenção de cooperar com o bloco. Os que estiverem nessa particular lista negra poderiam ser alvo de "medidas defensivas", diz o comunicado.