João Havelange, ex-presidente da FIFA, morre aos 100 no Rio

O ex-atleta estava internado desde julho por problemas pulmonares Havelange renunciou em 2013 ao posto de presidente honorário da FIFA após escândalo de corrupção

João Havelange, ex-presidente da FIFA.
João Havelange, ex-presidente da FIFA. (REUTERS)

João Havelange morreu com 100 anos de idade. Presidiu a FIFA durante 24. Foi a ponte entre Sir Stanley Rous, inglês, ex-árbitro internacional, homem que presidiu a redação clara do Regulamento do Futebol de 1925 (dezessete regras muito fáceis de entender, frutos de experiências de acertos e erros desde as primeiras normas, criadas em 1863) e Joseph Blatter, um funcionário alçado à presidência da entidade graças à sua habilidade na realização de manobras. E que acabou envolvido por sua rede de corrupção.

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Foi a transição do esporte romântico para o esporte como negócio. Seus companheiros de viagem foram Juan Antonio Samaranch, no COI, e Primo Nebiolo, na Federação Internacional de Atletismo.

Até a chegada de João Havelange, que morreu nesta segunda-feira no Rio de Janeiro, sua cidade natal, todo o esporte, em nível internacional, ainda era regido por um certo puritanismo anglo-saxão, que ele fez explodir pelos ares. A começar pelo futebol, grandes marcas invadiram os esportes, com a Adidas na dianteira, seguida pela Coca-Cola, Visa e Kodak. Ficou para a vontade de inocência que até então inspirara em grande parte o esporte. Este passou a ter o direito de não só embolsar o dinheiro proveniente do público que assistia aos eventos esportivos, mas também aquele investido pelas grandes marcas em troca de exclusividade naqueles acontecimentos, que acabaram por se tornar os espetáculos com maior audiência na televisão em todo o mundo.

Durante muito tempo, a cada dois anos, o acontecimento esportivo mais visto da história era a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, em seguida a final da Copa do Mundo de futebol, depois de novo a abertura, depois a final...

Como não vender para tantas pessoas as vantagens desta ou daquela marca? Havelange, Samarach e Nebiolo (que criou um Mundial do Atletismo na esteira dos Jogos Olímpicos) se dedicaram a isso. O resultado foi desigual. Samaranch obteve para os Jogos um êxito: na edição de Barcelona, em 1992, ele derrubou a barreira do amateurisme, que, então, já havia se tornado uma fachada bastante hipócrita. Nebiolo propiciou ao atletismo anos de glória e de difusão televisiva que persistiram enquanto ele tinha pulso para manter tudo aquilo. O atletismo viveu os seus melhores anos, com uma alternância brilhante entre os Jogos e o Mundial. No entanto, quando ele, com toda a sua habilidade, deixou de estar ali, tudo mudou. O simples fato de a cerimônia de abertura destes Jogos do Rio ter se realizado em um estádio de futebol e não no estádio olímpico –que, aliás, leva o nome de Havelange— reflete essa decadência.

E o futebol? O que houve com o futebol nos anos de Havelange?

Em combinação com as grandes multinacionais, Havelange enfrentou a visão antiga do esporte como um elemento nobre, educativo, referência moral, exaltação dos valores físicos e morais da espécie humana. Transformou-o em negócio. Para se opor ao inimigo do mundo anglo-saxão, que se via como guardião dos valores tradicionais, apoiou-se no Terceiro Mundo. Aumentou os seus votos, sua presença nas Copas do Mundo, criou Mundiais para categorias juvenis e o Mundial feminino, cuja organização se ampliou para outras áreas, além de Europa e América do Sul, regiões tradicionais do futebol.

A coisa funcionou. E é esse o seu legado. Até a sua chegada, em 1974, o futebol era coisa da Europa e da América do Sul. Quando ele deixou a presidência da FIFA, em 1998, o futebol já era algo universal. Tivemos um Mundial nos Estados Unidos (graças a Kissinger), o da Coreia-Japão estava já programado, e havia a perspectiva da realização de uma Copa na África, que finalmente se realizaria em 2010.

Corrupção

Esse foi o lado claro. O lado escuro é a corrupção, que surgiu no futebol progressivamente. Este esporte, passatempo predileto no mundo inteiro, sempre controlara muito dinheiro, havia vários anos. A partir de Havelange, porém, o dinheiro é que passou a controlar o futebol. Transferida para um paraíso fiscal, ultrapassadas as barreiras erguidas até então pelas velhas tradições anglo-saxãs, a decência –e até mesmo a aparência de decência-- passou ser algo prescindível. O futebol funcionou e continuou funcionando com base em dois parâmetros: a eficiência na difusão de esperanças no mundo inteiro e a indecência daqueles que o controlam.

A quebra da ISL, empresa de marketing esportivo criada para a exploração da Copa do Mundo e seus derivados, que deixou um rombo de 196 milhões de euros (mais de 700 milhões de reais), foi o lado mais visível de sua gestão, embora não o único. Ali enfiaram as mãos ele e muitos dos seus, dentre eles o seu próprio genro, Ricardo Teixeira, a quem Pelé, galhardamente, chegou a enfrentar.

Pode-se dizer que, com ele, o futebol virou uma outra coisa. Expandiu-se mais do que nunca pelo planeta. Ao mesmo tempo, porém, abriu-se de forma entusiasmada para a corrupção mais descarada, contaminando-se com as práticas sujas de multinacionais gigantescas.

O estádio olímpico onde Usain Bolt realiza suas mais recentes proezas leva o seu nome.

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