Olimpíadas Rio 2016

Michael Phelps: “Sou como uma criança. Não quero crescer!”

Após superar uma crise existencial e de virar pai, o esportista olímpico mais condecorado segue ao Rio

Phelps, na Universidade do Arizona. EDU BAYER

Mais informações

Michael Phelps (Maryland, 1985) atende os jornalistas num escritório do lendário departamento de futebol americano da Universidade do Arizona. O homem pálido de Baltimore está queimado pelo Sol do Oeste, para onde se mudou no final de 2014 para se desintoxicar. Estava atrás da salvação pessoal e acabou na água. Mais uma vez, contando os dias que faltam para os Jogos. Depois de uma grave crise existencial, o Rio de Janeiro é o destino final do atleta olímpico mais premiado de todos os tempos.

Pergunta. Pode explicar por que a preparação para os Jogos de 2012 lhe fez tão mal?

Resposta. Não queria ir treinar. Não queria estar lá. Deixava para lá. Não me propus nenhum objetivo. Me deixava levar pelas sensações de cada dia. Se me levantava de manhã e me sentia cansado demais para sair da cama, desligava o despertador e voltava a dormir. Quando me dava vontade de sair de Baltimore para ir a este ou àquele lugar, ia. Fazia o que queria quando queria.

P. Foi difícil recuperar o desejo de nadar depois dos oito ouros de 2008?

R. Isso foi parte do problema. Eu me perguntava: “E agora, qual é o desafio?”. Mas tinha mais. Havia alguma coisa mais que me tirava a vontade de continuar neste esporte.

P. O que passou pela sua cabeça quando se viu preso na delegacia por dirigir bêbado, em 2014?

R. Não havia muitas coisas que pudessem passar pela minha cabeça. Tinha feito uma cagada e estava muito aborrecido comigo mesmo. Sabia qual seria o desfecho e só queria sair da delegacia.

P. Seu treinador, Bob Bowman, disse que se não tivesse passado por essa crise, sua vida teria corrido perigo. O que você acha?

R. Quem sabe? Nunca saberemos a resposta.

“Em 2012 não merecia ganhar os 200 m borboleta nem os 400 medley”

P. Milionário, famoso, ocioso… O que o impedia de se sentir plenamente realizado entre 2008 e 2014?

R. De vez em quando era, sim, feliz. Tinha altos e baixos. Acho que procurava o jeito de encerrar minha carreira como nadador e começar outra vida.

P. E o que aprendeu?

R. Aprendi a olhar para mim mesmo e a descobrir quem sou realmente. E ser feliz com o que sou. Libertar-me do peso de coisas que arrastei por toda a vida e que me provocavam grande frustração. Coisas como meu relacionamento com meu pai. Carregava uma mochila cheia e consegui tirá-la de cima porque descobri que não precisava dela. Isso me permitiu voltar para onde gostava de estar e desfrutar das coisas que realmente quero.

P. O que significa ser feliz consigo mesmo?

R. Olhar-me no espelho e me sentir feliz com o que vejo. Muita gente fica mal ao fazer isso. Agora não mudaria nada.

P. Você atribui sua infelicidade ao comportamento do seu pai. Qual foi o problema?

R. Cresci educado por uma mãe solteira, numa casa cheia de mulheres. Devo tudo a elas, porque me apresentaram o mundo da natação. Mas deixei de compartilhar muitas coisas com meu pai numa época em que precisava disso. Não queria continuar me atormentando com perguntas como, “o que teria acontecido se…?”. Queria poder falar com ele de coisas sobre as quais não concordávamos. Queria ter essa pessoa na qual poder dar um abraço de vez em quando... Meu pai e eu somos pessoas muito obcecadas e teimosas. Precisávamos falar cara a cara sobre tudo o que nos calamos durante tantos anos. Precisava disso para sair do atoleiro. No fim, acho que criamos uma amizade. E acho que agora nos sentimos muito à vontade, porque estamos em contato com frequência. Foi um passo gigantesco na direção certa.

