MASSACRE EM ORLANDO

Obama classifica ataque de Orlando como “extremismo doméstico”

Presidente afirma que as autoridades “ainda não encontraram evidências” de ação guiada por terroristas

A matança de Orlando sacode os Estados Unidos. (atlas)

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse nesta segunda-feira que o FBI seguiu todos os protocolos durante as duas investigações realizadas sobre Omar Mateen, o suposto autor do ataque em Orlando, o maior massacre nos EUA desde os ataques de 11 de setembro de 2001. Obama afirmou, após uma reunião com James Comey, o diretor da agência federal, que “devemos garantir que não seja tão fácil para uma pessoa que queira fazer tanto dano obter armas”.

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O presidente classificou o massacre como um “claro exemplo de extremismo doméstico que nos preocupa há algum tempo”. Obama disse que as autoridades norte-americanas “ainda não encontraram evidências de que [o suposto responsável pelos ataques] tenha agido liderado por um grupo terrorista”, embora tenha declarado sua lealdade ao Estado Islâmico (EI) durante uma ligação para a polícia antes do ataque, no qual matou 49 pessoas e feriu outras 53, antes de ser morto pelos policiais.

Nas imediações do clube gay Pulse, a paisagem nesta segunda-feira continua sendo de uma cidade irreal. A maioria dos estabelecimentos está fechada. A avenida permanece completamente protegida por tanques e carros de polícia. Persiste o zumbido constante de helicópteros da polícia e redes de televisão. De longe, é possível ver um grande “P”, o cartaz da boate. Algumas grades foram colocadas nos arredores.

Grisie Torres, uma porto-riquenha de 45 anos, é uma das poucas transeuntes. Leva algumas flores na mão, mas percebeu que quase não há lugar para deixá-las. Existem apenas algumas pequenas concentrações improvisadas. O choque impede, por enquanto, grandes homenagens.

Torres, que mora há três anos em Orlando, não conhecia ninguém que estivesse no clube. “Senti uma inquietude e não consegui ficar em casa”, diz Torres, que trabalha no setor imobiliário. “É muito triste. Não há nenhuma razão para fazer algo assim”, acrescenta. Ela acredita que a matança unirá a comunidade latina, que responde pela maioria das vítimas.

Yvonne Engman, de 51 anos, é outra entre os poucos não jornalistas ou policiais. Mora neste tranquilo bairro residencial há 20 anos. Com quatro moradores, decidiu sair para distribuir água e alimentos. “É tão anormal estar fazendo isso”, diz. Todas as manhãs, vai a uma cafeteria ao lado da boate. Seu bairro foi transformado.

O FBI continua as investigações para determinar as razões que levaram Mateen a abrir fogo em um clube gay em Orlando (Flórida). Comey disse nesta segunda-feira que o FBI está investigando a matança como um ato terrorista e que tem “forte indícios” da radicalização de Mateen, mas, como explicado anteriormente por Obama, ainda não há provas de que seu ato foi liderado por um grupo em particular.

A agência revelou que o jovem conseguiu comprar as duas armas de maneira legal nos dias que antecederam o massacre porque não tinha antecedentes criminais. Obama afirmou que o FBI cumpriu todos os protocolos, mas que os norte-americanos devem refletir sobre os riscos “de serem tão permissivos com armas tão poderosas neste país”.

Mateen tinha investigado em duas oportunidades pelo FBI e, segundo fontes da agência federal, fez duas viagens à Arábia Saudita, uma delas em 2012. No ano seguinte, a agência de segurança foi alertada a respeito de “comentários inflamados que ele fez aos seus colegas de trabalho em que se podia presumir seus laços terroristas”, segundo revelou nesta segunda-feira o agente do FBI em Orlando Roland Hopper.

Hopper falou sobre as investigações, que incluíram depoimentos de várias testemunhas, vigilância e rastreamento de documentação: “Não nos permitiram examinar os conteúdos de seus comentários e encerramos a investigação”, embora tenha qualificado os comentários de Mateen como “selvagens”. O suposto atirador dizia a seus colegas que tinha amigos na Al Qaeda e no Hezbolá, bem como ligações com os responsáveis pelo atentado ocorrida durante a maratona de Boston.

Em um primeiro depoimento, Mateen não admitiu ter feito essas afirmações e disse que na verdade não conhecia esses aqueles grupos terroristas. No entanto, em uma segunda conversa, admitiu ter se referido a eles. “Parecia que estava procurando uma oportunidade qualquer para se associar com o grupo do momento”, afirmou um agente ao The Wall Street Journal.

Embora essa investigação tenha se encerrado, no nome de Mateen ressurgiu pouco depois, em 2014, por uma possível associação com Mone Abu-Salha, outro habitante da Flórida acusado de ser o primeiro norte-americano a ter viajado para a Síria e ter cometido ali um atentado suicida. Segundo o FBI, os dois frequentavam a mesma mesquita, mas a investigação foi abandonada pois não se conseguiu provar a existência de nenhum vínculo pessoal entre eles.

Três horas, três conversas

O autor do massacre da boate Pulse falou pelo menos três vezes com a polícia local, segundo afirmou nesta segunda-feira o chefe da Polícia de Orlando, John Mina. Mateen se mostrou “tranquilo” em todas as ocasiões e declarou a sua lealdade ao Estado Islâmico. No último diálogo, porém, ele avisou a polícia que estava equipado com explosivos, razão pela qual as forças de segurança decidiram invadir o local. “Naquele instante, consideramos que a perda de vidas era iminente”, disse Mina. Uma das vítimas havia alertado sua mãe de dentro do banheiro do local sobre o fato de que estavam todos trancados ali com o atirador.

“Ele nos prendeu. Vamos morrer”, foi uma das últimas mensagens de texto enviadas por Eddie Justice a sua mãe na madrugada do domingo, segundo o diálogo divulgado pela agência Associated Press. A polícia tentou, então, derrubar um muro com explosivos, mas, sem consegui-lo, acabou usando um veículo para tanto. O buraco aberto permitiu o resgate de dezenas de reféns, segundo as autoridades, mas logo teve início um novo tiroteio, que durou até que se acabasse com a vida de Mateen.