O prisioneiro que prefere ficar em Guantánamo a ir para a Europa

Um iemenita que já passou 14 de seus 35 anos de vida nessa prisão se nega a ser libertado Sua condição para sair é se instalar em um país árabe

Mohammed Ali Abdullah Bwazir
Mohammed Ali Abdullah Bwazir

Não se trata de um caso isolado. Em 2010, cinco presos uigures que seriam soltos recusaram a transferência para Palau ou para as Maldivas. Tiveram de aguardar dois ou três anos, conforme o caso, para deixar a prisão, mudando-se para El Salvador e Eslováquia.

O que o caso de Bwazir tem de excepcional, é que ele decidiu permanecer em Guantánamo no exato instante em que embarcava em um avião que o levaria a algum país europeu, cujo nome seu advogado se recusa a informar. Antes disso, ele já havia realizado duas greves de fome em protesto contra a sua detenção.

Bwazir foi preso no Afeganistão em 2001 sob alegação de ter feito treinamento com a Al Qaeda e combatido as forças norte-americanas, mas não chegou a ser acusado formalmente de nenhum crime. Seu defensor afirma que no Afeganistão ele trabalhava em um centro beneficente e foi vendido aos EUA por um senhor da guerra. “Creio que houve um erro, e disse isso a ele. A maioria dos homens de Guantánamo faria de tudo para sair dali e teria partido feliz para esse país da Europa”, afirma Chandler. O advogado, que o representa gratuitamente, teme que agora seu cliente não conseguirá sair antes do final do mandato de Barack Obama, em janeiro. Diferentemente do que prometeu em 2010, o presidente não conseguiu fechar a prisão para suspeitos de terrorismo inaugurada em 2002 por seu antecessor, George W. Bush, com o objetivo de driblar os tribunais civis e as salvaguardas internacionais.

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Segundo sugere seu advogado, Bwazir está deprimido. Guantánamo é o seu mundo, e ele teme o desconhecido. “Sempre refleti sobre o fato de que um homem que passou a maior parte da vida adulta em uma instituição que lhe é familiar hesite em se aventurar em um mundo novo e estranho, especialmente quando não fala o idioma”, comenta Chandler, que é também advogado de outros dois presos iemenitas. Desde 2007, a direção da prisão recomenda a saída de Bwazir, desde que haja certas condições de segurança e de ressocialização.

Problemas psicológicos

Não existem dados recentes sobre os problemas psicológicos que atingem os prisioneiros de Guantánamo. Um relatório de sua equipe médico revelou em 2009 que uma parcela significativa dos detidos sofria distúrbios de personalidade e ansiedades, mas não analisou as causas disso. Um outro relatório, produzido pela ONG Médicos para os Direitos Humanos em 2011, relata o caso de nove reclusos sofrendo de depressão aguda ou estresse pós-traumático e que esses sintomas eram coerentes com suas denúncias de tortura.

“Não é surpreendente que isso ocorra”, afirma Stephen Soldz, diretor da Faculdade de Psicanálise de Boston e autor de um relatório da Médicos para os Direitos Humanos sobre as torturas aplicadas pela CIA em suspeitos de terrorismo. Soldz explica que alguns presos libertados de Guantánamo sofreram “falta de apoio” nos países para onde foram transferidos e até mesmo quando foram transportados de volta a seus países de origem, onde teriam sido vistos com desconfiança e encontrado dificuldade para obter trabalho.

Guantánamo recebeu 779 presos, detidos sob a legislação de guerra. Dos 80 presos atuais (em sua maioria, iemenitas), apenas 10 foram formalmente acusados. O restante não passou por nenhum tribunal. Vinte e seis têm autorização para deixar a penitenciária. O Departamento de Estado procura por países que possam recebê-los (o Iêmen está fora de questão por razões de segurança), já que o Congresso vetou sua possível ida para os EUA.

A última transferência ocorreu em abril: 10 presos libertados foram para a Arábia Saudita, um destino que agrada a Bwazir, que mantém a sua exigência de ser mandado para um país árabe, conforme o seu defensor legal comunicou ao Governo.

O objetivo de Obama é efetuar a transferências desses 26 detidos – inclusive Bwazir – até o final de agosto, de acordo com um funcionário do Departamento de Estado, segundo o qual cabe ao Governo a palavra final sobre os destinos dos libertados, mesmo que leve em conta as suas preferências.

Segundo Chandler, as condições da transferência de janeiro implicavam que Bwazir teria de permanecer dois anos no país europeu indicado, onde poderia receber visitas de seus familiares. Disporia de um apartamento e receberia um subsídio para viver e estudar. Ao final desses dois anos, ele poderia partir para onde quisesse. “Suponho que ele tenha raciocinado que, permanecendo em Guantánamo, poderá chegar a um país árabe antes disso”, afirma.