Brasil olímpico faz terapia coletiva

A pátria tenta entender que país é este. O da festa de abertura ou a do ranço escravocrata?

Torcida durante partida de futebol
Torcida durante partida de futebol EFE

A Olimpíada levou o Brasil, em crise econômica e mental, ao divã. Também pudera. A história recente nos põe esquizofrênicos como o diabo. O país saltou da empolgação da conquista dos jogos no governo Lula, em 2009, à ressaca do golpismo parlamentar que alçou o vice da presidenta afastada Dilma Rousseff ao poder. Não à toa, o manifesto “Fora Temer” – inicialmente censurado e depois reconhecido como legítimo pela Justiça – é a pira e a graça da torcida.

A pátria em terapia coletiva tenta entender que país é este. O país da festa da abertura da Rio 2016, com modernidade & tradição, ao ritmo de maracatu, samba, funk, bossa nova, tropicalismo e afrobeats? Ou o país ainda com o ranço escravocrata que não repete na torcida das arenas a mesma mestiçagem – alô Gilberto Freyre! – anunciada no espírito inicial do espetáculo do Maracanã?

Infelizmente, a terra em que se plantando tudo daria com fartura, como exaltada na carta de Pero Vaz de Caminha, ainda usa trabalhadores irregulares e sem garantias para servir nos próprios domínios do COI e do COB. Medalha de lata em direitos sociais.

O país de Rafaela Silva, a judoca de ouro da Cidade de Deus, ou a Nação politicamente sedentária que ignora as bombas, chutes e pontapés desferidos pela Polícia Militar de São Paulo contra os estudantes secundaristas em bravo protesto nas ruas? Os movimentos dos sem-teto e sem-terra, ave palavra, nem se fala, também apanham todo santo dia.

Sucuri amazônica

O gigante pela própria natureza hiberna no divã. Como uma amazônica cobra sucuri que engoliu um boi. Entre um cochilo e outro, o país exige – o verbo é esse – que Neymar e companhia nos dê o ouro olímpico nunca dantes conquistado pelo futebol verde e amarelo. O país cobra, na voz dos seus narradores oficiais, o país estrebucha, dá chiliques, pitis, tem crises nervosas... Óbvio que este neurótico tupiniquim que vos escreve compartilha da mesma obsessão futebolística, uma doença acentuada depois daquele inesquecível 7x1 da Alemanha na Copa de 2014.

No divã continental que serpenteia do Oiapoque ao Chuí, esquecemos os reais problemas – isso não é o pior sintoma psiquiátrico – e projetamos nossa ideia de país nas provações esportivas, mesmo nas modalidades dos mais improváveis heróis. Se obtemos algum êxito isolado, aquela histeria sem fim; quando nada dá certo, esquecemos o mantra do Barão de Coubertin e lembramos que o importante não é competir, todavia reforçar o velho complexo de vira-lata – este doutor Freud não catalogou, todavia consta da cartilha primária do contraditório e hiperbólico gênio brasileiro chamado Nelson Rodrigues.

Se na festa de abertura respiramos aliviados por escapar da viralatice, no dia seguinte já estávamos lá, resfolegantes, cães de rua farejando alguma derrota à guisa de humilhação. É do jogo ou talvez da eterna nostalgia do subdesenvolvimento. Não é uma simples colocação técnica no time dos emergentes que vai nos livrar dessa síndrome. Talvez um outro Lula, reencarnando o dom Sebastião, nos faça curar. Sim, o sebastianismo vive e as pesquisas eleitorais comprovam a cada rodada.

“Fomos do céu ao inferno”, diagnosticou o craque Neymar, questionado depois dos empates da seleção brasileira contra África do Sul e Iraque. Sim, meu jovem, na divina comédia tropical não existe purgatório. Ou isto ou aquilo. Você que cuide de jogar como atua no Barcelona, sob pena de levar as mesmas pedradas que o país atira na Geni -a prostituta da canção de Chico Buarque, nossa eterna metáfora.

“Ela é boa de apanhar, ela é boa de cuspir, maldita Geni”.

Ê Brasilzão bipolar. Um dia nos queixamos da falta de garra, de sangue nos olhos, de raça; na manhã seguinte reclamamos da passionalidade que nos elimina. Quanta falta nos faz equilíbrio e frieza. Não tem jeito.

Segue a Olímpiada com o país no divã. Isso é ótimo, avançamos um pouco além da simples sociologia de boteco, uma das especialidades deste cronista. Que nos venha o ouro. Mesmo que seja o ouro de tolo ao qual se referia Raul Seixas, o grande roqueiro na pátria do samba. Toca, Raul.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor da novela Big Jato (editora Companhia das Letras) e de Os machões dançavam ­crônicas de amor & sexo em tempos de homens vacilões (ed. Record), entre outros livros. Comentarista de televisão programa Papo de Segunda (canal GNT).

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