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A Villa 31, de favela a novo bairro de Buenos Aires

Depois de 80 anos, a cidade urbanizará o assentamento ilegal ao lado da região mais cara da capital

O governo de Buenos Aires promete urbanizar a Vila 31, onde vivem 40.000 pessoas.

Há décadas Buenos Aires faz de conta que ela não existe, olhando para o outro lado para evitar dar de cara com seu rosto bagunçado, inacabado, feio. Até já tentaram colocar uma cerca vegetal que a esconderia dos carros que passam pela autopista que a atravessa. Mas é inútil. A Villa 31, a favela mais antiga e emblemática a cidade, não só não desaparece como também continua crescendo em pleno coração da capital. Ali já vivem mais de 40.000 pessoas, o dobro do que 15 anos atrás.

Sendo assim, depois de 80 anos de ilegalidade, a Prefeitura da cidade decidiu transformá-la em um bairro a mais. O assentamento, que nasceu nos anos 30 nos terrenos dos trens metropolitanos, foi povoado por casas ilegais, sem alvará, nas quais ninguém paga pela luz nem pela água. Agora será urbanizado, seus moradores receberão títulos de propriedade, cerca de 9.000 casas serão reformadas. Outras 1.000 que brotam sob a autopista serão destruídas – com seus telhados e antenas parabólicas que quase tocam os carros. Elas serão realocadas a poucos metros dali.

Antes e depois. O governo de Buenos Aires transformará em um parque elevado o traçado atual da autopista.
Antes e depois. O governo de Buenos Aires transformará em um parque elevado o traçado atual da autopista. Ricardo Ceppi

A eterna guerra entre os barracos e a autopista para ocupar o espaço terminará em empate: os carros chegarão ao centro por um novo traçado que não atravessará a Villa 31. A via atual será transformada em um parque elevado, inspirado no projeto da High Line, em Nova York, sobre antigas linhas de trem. Tudo custará cerca de 400 milhões de dólares e deverá ser concluído em 2019. Ninguém na Argentina confia muito nas previsões oficiais, mas a decisão está tomada.

“É impossível tirar as pessoas daqui. Há mais de 40.000 moradores. Felizmente, em uma democracia é inviável pensar nisso. Ninguém quer realmente fazer isso. Portanto vamos integrar esses habitantes. Eles terão a propriedade de suas casas, pagarão por elas com crédito. Vamos reformá-las para que os moradores vivam melhor e para que as pessoas de Buenos Aires venha aqui. A maioria dos portenhos jamais visitou este lugar que está a poucos metros de seus apartamentos”, explica Horacio Rodríguez Larreta, prefeito de Buenos Aires e homem de confiança de Mauricio Macri, enquanto passeia pela Villa com o EL PAÍS para explicar o projeto.

É verdade que alguns argentinos reivindicam o fim da favela, como foi feito recentemente na Colômbia com o chamado Bronx de Bogotá. Mas a Villa 31 é bem diferente. Não é nem de longe o lugar mais perigoso da cidade. Há tráfico de drogas, e às vezes assassinatos – em janeiro houve uma onda de cinco em um mês. Mas sobretudo há milhares de trabalhadores que limpam e trabalham nas casas dos bairros caros que estão ao lado.

Vivem na Vila principalmente porque não têm as garantias exigidas para alugar um apartamento no centro. Aqui, tudo é feito com base na palavra. Por isso, há muitos estrangeiros – metade dos habitantes. São eles que têm mais dificuldades para conseguir permissão para alugar de maneira legal.

Uma rua interna na Villa 31 sob a autopista Illia.
Uma rua interna na Villa 31 sob a autopista Illia.

Há pobreza, mas não marginalidade extrema. “Há menos diferenças entre o modo de vida entre as pessoas daqui e as da Recoleta – o bairro mais caro de Buenos Aires, separado apenas pelas linhas de trem – do que entre as daqui e as de algumas favelas da periferia. Ali, sim, há uma marginalidade muito forte”, explica Larreta.

“Vamos tentar transformar esse bairro quase em uma cidade europeia, com casas baixas e ruas estreitas. Queremos fazer com que as pessoas da cidade venham para cá. O bairro tem muito valor, existem verduras aqui que vocês não encontram em outro lugar, se vende de tudo”, espera Diego Fernández, responsável pelo projeto de urbanização.

