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Israel e Turquia normalizam relações e abrem via de estabilidade no Oriente Médio

Acordo, que põe fim à crise pelo ataque a uma frota internacional em 2010, foi anunciado nesta segunda

Netanyahu (esquerda) e o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, em Roma.
Netanyahu (esquerda) e o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, em Roma. AFP

Nem “vitória diplomática para melhorar a situação humanitária em Gaza”, como proclama Ancara, nem “desterro do Hamas de sua base de operações na Turquia”, como alardeia o primeiro-ministro Benjamín Netanyahu. O acordo para a normalização de relações entre Turquia e Israel, oficializado nesta segunda-feira depois de seis anos de desencontros, é um pacto de interesses mútuos que gira em torno do negócio do gás natural no Mediterrâneo Oriental e a sua condição de aliados dos Estados Unidos em uma região chave.

Forçados pela mútua dependência econômica, Israel e Turquia selaram a reconciliação após seis anos de desencontro. O ataque por forças navais israelenses em maio de 2010 a uma frota internacional que levava ajuda humanitária a Gaza, no qual morreram 10 turcos, acabou com uma relação estratégica e de cooperação militar que datava da época da Guerra Fria. Um acordo para aliviar o bloqueio que o Estado judaico impõe a Gaza há mais de uma década abriu o caminho para a normalização dos laços diplomáticos.

Netanyahu apressou-se a reconhecer nesta segunda-feira em Roma, onde se encontrou com o secretário de Estado dis EUA, John Kerry, que a normalização de relações com a Turquia terá “imensas implicações para a economia israelense” e contribuirá para a estabilidade no Oriente Médio. Kerry celebrou ao seu lado: “É um passo que queríamos ver”, informa a Reuters. Israel conta com grandes reservas de gás natural em suas águas territoriais. Uma vez cobertas suas necessidades energéticas com a reserva Tamar, vê-se obrigado a exportar o excedente do gigantesco campo Leviatán. Com um mercado regional limitado à Jordânia e após a descoberta de imensas reservas nas águas do Egito — seu teórico mercado natural —, Netanyahu viu-se forçado a buscar uma conexão com a Turquia e sua rede de gasodutos para a Europa.

“O Oriente Médio sumiu em um torvelinho de confrontos. Nossa política é ir criando ilhas de estabilidade com alguns países vizinhos”, argumentou Netanyahu em Roma depois do pacto. “Este é um acordo que é bom para ambas partes”, acrescentou, antes de advertir de que Israel seguirá mantendo o bloqueio naval, além do terrestre, à Faixa palestina. “Mas permitiremos que a Turquia possa enviar ajuda a Gaza através de Israel”, precisou Netanyahu. Seu Governo exigiu ao de Ancara que impeça toda atividade do Hamas, o movimento islamista palestino que controla a costa, em território turco contra os interesses de israelenses, incluída a captação de fundos. A Turquia, no entanto, seguirá mantendo laços políticos com o Hamas

Israel já havia cumprido duas das três condições exigidas por Recep Tayyip Erdogan — antes primeiro-ministro e agora presidente da Turquia —, para a normalização da relação bilateral. Netanyahu pediu perdão em 2013 — horas após se reunir em Jerusalém om o presidente dos EUA, Barack Obama — pelo ataque à frota, e seu Governo aceitou no final de 2015 indenizar com 20 milhões de euros (74,25 milhões de reais) os familiares das vítimas da abordagem em alto-mar.

O terceiro e último requisito precisou de muitas sessões de negociação. A Turquia pedia o levantamento do bloqueio a Gaza. Israel, por sua vez, a expulsão do território turco dos representantes do Hamas, o movimento islâmico que controla a Faixa de Gaza.

O compromisso acertado permitirá a chegada de ajuda turca à população de Gaza para aliviar a grave situação humanitária da região após três devastadoras guerras com o Estado judaico: de dezembro de 2008 a janeiro de 2009, em novembro de 2012 e de julho a agosto de 2014.