P. Sente-se uma pessoa melhor?

R. Minha personalidade é a mesma. Continuo a ser uma criança. Ainda me vejo como uma criança. Sou como este anúncio da [loja de brinquedos] Toys ‘R’ us: Não quero crescer! Sou uma criança grande. Sempre dou risada, sempre tento me divertir. Minha vida se passou numa piscina. Foi isso que me levou a me divertir e é uma coisa pela qual agradeço. São experiências que me ajudaram a cruzar certos obstáculos. É difícil de explicar. Existem coisas nas quais não prestei mesmo atenção. Levei a carga sem perceber. Me sinto muito mais livre agora. Não me sinto tão preso.

P. Você jogou pôquer profissional. Continua?

R. Joguei cartas durante muito tempo. Agora há coisas mais importantes para mim.

Phelps e Bowman na Universidade do Arizona.
Phelps e Bowman na Universidade do Arizona.EDU BAYER

P. Está preparado para mudar de vida depois do Rio?

R. Sim. Nicole, minha garota, e eu, passamos por muitas coisas juntos; crescemos juntos. Tivemos a oportunidade de trazer nosso primeiro filho a este mundo, e isso é algo que tentávamos fazia muito tempo. Fico entusiasmado que meu filho possa ver minhas últimas provas nos Jogos. É algo muito especial para os dois. Vai guardar a lembrança para sempre.

P. Estabeleceu objetivos para quando parar de nadar? Como se imagina daqui a 10 anos?

R. Minha vida sempre se baseou em objetivos. E vai ser sempre assim. Dentro ou fora da piscina. Agora me concentrei em nadar esta temporada. Quando acabar, será o momento de virar a página e pensar em algo novo. Se pudesse prever o que vou fazer em 10 anos, ganharia um monte de dinheiro. Mas não consigo ver o futuro.

P. Não faz planos?

R. Meu plano é estar com meu filho o máximo que puder, para vê-lo crescer. Ser parte da vida dele. É algo que tenho buscado. Fora isso, gostaria de continuar com meu projeto de fabricação do que acho que seja o melhor maiô do mundo; e continuar ensinando as crianças a ficar seguras na água. As crianças são minha paixão e pretendo ficar muito tempo trabalhando em educação. É nisso que sinto que o verdadeiro Michael Phelps aparece.

P. Fisicamente seu corpo não responde mais como em 2008 e 2012. Como acha que sua mente vai responder no Rio?

R. Sempre me saí bastante bem quando chegam as provas e tenho que competir. É disso que gosto mais neste esporte. Bob Bowman, meu treinador, me ensinou a nadar todo tipo de prova em todas as situações, mas o último passo sempre depende de mim. Temos feito práticas para exercitar o uso deste resto de energia que permite competir quando se atinge o limite.

P. Você vai nadar três provas individuais e um revezamento: 100 e 200 m borboleta, 200 m medley e revezamento 4x100 medley. Isso representa um corte de 50% em relação a sua programação em Pequim e em Londres.

R. Estes Jogos serão diferentes de todos os outros. A preparação que fiz não tem nada a ver. Para nós o essencial foi escolher as provas em que terei mais chance. Em 2012, passamos por uma experiência desagradável nos 400 medley e aprendemos. Sempre levamos isso em conta na hora de determinar o que posso fazer no nível máximo.

“Não sei como é subir no bloco de largada e pensar: ‘Aqui todos estão limpos’”

P. Qual foi sua prova preferida?

R. Não tenho preferência. Quero ganhar os quatro ouros. Mas é inútil dizer. Também queria manter o título dos 200 m borboleta de 2012, mas perdi.

P. Como foi sua conversa com Bowman quando decidiu voltar a treinar?

R. Discutimos. Demonstrei a ele que estava pronto para superar coisas que não tinha conseguido superar antes. Obstáculos que não quis enfrentar. Bob não teria me permitido voltar a treinar de outro modo. Ao longo de minha carreira tentei fazer as coisas de muitas maneiras distintas. Algumas funcionaram e outras foram fracassos épicos. Se decidimos voltar a tentar foi só porque me comprometi a agir simplesmente da melhor maneira possível. O velho modo. Esse é o pacto com Bob. Acho que por isso estou gostando tanto de nadar outra vez, por isso estou feliz outra vez. Vejo os resultados.

