Jogos Olímpicos

As vaias de uma torcida um tanto ‘bizarre’

Pesquisadores refletem sobre o caso de Renaud Lavillenie e as peculiaridades da torcida brasileira

Lavillenie depois de ser batido por brasileiro
Lavillenie depois de ser batido por brasileiroADRIAN DENNIS (AFP)

O repórter do EL PAÍS, Carlos Arribas, que está no Rio e tem a experiência de ter acompanhado seis Jogos Olímpicos em sua carreira, explica que as vaias foram fortes e soaram mais altas para o francês do que para os que assistiram a competição pela televisão por uma questão de acústica do estádio. “Os atletas se posicionam na curva do ginásio, num ângulo onde há uma ressonância da vaia da torcida, que se multiplica, algo que o vídeo não capta”, disse. Mas o mais importante para ele: “É a primeira vez que vejo uma torcida vaiar um atleta convidado, adversário do seu país”.

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É aí que entram as diferentes percepções e visões sobre o fato, contaminadas também pelo componente emocional quando há duas culturas em confronto. O ponto central é se o atleta francês sentiu que as vaias foram indelicadas o suficiente para que ele as comparasse com as sofridas pelo atleta americano Jesse Owens, na Olimpíada de 1936, durante o regime nazista. Vários torcedores brasileiros relataram ao EL PAÍS que as manifestações teriam sido naturais, com apoio de franceses de um lado e vaias de brasileiros de outro, mas nada que tornasse o clima insuportável para Lavillenie. Além disso, desde o começo ele teria se comportado de forma arrogante, como se só esperasse o momento de botar o ouro no peito.

Que houve vaia houve. Mas não há consenso sobre o teor ou intensidade das manifestações. Isso é o mais importante? Pesquisadores do esporte, de diferentes campos concordam que a reação de Lavillenie foi infeliz, mas que o comportamento das arquibancadas tem sido realmente problemático. O francês não foi o primeiro a se queixar do barulho fora de hora. Para ficar em um caso nacional e fugir de rivalidades: Gui Lin, chinesa naturalizada brasileira, que compete no tênis de mesa, chegou a levantar a mão pedindo silêncio durante uma partida. “Nesse esporte você precisa de silêncio para manter o foco. Havia outras mesas com jogos e pensei que não era justo que os outros fossem perturbados por minha causa”, disse Lin.

Em determinadas modalidades, silêncio em algumas ocasiões não é chatice e pedi-lo não deveria denotar “primeiro-mundismo”. É, sim, algo essencial para o próprio esporte. “Há um decoro esperado no atletismo, há uma ritualização envolvendo o esporte e o silêncio para a concentração é parte fundamental da modalidade. Vaiar é simplesmente uma quebra desse decoro”, comenta o historiador Flavio de Campos, que é coordenador do Ludens, um núcleo de pesquisa da USP voltado para o esporte. “Achar que Lavillenie não soube reagir não é achar que as vaias estão certas”, diz. A psicóloga esportiva Kátia Rúbio concorda. “Era previsível que esse tipo de situação iria acontecer por aqui, há uma falta de conhecimento sobre o esporte e uma hegemonia asfixiante do futebol, por isso, o comportamento da torcida tem sido sempre semelhante ao das arquibancadas, ao do Fla-Flu, e isso pode virar um problema para o atleta”.

Entre diferentes percepções de um mesmo acontecimento, a verdade é que se até o final da noite, Lavillenie tinha sido tachado apenas de antipático e mau perdedor, depois de colocar o nazismo no meio da história ficou abaixo da crítica para a torcida brasileira. Bateu nos brios. Mesmo quem não havia acompanhado a polêmica correu para a internet para rever as imagens e tomar posição. A situação não melhorou quando o Le Monde publicou reportagem no qual o treinador do atleta declarou que o Brasil era um país ‘bizarre’. Aqui a expressão foi traduzida para “bizarro”, mas lá tem muito mais a conotação de “singular” – algo que nem o mais empedernido dos brasileiros negaria. Piorou ainda mais quando a BBC Brasil repercutiu o artigo do jornal francês, afirmando que o treinador teria dito que o brasileiro ganhou a competição graças “talvez ao candomblé”. Esse trecho do texto, na verdade, era uma ‘licença poética’ do jornalista, e não uma frase que saiu da boca do entrevistado – a BBC pediu desculpas pelo erro.