Os envios não irão diretamente ao território palestino, mas serão desembarcados no porto israelense de Ashdod, próximo a Gaza, para uma inspeção de segurança antes de chegar ao seu destino.

O pacto para a retomada de relações inclui um programa de investimentos turcos para a reconstrução da infraestrutura de Gaza. Além de construir um novo hospital, o Governo de Ancara financiará a instalação de outra central elétrica para diminuir os cortes de fornecimento programados a cada oito horas por regiões e os apagões imprevistos em toda a Faixa de Gaza. A Turquia e a Alemanha financiarão conjuntamente a construção de uma fábrica de dessalinização diante da grave crise de saúde da região, onde mais de 90% da água disponível não é considerada potável por estar contaminada por águas residuais e substâncias tóxicas.

Medidas contra o Hamas

Em contrapartida às medidas de relaxamento do bloqueio, as autoridades de Ancara se comprometem a não permitir que o Hamas realize ações contra Israel do território turco e a expulsar os comandantes acusados por Israel de dirigir atentados terroristas na Cisjordânia. O próprio Erdogan, entretanto, recebeu na sexta-feira em Istambul o líder do Hamas exilado no Qatar Khalid Meshal para deixar claro que a Turquia continuará mantendo contatos com o movimento islâmico palestino. O chefe do Mosad (o serviço secreto israelense), Yossi Cohen, viajou à Turquia para acertar os detalhes finais.

Israel também obteve a promessa turca de que este país não irá processar os militares israelenses que participaram do ataque à frota liderada pelo navio Mavi Marmara, acusados em diversas causas abertas nos tribunais turcos, mediante uma reforma legislativa no Parlamento de Ancara. “Garantimos a imunidade de membros das Forças Armadas contra acusações apresentadas na Corte Penal Internacional”, revelou um funcionário de alto escalão dos serviços de segurança israelenses ao jornal Haaretz.

A Turquia entregará ajuda humanitária a Gaza e outros produtos “não militares”, assim como efetuará “investimentos em infraestrutura”. Está prevista a construção de novos edifícios residenciais e um hospital com capacidade de 200 camas. “Daremos passos concretos para solucionar as crises de fornecimento de água e energia em Gaza”, disse, antes do anúncio do acordo, um funcionário turco, que acrescentou que “não existem referências ao Hamas no acordo”.

“A Turquia continuará apoiando [a criação de] um Estado palestino, e o presidente [Erdogan] conversou com o presidente Mahmud Abbas”, afirmou antes de adiantar que “serão colocados em andamento grandes projetos na Cisjordânia, incluindo uma área industrial em Jenin [norte]”. Ancara afirma que a Autoridade Palestina e o Hamas respaldam o acordo entre Turquia e Israel.

A ONG islâmica turca IHH, que fretou o Mavi Marmara, criticou duramente o pacto no Twitter, dizendo que é “inaceitável” para as vítimas. “Israel não irá fechar nossa boca” com o pagamento de compensações. A IHH anunciou sua intenção de prosseguir com os processos abertos contra militares israelenses nos tribunais turcos e exigiu o levantamento do “bloqueio ilegal” a Gaza.

CHEIRO DE GÁS NO MEDITERRÂNEO ORIENTAL

As enormes reservas de gás natural descobertas no Mediterrâneo Oriental são o pano de fundo da reconciliação entre Israel e Turquia. O acordo de normalização de relações estipula que os dois países irão negociar a construção de um gasoduto entre a jazida de gás Leviatã, em águas territoriais israelenses, e solo turco, onde entrará na rede de conduções de energia que vão rumo à Europa.

A metade do gás consumido pela Turquia vem da Rússia, que projetava a construção de um gasoduto na Anatólia. Após a aviação turca derrubar um bombardeiro russo na fronteira com a Síria em novembro de 2015, os projetos de cooperação com Moscou acabaram.

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