O Governo da cidade, que tem atribuições educativas, trará ao local todo o seu ministério da Educação, com 2.500 funcionários públicos, outra forma de integrar a cidade e a favela, que agora se chamará Barrio 31. “É um assunto a ser resolvido em Buenos Aires. Não podemos continuar vivendo como se não existisse, a maioria passa pela autopista e não sabe o que acontece na parte de baixo”, diz o prefeito.

A Prefeitura tenta oferecer uma imagem romantizada, mas a favela é um local muito difícil e para comprová-lo só é preciso passar por ela. A cada passo Larreta e Pérez encontram pessoas que pedem ajuda, às vezes com dureza. “Irá oferecer trabalho para os jovens, Larreta?”, perguntam. “Quando começam as obras? Olhem os esgotos, estão entupidos”, se queixa uma senhora.

As ruas cheiram mal, as poucas redes de esgoto feitas estão entupidas, a sujeira se acumula por todos os lados, as casas são precárias, mesmo que nunca caiam. “São feitas pelos mesmos que constroem as casas do centro, as boas, que vivem aqui”, diz Fernández. O tráfico de drogas existe, mesmo que não queiram vê-lo. Os calçados pendurados nos fios de luz para marcar território são sua marca inconfundível. A taxa de homicídios é 7,5 vezes mais alta do que a do centro da cidade.

A maioria dos moradores, como as bolivianas Danilsa Arias e Leidy Flores, concorda com a urbanização da favela. Estão cansados da sujeira, da falta de luz, o barro e o cheiro quando chove e as ambulâncias não conseguem entrar. Querem viver como os outros e estão dispostos a pagar luz e água. E a comprar suas casas. Mas muitos, especialmente os que vivem embaixo da autopista, desconfiam. Como Maribel, uma dirigente local. “Não confio no Governo, queremos ficar aqui onde estamos”, afirma.

A desconfiança se explica porque a urbanização está prometida há muitos anos. Em 2010 foi aprovada como lei. Mas não aconteceu quase nada. “Agora precisarão fazer outra lei para mudar nosso projeto”, afirma Javier Fernández Castro, arquiteto e professor da Universidade de Buenos Aires (UBA), que elaborou o plano anterior, nunca realizado. “Nós pensamos em fazer 2.500 novas moradias, abrir mais ruas. Eles dizem que farão pouco mais de 1.000”, desconfia.

“Isso tem antecedentes no Rio de Janeiro, em Medellín. Pode funcionar, mas precisa de muita vontade política. A ideia de erradicar a favela sempre existiu, por isso foram feitas coisas provisórias. Agora por fim parece que se assume que é preciso integrá-los. Que assim seja”, espera. A Villa 31 continua ali como sempre. Mas agora pela primeira vez a cidade deixará de ignorar sua existência.

Todos brigam por uma foto na favela mais famosa

Mar Centenera

A Villa 31 teve seus cinco minutos de glória televisiva em maio passado. Cerca de 7 milhões de telespectadores viram a modelo Carolina Pampita Ardohain dançar hip hop em uma das ruas do bairro durante a abertura de Showmatch, o programa de Marcelo Tinelli. Nenhum vizinho quis perder o show e as câmeras mostraram todos filmando com celulares nas varandas.

Tinelli abriu um caminho que outros pretendem transitar. A cantora Tini Stoessel, conhecida por seu papel como Violetta na série infantil homônima da Disney, fez um show gratuito no sábado passado para 15.000 pessoas na favela. Ao contrário do que aconteceu com Pampita, o show de Stoessel – organizado pela cidade de Buenos Aires – foi muito divulgado e atraiu fãs que entraram pela primeira vez na favela.

Entre uma e outra apresentação, a ex-presidenta argentina Cristina Kirchner (2007-2015) tampouco quis perder a oportunidade de aparecer em suas ruas. A ex-presidenta inaugurou as instalações de um canal de televisão comunitária e percorreu a 31 no último dia 9 de agosto, que descreveu como “o lugar mais seguro do país”.

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