Edna Santini, um foguete no rugby

Edna Santini é a estrela da seleção brasileira feminina que participa pela primeira vez das Olimpíadas

Modalidade ficou mais de 90 anos fora dos Jogos

Edna Santini durante o treinamento no Rio de Janeiro.
Edna Santini durante o treinamento no Rio de Janeiro. Folhapres

Com um pouco mais de um metro e meio de altura e 54 kg, Edninha já está acostumada a ser confundida com uma ginasta olímpica. Mas a atleta paulista, de 24 anos, é na verdade o destaque da seleção feminina brasileira de rugby, esporte no qual a força física é imprescindível. A modalidade é uma das novidades das Olimpíadas do Rio, já que retorna à competição após 92 anos fora dos Jogos.

O tamanho de Edna Santini é justamente o que lhe dá a agilidade e a habilidade para driblar as adversárias geralmente mais fortes e altas que ela. A "baixinha" do time, no entanto, aprendeu desde cedo a enfrentar rivais ainda mais complicados. Aos 10 anos, quando começou a praticar o esporte, Edninha jogava apenas com meninos por falta de um time feminino na sua cidade, em São José dos Campos, interior de São Paulo. "Acho que me ajudou muito ter jogado com homens para ficar mais forte e rápida. Eu tinha que me esforçar bastante para estar lá, me fez desenvolver algumas habilidades que hoje fazem diferença”, conta ao EL PAÍS.

A atleta, que só migrou para a equipe das mulheres na categoria adulta aos 15 anos, acabou também se tornando um xodó entre os companheiros de rugby. "Eles sempre me defendiam quando eu levava um puxão de cabelo ou se algum menino me batia mais forte. Quando viajávamos para competir, eles deixavam um banheiro só para mim. Era divertido ser uma menina ali no meio", conta.

A carreira de Edna deslanchou, no entanto, foi na equipe feminina, longe dos seus 'protetores'. Aos 16 anos, a atleta foi convocada para treinar na seleção brasileira e, quatro anos depois, em 2011, jogou sua primeira partida oficial no Circuito Mundial de Dubai, nos Emirados Árabes. De lá pra cá, ela já ganhou o título de melhor jogadora do país e trouxe, junto com as companheiras, uma medalha de bronze inédita do Pan-Americano, disputado em Toronto, no Canadá. Recebeu também lá fora um novo apelido, o de pocket rocket (foguete de bolso, em inglês) por seu tamanho e agilidade. Já foi chamada de 'Neymar do rugby', mas acha que a comparação faz mais sentido com a estrela do futebol feminino brasileiro: Martha.

Se tivesse escutado o desejo do pai, talvez Edna poderia ter seguido os passos da atacante de futebol. Porém, sua curiosidade de criança e o destino a fizeram conhecer um esporte bem menos popular no Brasil. Ela foi morar justamente na frente de um centro de treinamento de rugby e, desde criança, já quis brincar de jogar aquele esporte que os meninos corriam com uma bola mais oval e se trombavam muito.

"Quando vi meus amigos do bairro jogando, pedi pra aprender também. Eu também gostava de futebol. Meu pai até pediu para eu fazer um teste no time do Santos. Fui, passei para uma segunda fase, mas acabei não indo para participar de um campeonato de rugby", conta sorrindo. Diz, porém, que a família sempre a apoiou em suas escolhas.

Rugby 7

Nos Jogos do Rio, o rugby será uma das novidade, já que a modalidade ficou mais de 90 anos fora da competição. O esporte foi disputado nos Jogos de Paris-1900, Londres-1908, Antuérpia-1920 e Paris-1924. 

Neste ano, no entanto, estará em disputa uma modalidade chamada de rugby 7, com partidas mais velozes e dinâmicas. Essa versão, em que cada equipe joga com sete atletas, em vez de 15, foi criada na Escócia, no fim do século 19, mas só começou a ganhar o mundo em 1921, quando se realizou o primeiro torneio fora da Escócia. A Copa do Mundo do rugby 7 foi criada em 1993, entre os homens, e em 2009, para as mulheres.

Filha de um pedreiro e de uma costureira, ela não tem dúvidas de que, sem a ajuda e a mobilização dos pais, não teria chegado aonde está. A trajetória não foi fácil. Apesar de ter ajuda financeira do clube para viajar aos torneios, a família tentava ajudar como podia no início. Para ganhar um extra, a mãe chegou a lavar as roupas do time. Apoiaram na mudança da atleta para a cidade de São Paulo (onde ela começou a ganhar o bolsa atleta) há três anos e também foram o porto seguro de Edna quando a jogadora sofreu uma lesão no tornozelo e teve que conviver por meses com a dúvida se poderia voltar a treinar.

No próximo sábado, Edninha enfrenta um novo desafio, talvez o maior de sua carreira. Estreia nos Jogos Olímpicos contra a seleção do Canadá e está confiante. "É um grupo bem disputado. Tenho a esperança de conseguir uma medalha e vamos jogar até o último minuto para isso. Mas a meta do time é ficar no top 8, porque assim conseguiríamos entrar de forma fixa no circuito mundial", conta ela.

Só o fato de participar de uma competição como as Olimpíadas já deixa a atleta bastante animada. Sabe que o coração vai bater forte caso cruze na Vila Olímpica com a estrela do atletismo Usain Bolt ou com os craques brasileiros, como Neymar. "Deve ser bem legal ver de pertinho grandes atletas do país e sentir que agora estamos todos no mesmo time: o do Brasil". A competição também pode servir de vitrine para que mais pessoas conheçam seu talento e ela possa receber, talvez, alguma boa proposta para treinar em países como Nova Zelândia ou Austrália, onde a cultura do rugby é forte.

Antes de desembarcar para  o Rio de Janeiro, Edninha voltou a São José dos Campos – hoje uma das mecas da modalidade no país – para acompanhar a passagem da tocha olímpica na cidade. Se emocionou. Confessa que queria ter sido escolhida para carregá-la. Mas sabe que melhor ainda será, quem sabe, carregar para casa uma medalha olímpica.

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