Os anfitriões que querem enfrentar o mundo

Brasileiros chegam aos Jogos com maior delegação da historia e desafio de ficar entre os dez melhores

Marta e Andressa comemoram gol na estreia da seleção.
Marta e Andressa comemoram gol na estreia da seleção.Marcelo Sayão (EFE)

Fora a fascinação nessa sorte de parque temático – com filas para entrar, filas para comer, flashes, shows de boas vindas e espírito de acampamento de verão – , os brasileiros carregam nas suas costas não só a pressão dos anfitriões, mas o desafio, estabelecido pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), de ficar entre os dez países com maior numero de medalhas. Os 465 atletas brasileiros classificados para os Jogos do Rio formam a maior delegação da história do país em olimpíadas. O número é quase o dobro de Londres 2012, quando 259 atletas representaram o país e conquistaram 17 medalhas para o Brasil, sendo três de ouro, na 22ª posição no quadro de medalhas.

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“A pressão está compartilhada”, afirma o judoca Felipe Kitadai, uma das promessas da delegação que subirá no tatame já no sábado. A categoria de Kitadai, peso ligeiro, é muito disputada, segundo ele, que vê no Japão, Azerbaijão e Cazaquistão os principais rivais. “Mas eu vim para enfrentar o mundo”, diz. Do seu lado, está a medalhista de ouro em Londres Sarah Menezes, aposta quase certa para os brasileiros. Com estreia também no sábado, Menezes não vai nem participar da cerimônia de abertura. “Deve ser legal, mas é melhor eu descansar, me hidratar. Quem sabe se na cerimônia de encerramento estarei aqui, né?”, disse. A judoca, uma dos mais de 130 atletas que vem das filas do Exército e Marinha, diz se senti melhor que em 2012. “A medalha já passou. Zerou tudo. Mas me sinto mais preparada”.

Marcus Vinícius Freire, diretor-executivo do Comitê, acredita que 23 ou 24 medalhas serão suficientes para o Brasil terminar no top 10, número que foi sendo reduzido ao longo dos últimos quatro anos. Em 2012, Freire falava em 30 medalhas. No ano passado, passou para 27. O discurso sobre o quadro de medalhas também mudou com o passar do tempo. Hoje, apesar de a expectativa ser alta, um 11º ou 12º lugar já é visto com bons olhos. "Iniciamos essa conversa em 2009 e sempre dissemos que [a meta] era um documento vivo, que tinha a possibilidade de ser alterado. Estamos exatamente dentro da mesma possibilidade que tínhamos quando iniciamos o planejamento. Nossa meta é ser top 10 e continua sendo. Se não acontecer e ficar em 11º ou 12º, faz parte do esporte", disse Freire em entrevista coletiva em julho.

Alheios aos números, os atletas brasileiros se prepararam para brilhar no Rio. “Chegaremos nessa meta, sim, principalmente nos esportes nos quais temos uma tradição de medalhas”, explica o jogador de rugby Martin Schaefer. “Pela nossa parte, estamos preparados para incomodar os adversários”, complementa o colega Gustavo Albuquerque. Alguns brasileiros conquistaram resultados expressivos nos últimos anos e chegam aos Jogos como favoritos à medalha de ouro. É o caso, por exemplo, do ginasta Arthur Zanetti, campeão olímpico em Londres nas argolas. Ele conquistou uma medalha de ouro e duas de prata nos últimos três mundiais da modalidade e chega credenciado para subir ao pódio no Rio. Na mesma condição está a saltadora Fabiana Murer, campeã mundial em 2011, vice em 2015 e dona da segunda melhor marca do mundo em 2016. Apesar do favoritismo, uma hérnia de disco diagnosticada no final de julho pode atrapalhar os planos da atleta. "Estou em um trabalho intenso de fisioterapia (duas vezes por dia), e treinando muito bem. Já fiz até um treino de salto completo. Estou evoluindo rapidamente e estou me dedicando ao máximo para chegar 100 por cento na Olimpíada", escreveu Fabiana em uma rede social.

Longe dos problemas físicos, os esportes coletivos do Brasil também chegam em boas condições. No futebol, Neymar e Marta são os grandes nomes das seleções masculina e feminina. O handebol feminino, campeão mundial em 2013 e quinto colocado em Londres 2012, é esperança de pódio e pode até brigar pelo ouro. Um pouco mais difícil será a missão do time masculino de basquete, que conta com bons nomes e vários atletas da NBA. Pode brigar pelo pódio, mas as duas primeiras partidas no torneio, contra as poderosas Lituânia e Espanha, serão decisivas para a equipe. No vôlei, o recente título do Grand Prix para as mulheres e o vice-campeonato da Liga Mundial para os homens também colocam as duas equipes entre as favoritas.

Ainda no vôlei, só que de praia, a dupla formada por Larissa e Talita é grande candidata à medalha de ouro. Em junho, elas subiram ao lugar mais alto do pódio no Major da Súiça após vitória por 2 a 0 na final contra Walsh, tricampeã olímpica, e Ross. Bárbara e Ágatha, atuais campeãs mundiais, correm por fora, mas também têm boas chances. No masculino, Bruno e Alison estão hoje um nível acima dos outros competidores. Eles formam a dupla mais regular dos últimos anos no vôlei de praia e entram como favoritos. No total, o vôlei (de quadra e de praia) pode sim render ao Brasil quatro medalhas de ouro. Ou, no mínimo, quatro pódios.

Na natação, sem César Cielo, apenas Bruno Fratus, nos 50 m livre, e Thiago Pereira, nos 200 m medley (mesma prova de Michael Phelps), chegam com chances de medalha. Na maratona aquática Ana Marcela Cunha e Poliana Okimoto, nessa ordem, são candidatas ao pódio. É na água também que estão as duas últimas premiações quase certas do Brasil. Maior medalhista olímpico do país ao lado de Torben Grael, com cinco pódios, o velejador Robert Scheidt pode se tornar o brasileiro mais premiado nos Jogos. E na canoagem, o jovem Isaquias Queiróz, de 22 anos, tem chances de, em sua primeira Olimpíada, ganhar logo três medalhas.

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