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Coluna
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O poeta doméstico colhe tempestades

Temer marca seu curtíssimo mandato com o selo de um dos mais patéticos da história da República

O presidente interino, Michel Temer, nesta terça-feira.
O presidente interino, Michel Temer, nesta terça-feira.FERNANDO BIZERRA JR (EFE)

Com pouco dias no exercício do cargo, o presidente interino, Michel Temer, vem demonstrando que, infelizmente, no Brasil, nem sempre após a tempestade chega a bonança, pode vir sim outra tempestade, pior ainda. Após conspirar de maneira escancarada para o impedimento da presidente Dilma Rousseff, Temer, sob o lema positivista Ordem e Progresso, e prometendo virar a página da corrupção no país, marca seu curtíssimo mandato com o selo de um dos mais patéticos da história da República. Desde 13 de maio, todos os dias o presidente interino vem a público para desmentir seus ministros, para cancelar promessas feitas no ato da posse e para tentar explicar o inexplicável.

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O mais recente caso é o de Romero Jucá, senador por Roraima, investigado na Operação Lava-Jato e respondendo a inquérito na Operação Zelotes, ambos por suspeita de corrupção, e conhecido por sua perseguição à população indígena. Apesar deste currículo, foi escolhido por Temer ministro do Planejamento – antes, havia sido ministro da Previdência e líder do governo no Senado na administração Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, com o vazamento de suas conversas com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, fica claro que ele coordenou a orquestração do afastamento da presidente Dilma Rousseff com o objetivo expresso de impedir a continuidade do trabalho da Operação Lava-Jato. Como Jucá não agiu sozinho, todo o processo de impeachment, que alçou Temer ao cargo de presidente da República, está sob suspeita.

Antes, de maneira açodada, Temer havia extinguido o Ministério da Cultura, transformando o assunto em uma secretaria do Ministério da Educação – e recriando uma pasta que só existiu durante o abominável período da ditadura militar, o MEC. Em menos de dez dias, pressionado pela classe artística, o presidente interino voltou atrás e “desextinguiu” o ministério da Cultura – algo parecido com a atitude de seu colega, o deputado Waldir Maranhão (PP-MA), que, encantado com a cadeira de presidente da Câmara, em menos de 24 horas anulou e “desanulou” o processo de admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff. Ambos, Temer e Maranhão, são pacientes da mesma moléstia: a lamentável vaidade provinciana.

Temer não conseguiu sequer definir uma direção para seu governo interino. Preocupado em apagar os rastros dos 14 anos do lulopetismo na administração federal, tem dedicado parte do tempo para desmentir declarações de seus subordinados. Alexandre de Moraes, o ministro da Justiça, deixou escapar o viés autoritário de sua personalidade – bastante conhecido em São Paulo quando secretário de Segurança Pública – ao insinuar que Temer não deveria aceitar a indicação do candidato mais votado para ocupar a Procuradoria-Geral da República e sim fazer sua própria escolha entre os nomes da lista tríplice. O presidente interino teve que divulgar nota dizendo que vai manter a tradição e aceitar a indicação dos procuradores.

Outro que teve de ser desmentido: o ministro da Saúde, Ricardo Barros. Engenheiro – é a primeira vez, desde 2003, que o cargo é exercido por alguém sem nenhuma relação com o setor –, Barros, além de dizer que irá convocar os religiosos para participar da discussão sobre o aborto, afirmou que o Sistema Único de Saúde (SUS) deveria ser repensado. O SUS, conquista história da Constituição de 1988, funciona de maneira precária, mas garante a universalidade do acesso ao sistema público de saúde. Barros, que teve parte de sua campanha financiada por uma empresa de saúde privada, argumentou que suas palavras não foram bem interpretadas, e se desdisse.

José Serra, candidato tucano duas vezes derrotado à Presidência da República – em 2002, por Luiz Inácio Lula da Silva, e em 2010, por Dilma Rousseff – assumiu o Ministério das Relações Exteriores fazendo tudo que um diplomata não deve fazer: com seus discursos agressivos e belicosos tem provocado constrangimentos no Itamaraty. À política equivocada de alinhamento tácito com governos ditos de esquerda latino-americanos patrocinada pelos governos petistas, Serra contrapõe o “desalinhamento” incondicional, uma postura também equivocada, pois ignora o papel do país na geopolítica regional. Na verdade, agindo assim, o tucano visa muito mais o público interno que os interesses do país – seu comportamento é o de pré-candidato à sucessão em 2018 e não de encarregado da imagem do Brasil no exterior.

Em seu discurso de posse, Michel Temer afirmou, de forma categórica, que iria manter os projetos sociais instituídos pelo governo petista que deram certo, e, entre eles, nominou o programa Minha casa, Minha vida, que já alcança quase 4,5 milhões de moradias para famílias de baixa renda construídas ou em construção. Desmentindo-se, Temer anunciou a suspensão da terceira fase do programa, que previa a entrega de mais 2 milhões de casas até 2018. A continuação do projeto, segundo ele, deve agora ser submetida ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que, aliás, já acenou com a possibilidade de aumento de impostos...

Por último, mas não menos significativa, a indicação do deputado André Moura (PSC-SE) para líder do governo na Câmara. Aliado de primeira hora do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afastado da presidência da Casa por envolvimento em corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Moura, envolvido em investigações na Operação Lava Jato, é réu em três ações no Supremo Tribunal Federal (STF) e responde a três outros inquéritos (um deles por suspeita de homicídio). Além disso, Moura pertence ao PSC, cujo presidente, Everaldo Pereira, é alto dirigente da Assembleia de Deus, e cuja estrela-maior chama-se Jair Bolsonaro, o deputado fascista que é também pré-candidato à Presidência da República em 2018.

É assim que Temer combate a corrupção generalizada.

Luiz Ruffato é escritor e jornalista.

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