Durante Jogos, guerra contra facções no Rio mata ao menos cinco em dois dias

Agente da Força Nacional, dois moradores e dois suspeitos de elo com tráfico morrem em duas favelas

Agentes da Força Nacional fazem operação no Complexo da Maré, nesta quinta.
Agentes da Força Nacional fazem operação no Complexo da Maré, nesta quinta. AP

Enquanto os Jogos Olímpicos do Rio ocorrem sem grandes sobressaltos para atletas e torcedores de todas as partes do Brasil e do mundo, a guerra contra facções criminosas que comandam o tráfico de drogas e outras atividades ilícitas no Rio de Janeiro continua. E, nesses últimos dois dias, produziu mais vítimas nas favelas cariocas. Ao menos cinco pessoas —entre elas um policial, dois moradores sem qualquer vinculação com os episódios e dois suspeitos de serem traficantes— morreram.

A primeira das vítimas foi Hélio Vieira Andrade, policial militar de Roraima e integrante da Força Nacional convocada para fazer parte, ao lado de militares e dos agentes do Rio, da segurança da Olimpíada —são 6.000 pessoas recrutadas das Polícias Militares e corpos de bombeiro de vários dos Estados. Seu único erro foi o de estar no lugar errado na hora errada, o que evidenciou, de novo, a falta de controle do Estado sobre grandes áreas da cidade. Nesta quarta-feira, a viatura de Andrade entrou por engano na Vila do João, no Complexo de Favelas da Maré, e foi recebida com tiros por traficantes de drogas. Após levar um tiro na cabeça, o policial, de 35 anos, chegou a ser operado, mas não resistiu aos ferimentos e morreu nesta quinta, segundo anunciou o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. Seus dois colegas, um deles também baleado, passam bem. Em seu perfil no Facebook, o ministro se referiu ao policial como "verdadeiro herói do nosso país". O Governo interino de Michel Temer decretou luto oficial. Já o Comitê Rio 2016 decidiu manter bandeiras da Vila Olímpica hasteadas a meio mastro. 

Hélio Andrade, o agente da Força Nacional morto por traficantes na Maré.
Hélio Andrade, o agente da Força Nacional morto por traficantes na Maré.

A forças de segurança revidaram. Na manhã de quinta-feira, um dia depois do ataque à viatura de Andrade, os moradores da Maré acordaram com agentes do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio), da Força Nacional e do Exército Brasileiro entrando na favela —com direito a carros blindados nas ruas, voos rasantes de helicóptero e invasão de casas sem mandado da Justiça, segundo os relatos dos moradores. Duas pessoas ficaram feridas e um outro morador, Igor Barbosa Gregório Augusto, de 22 anos, morreu.

O jovem foi baleado na Favela Nova Holanda (que faz parte do Complexo da Maré), segundo informou a ONG Redes da Maré, que atua no local. Chegou ao Hospital Evandro Freire, na Ilha do Governador, já sem vida, segundo confirmou a Secretaria Municipal de Saúde ao EL PAÍS. Já um dos feridos se chama Isaac Pereira da Silva, de 19 anos. Foi atingido na barriga enquanto, segundo relatou sua mãe, empinava pipa. O rapaz se encontra no Hospital de Bonsucesso. Nenhuma das vítimas tinham relação com o tráfico de drogas, segundo asseguram. A Polícia Civil também confirmou que as três vítimas foram encaminhadas para o hospital e diz que as investigações estão em andamento.

O EL PAÍS não conseguiu contatar com a Redes da Maré, mas seu diretor, o historiador Edison Diniz, fez declarações à Agência Brasil e criticou a forma como a ação policial foi executada. “Infelizmente, isso sempre acontece nos grandes eventos. A favela acaba sofrendo as consequências dessa intervenção policial. Parece uma coisa que não tem planejamento, uma resposta imediata e sempre quem sofre são os moradores. Não há uma ação de inteligência para prender o responsável. Tem que dar uma resposta de força e é isso que acontece. A Maré ficou o dia inteiro com um clima de muito medo e apreensão, com o resultado trágico de uma pessoa morta nesse confronto”, disse. 

O EL PAÍS questionou a Polícia Militar sobre possíveis presos, feridos ou mortos durante a operação desta quinta, mas não obteve resposta. A corporação disse ao jornal que foram apreendidos quatro carros, uma pistola de ar comprimido, 158 papelotes de maconha de 100 reais cada, munições de vários calibres, 301 sacolés de cocaína de 5 a 10 reais, 80 sacolés de cocaína de 50 reais cada, 40 trouxinhas de maconha e 580 pinos de cocaína. O Disque-Denúncia oferece uma recompensa de 2.000 reais por informações sobre os chefes do tráfico da Maré. O Governo interino e o Comitê Rio 2016 não anunciaram luto oficial após estes casos.

Favela Bandeira Dois, na manhã desta sexta, um dia depois da operação policial no local.
Favela Bandeira Dois, na manhã desta sexta, um dia depois da operação policial no local. Facebook

Morte e protesto em Del Castillo

A terceira vítima mortal dos últimos dias é um menino de 14 anos, assassinado durante um tiroteio na noite desta quinta-feira na favela Bandeira 2, em Del Castillo, na Zona Norte do Rio. Como forma de protesto, um grupo de moradores ateou fogo em um ônibus na Avenida Dom Hélder Câmara, perto do Shopping Nova América. Em um vídeo publicado pelo portal G1, é possível vê-los colocando o corpo de César Soares dos Santos no chão. O Governo interino e o Comitê Rio 2016 tampouco anunciaram luto oficial após este caso.

Além do menino, outras duas pessoas morreram: Ricardo Rodrigues de Araújo, de 22 anos, e Matheus Amacio de Aragão, de 15 anos, segundo confirmou a Polícia Civil. A Polícia Militar assegura que ambos eram suspeitos de envolvimento com o tráfico de drogas — um deles estava com uma pistola, uma granada, munições, um carregador, 392 pinos de cocaína, 556 trouxinhas de maconha e 95 trouxinhas de haxixe, segundo a PM. 

Os agentes entraram na Bandeira 2 após serem informados de que "estaria havendo uma ação criminosa", segundo informaram ao EL PAÍS. Ao chegarem, sempre segundo a PM, "os criminosos atiraram contra os policiais e contra as pessoas que estavam no local". Os dois suspeitos foram levados feridos ao Hospital Municipal Salgado Filho, mas acabaram não resistindo. Outro homem, identificado como Frederico Marques Pereira, foi atingido por tiros na região do tórax e da cabeça. Após passar por cirurgia no Salgado Filho, seu estado de saúde ainda é considerado grave.