P. Como administra o gasto energético em sua idade?

R. A única diferença é que preciso prestar mais atenção à minha recuperação. Faço mais trabalho fora da piscina, entro mais na banheira de gelo depois do esforço, recebo mais massagens, cuido mais dos estiramentos... Não me recupero como antes. O corpo dói muito mais. Me canso muito mais. Tenho que estar mais atento às mensagens que o corpo me envia. Já não como comida... Não quero dizer junkie food, mas... Agora só como alimentos saudáveis. Sou muito mais saudável do que era.

P. O que você sente na água depois de quase 30 anos de rotina?

R. A água foi parte da minha vida durante tanto tempo que se tornou um lugar onde estou confortável. É natural. É parte do que sou.

Michael Phelps se prepara para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, treinando na Universidade do Arizona, em Tempe.
Michael Phelps se prepara para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, treinando na Universidade do Arizona, em Tempe.EDU BAYER

P. Como avalia a enorme pressão que colocam sobre você em seu país? Parece que a única alternativa ao fracasso é o ouro.

R. As expectativas alheias às vezes ajudam e às vezes prejudicam. Mas ninguém me coloca mais pressão do que eu mesmo. Sei que se chegar ao Rio nas melhores condições de preparação possíveis estarei contente.

P. Há algum desafio que especialmente o entusiasme?

R. Seria fantástico ser o primeiro nadador a ganhar um ouro olímpico em uma prova individual com mais de 30 anos. Só posso jurar que a única coisa que fiz nestes meses foi preparar-me o máximo possível para estar na melhor forma. E em 2012 esse não foi o caso. Não mereci ganhar os 200 m borboleta nem os 400 medley. Não trabalhei duro como poderia. Os outros treinaram mais do que eu e mereciam esses ouros. Se estou preparado como posso estar, os resultados vão dar conta dos resultados.

P. Por que acredita que ninguém conseguiu um ouro depois dos 30?

R. Porque chega um momento em que as pessoas deixam de querer nadar ou simplesmente não conseguem. Não sei se houve gente tão determinada e obsessiva como eu. Se coloco uma coisa na cabeça não há nada que se interponha em meu caminho. Os objetivos que me propus para este verão são tão gigantescos, que não sei se houve gente disposta a assumir a quantidade de dor que suportei ou submeter-se à quantidade de trabalho duro que sou capaz de suportar.

P. Existe alguma rivalidade entre você e Usain Bolt para ocupar o centro destes Jogos?

R. Que rivalidade? Não somos rivais! Não me interessa quem pode ser a maior estrela dos dois. Se competi durante tanto tempo é porque quis. A fama vem com correr rápido ou nadar rápido. Se ele tem mais fama, parabéns. Não me incomoda. O que ele fez é incrível. Ser o homem mais rápido do mundo durante oito anos... Trabalhou mais duro do que a maioria. Não imagino ninguém correndo mais rápido. Seria um excelente receptor no futebol americano! É uma loucura. Ele dá a impressão de se divertir com o que faz e isso é o essencial. Essa é a chave. Depois de cada corrida, brinca com todo mundo. Ver alguém se divertir com o que faz é algo que sempre se quer ver no esporte. Isso é o que as crianças devem ver e o que o mundo quer ver. Pessoas se divertindo.

“Se coloco uma coisa na cabeça, nada consegue se interpor”

P. No Rio, você pretende demonstrar que pode continuar se divertindo na piscina?

R. Quero demonstrar o que fui ao longo de toda minha carreira e houve uma seca de quatro anos na qual esse não foi o caso. Adoro poder estar de volta. Mas não sei qual será meu humor.

P. Qual a sua opinião sobre o doping em massa na Rússia?

R. O doping é uma merda. Uma merda! Digo isso porque não sei o que subir no bloco de largada antes de uma corrida e pensar: “Nesta competição todos estão limpos”. É muito triste. Seria bonito que todos estivessem no mesmo campo de jogo. Mas creio que sempre haverá gente agindo assim.

P. Por quantos exames você passou em 2016?

R. Devo ser uma das pessoas que mais sofreu controles antidopling na história olímpica. Este ano, me fizeram exames de sangue e urina pelo menos duas vezes por mês, e às vezes até três. Em 2008, passei por mais controles do que jamais imaginei que passaria. Servi de exemplo.