Juiz argentino pede a prisão da presidenta das Mães de Maio

Hebe de Bonafini é declarada “em rebelião” por se recusar a prestar depoimento em um caso de desvio de fundos

Hebe de Bonafini cumprimenta seus seguidores na Praça de Maio.
Hebe de Bonafini cumprimenta seus seguidores na Praça de Maio.Ricardo Ceppi

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As Mães começaram as rondas em 30 de abril de 1977 pedindo a liberdade de seus filhos desaparecidos pela última ditadura. A partir desse mesmo lugar, Hebe de Bonafini desafiou a ordem de detenção que chegou do tribunal de Martínez Giorgi. Diante de seus seguidores, a líder das Mães afirmou que está disposta a resistir à ordem judicial. “Não sei até onde serão capazes de ir, mas com a mesma intensidade de nossos filhos, vamos enfrentar essa justiça corrupta, a mesma que quer prender a (ex-presidenta) Cristina (Fernández de Kirchner)”, disse Bonafini para dezenas de simpatizantes que aplaudiam suas palavras. “Mães da Praça, o povo as abraça”, cantava a multidão.

“O que os militantes sabem é que as Mães estão dispostas a pagar o horror que faz (o presidente Mauricio) Macri, seus ministros, sua família. Não sabem o que fazer com a gente, querem que a gente desapareça, mas vai custar um pouco. Há 40 anos que estamos presas, há 40 anos que nos dão surras, estivemos presas em celas escuras, com mortos. O pensamento nunca pode ser preso, nem a vontade de lutar. Se querem nos levar presas podem nos levar, estamos aqui, não temos medo desses filhos da puta”, acrescentou De Bonafini.

Salvar

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A Fundação Mães da Praça de Maio enfrenta uma causa pelo suposto desvio de fundos do programa Sonhos Compartilhados, um plano para a construção de casas financiado com recursos do governo nacional entre 2008 e 2011. O juiz quer saber também se foi realizado o plano de obras e como era o controle por parte das autoridades nas diferentes jurisdições.

Com a recusa de Bonafini de se apresentar para declarar por duas vezes consecutivas, a lei autoriza o juiz a declará-la em rebeldia e ordenar seu traslado pela força. Foi isso que tentou fazer hoje, mas sem sucesso. A ordem de detenção mobilizou a militância kirchnerista e até alguns antigos funcionários do governo anterior, como o ex-ministro de Economia, Axel Kicillof. “Cada vez que Macri precisa enfrentar as reclamações das pessoas aparecem essas coisas. Bonafini já deu suas explicações e a detenção é uma provocação absurda”, disse Kicillof, agora deputado nacional pela Frente para a Vitória (FPV).

“Perseguição política”

Após a ronda da quinta-feira, as Mães deixaram a praça em uma van que foi para a sede da associação escoltadas por uma multidão de militantes, que gritavam insultos contra Macri, comparando-o com a ditadura. “É uma perseguição política contra as Mães e as organizações de direitos humanos, é um tema profundamente político e ideológico, que não tem nada a ver com a Justiça”, disse a secretária-geral da Confederação de Trabalhadores da Educação (CTERA), Sonia Alesso. “O que o Governo de Macri faz é primeiro acusar e deter, depois investigar”, diz Alesso. “A resposta do Governo contra os aumentos das tarifas, o desemprego e a crise econômica que estamos vivendo é processar os líderes políticos e inventar causas e atacá-los com o poder da mídia. Hebe teve a dignidade de se levantar e dizer que a justiça e tudo o que está acontecendo é uma farsa”, acrescenta Nahuel Beibe, militante da Corrente Nacional Martín Fierro.

Antes da ordem de detenção, os advogados de Hebe de Bonafini apresentaram uma defesa por escrito ao juiz Martínez de Giorgi, onde a líder das Mães se declarou vítima de perseguição política. “Mais uma vez sofremos na carne a zombaria, que castiga todas nós, mulheres de 85 a 90 anos, e nos condena a pagar as dívidas, injustas e de outros”, afirmou Hebe, em relação ao dinheiro que é reclamado à Fundação pelo programa Sonhos Compartilhados.

Bonafini finalmente se refugiou na sede da organização, guardada por cerca de 400 manifestantes que estavam na frente do edifício. Qualquer tentativa da polícia de detê-la iria colidir irremediavelmente com a multidão.

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