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Karl Ove: “Sou um homem de família, mas odeio a ideia de ser homem de família”

Escritor lança o quarto volume de 'Minha luta’ e fala de seu livro sobre o 7x1 da Copa de 2014

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Continua sendo difícil, como desejam os leitores mais curiosos sobre o homem atrás das páginas, precisar o que é real e o que é inventado em seu projeto. Na Flip, ele lança pela Companhia das Letras Uma temporada no escuro, o quarto volume da série de seis “romances não ficcionais” ou de “verdade subjetiva”, segundo suas próprias palavras, e que leva o mesmo título do famoso livro de Adolf Hitler. Depois de abordar temas como a infância e o casamento nos volumes anteriores, o assunto agora é a juventude de um professor recém-formado no interior da Noruega, que dá aulas para adolescentes e encara as frustrações causadas pelo pai alcoólatra.

Sobre Hitler e a polêmica coincidência entre os títulos, o autor não se mostra indiferente – é mais: a vontade de titular sua série Minha luta despertou nele uma curiosidade profunda sobre o líder nazista. Leu Mein Kampf, biografias e tudo o que apareceu na sua frente. “Percebi que em algumas biografias falavam dele, ainda muito jovem, como um adolescente do mal. Me perguntava como isso era possível, e em que momento aconteceu o shift, e ele passou de alguém que se apaixonou, escreveu cartas e era uma pessoa comum, com a qual eu podia me identificar, àquele que fez o que fez. Entendi que o mal vem das maiores banalidades e que temos que conviver com isso”, contou.

Knausgård, quem por dez anos escreveu insatisfeito consigo mesmo, até considerar finalmente que “desaparecia dentro da própria escrita, assim como o leitor desaparece ao ler um livro", assume que sua obsessão literária é a ideia de identidade – pessoal, nacional, cultural etc. Mas, depois de escrever os volumes de Minha Luta, ele prometeu que deixaria de lado o universo de sua própria intimidade (“Não porque doa escrever sobre mim, mas, sim, sobre meus amigos e familiares”) para se concentrar em objetos do mundo.

Pensou uma nova série – é um autor prolífico, de muitos livros e muitas páginas por livro – que funcionasse como uma enciclopédia afetiva de objetos pessoais e que ele quis fazer em homenagem à filha. O projeto, extenso como o anterior, terminou se transformando mais uma vez em relatos sobre ele e a família. Vai pelo terceiro livro do conjunto (composto de quatro volumes), que fala de suicídio, “mas também de amor, de primavera, de como a vida vai ressurgindo”. “Mas desta vez eu jurei parar. Tenho que escrever sobre outra coisa”.

E escreveu. Fã de futebol, ele e um amigo – Fredik Ekelund – que estava no Brasil durante a última Copa do Mundo escreveram juntos Home and Away, um livro sobre o evento que inclui a fatídica partida Alemanha x Brasil que entrou para a história pelo desastroso 7 x 1. Sem qualquer ironia, o escritor – que disse torcer para a Argentina e, ao contrário do amigo, ser avesso a sair, beber e dançar, como muitos brasileiros – sofreu pela derrota nacional. “Sofri muito ao ver a Alemanha arrasar com o Brasil. Minha mulher até saiu da sala. Nunca tinha visto um time daquele nível ser atropelado daquele jeito, foi uma tragédia”, afirmou. Ainda não divulgada no Brasil, apesar de estar tão relacionado, a obra não fica só no futebol: inclui digressões existenciais, políticas e literárias.

Knausgård também se disse preocupado com a ascensão do nacionalismo e a xenofobia na Europa, algo que culminou na recente votação em que a população inglesa votou pela saída do Reino Unido da União Europeia. "As coisas estão mudando, e isso gera crises. E em períodos de crises as pessoas tendem a apelar para soluções mais simplistas. Ao mesmo tempo em que estou preocupado, considero interessante acompanhar um momento em que as coisas estão mudando. A Noruega está fora da União Europeia porque tem uma tradição de independência de 400 anos e não quis desistir dela, e lá estar fora da UE é uma posição de esquerda. Na Inglaterra, é uma bandeira de direita e ficar é de esquerda”.

Questionado sobre quem finalmente é esse norueguês de quase dois metros, elegante, de fala mansa, pai de quatro filhos e que vive em uma vila de cerca de 200 pessoas no interior (chamada Skane, e que agora, ele conta, acolherá 30 refugiados afegãos), Knausgård diz que não sabe. “Passei algumas milhares de páginas tratando de descrever quem eu sou, mas ainda não sei. Sei, por exemplo, que sou um homem de família, mas odeio a ideia de ser um homem de família”. Pouco importa para ele, que devolve a conversa ao começo: uma coisa é o que somos, outra é a imagem que fazemos de nós mesmos.