"O atleta também tem que se adaptar ao seu público, entender que os Jogos estão sendo sediados aqui justamente com a intenção de levar o esporte para lugares que não tem tradição olímpica"

A celeuma só cresceu e deixou margem para a segunda vaia, dessa vez inquestionável, direcionada ao atleta durante a cerimônia de premiação. O próprio Braz pediu palmas para o francês, mas não adiantou muita coisa. Na execução do hino nacional, Lavillenie chorou. Há quem diga que eram lágrimas de despeito pelo ouro perdido, mas ele próprio disse, em entrevista ao Jornal Nacional nesta quarta, que foi um momento muito duro e de tristeza ao sentir a torcida contra ele. Mas reconheceu que muitos brasileiros o estão parando nas ruas do Rio para tirar fotos e pedir desculpas pelas vaias. Ele ficará no Brasil até o encerramento da olimpíada.

Como informa o repórter Carlos Arribas, o comportamento da torcida brasileira fez com que o locutor das competições de atletismo realizadas nesta terça-feira repetisse um pedido para que o “espírito olímpico” fosse mantido. A cantoria das arquibancadas estava atrapalhando a concentração de corredores que esperavam o disparo do juiz para dar a largada.

Mas então, fica uma dúvida: o brasileiro não pode torcer do seu jeito? Aliás, existe um jeito certo, um jeito educado de torcer? “No caso das vaias ao francês houve uma quebra do espírito olímpico vindo de todos os lados. Os brasileiros não deveriam ter vaiado e ele não deveria ter reagido daquela forma. O atleta também tem que se adaptar ao seu público, entender que os Jogos estão sendo sediados aqui justamente com a intenção de levar o esporte para lugares que não tem tradição olímpica, mas isso não isenta a responsabilidade da torcida”, diz Campos. Para Ary Rocco, professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP, o problema faz parte de um contexto maior. “É só olhar para a cobertura que a imprensa faz do futebol, praticamente o único esporte retratado cotidianamente. É tudo levado na base da piada, do deboche e isso reflete no comportamento das pessoas”.

Na Copa do Mundo, em 2014, uma pesquisa realizada por Rocco mostrou que 10 minutos depois do fim do jogo entre Bósnia e Nigéria, em Cuiabá, grande parte do público sequer lembrava qual partida tinha assistido. “Sem base empírica, arrisco dizer que se isso aconteceu na Copa, na Olimpíada deve estar acontecendo ainda mais: pessoas que nem sabem o que estão indo assistir, que vão pela selfie e, por isso, também não se importam com os ritos do esporte, querem apenas se divertir”, acrescenta. Campos concorda e compara o comportamento de quem quer se divertir a qualquer custo com o velho espírito do “tô pagando”.

"C'est bizarre" diria um francês se visse um unicórnio e um anonymous torcendo juntos
"C'est bizarre" diria um francês se visse um unicórnio e um anonymous torcendo juntosJAVIER ETXEZARRETA (EFE)

“É normal que o público vá a competições que sequer conhece as regras, mas também existe uma dificuldade de lidar com a convivência em espaços públicos. A torcida da Olimpíada é basicamente a mesma da Copa do Mundo, a mesmo que xingou de forma acintosa Dilma Rousseff na abertura daquele evento. Tem coisas que simplesmente não cabem”, comenta Campos. A falta de reflexão sobre os xingamentos dirigidos a presidenta afastada e a ideia de que tudo vale a partir do momento que se está pagando, são coisas que a plateia acaba usando como um livre conduto para fazer o que bem deseja.

Em entrevista à BBC, o sociólogo Peter Kaufman lembrou o som das vuvuzelas na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Aquilo incomodou muita gente, mas proibir a manifestação seria vetar um traço cultural, um jeito próprio de torcer. E, aqui no Brasil, entre vaias, gritos de incentivo calorosos e piadas, momentos que têm a cara brasileira surgiram: como quando na ausência de um boxista nacional, a torcida passou a incentivar o árbitro brasileiro.

"É normal que o público vá a competições que sequer conhece as regras, mas também existe uma dificuldade de lidar com a convivência em espaços públicos"

É um jeito também de fugir do modo “induzido” de torcer que tentou-se inserir em algumas disputas desta olimpíada. Como contou a jornalista Cristina Charão, no vôlei, os locutores ensinavam até uma coreografia que devia ser feita nas arquibancadas. Tudo muito programado, tudo com muito jeito de show. Vaiar, fazer piada com o juiz de boxe ou torcer pelo gandula de tênis “mão de alface” que deixou algumas bolinhas escapulir, seriam jeitos de furar esse modo pré-programado, um tanto artificial, de torcer.

Tudo isso pode ser engraçado? Sim. É humor bem brasileiro? Sim. Mas não deveria ser uma questão de vida e morte se alguém não acha lá muita graça nisso. Como apontaram os pesquisadores ouvidos, é inegável que falta conhecimento do brasileiro sobre os esportes olímpicos e que às vezes o país pode soar, de fato, um tanto bizarre. Mas qual país não é?