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Brasil: não à pizza

Manobras no Conselho de Ética para salvar Eduardo Cunha são preocupantes

Simpatizantes de Dilma Rousseff.
Simpatizantes de Dilma Rousseff.ANDRESSA ANHOLETE / AFP

Quem nunca foi jantar com amigos numa pizzaria? Exceto em ambientes muito elegantes, esse tipo de restaurantes convida a comer muito e sem talheres, de forma que mesmo os grupos mais empertigados terminam a noitada num espírito de informalidade e camaradagem. Por isso, no Brasil, se diz que os escândalos de corrupção desativados por um conluio político “acabam em pizza”: ao redor da mesa, os rivais políticos sujam as mãos e fazem as pazes. O único prejudicado é o cidadão, que vê os governantes saírem impunes de seus malfeitos.

O mais que provável impeachment da presidenta Dilma Rousseff não acabará com os casos de corrupção que minam o sistema de partidos, embora a tumultuada e até certo ponto ridícula sessão de votação da Câmara dos Deputados parecia dar a entender assim. Pelo contrário, a crise se acelerou no momento no que as investigações da Lava Jato apontaram para os mais altos escalões dos principais partidos, não só o PT de Dilma, mas também o PMDB do vice-presidente Michel Temer e até o PSDB de Aécio Neves.

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Diante dessa situação, preocupam as manobras no Conselho de Ética para salvar o presidente da Câmara e principal articulador do julgamento de Dilma, Eduardo Cunha, comprometido pelas investigações da Lava Jato e pelas denúncias de delatores. Cunha está sendo julgado por mentir à Câmara: negou ter contas no exterior que, mais tarde, foram descobertas pelo juiz Sérgio Moro. Se fosse condenado pelo Conselho, perderia o foro privilegiado e passaria à justiça comum. No entanto, existe a possibilidade de a oposição, em agradecimento pela destituição da presidenta, conseguir articular uma maioria para salvar Cunha impedindo a cassação.

Uma manobra dessas não só prejudicaria mortalmente qualquer autoridade moral que a oposição a Dilma possa ter no combate contra a corrupção (autoridade já por si não exatamente sólida), como também abriria a porta para algo mais sinistro: o potencial de uma intervenção mais ativa por parte do novo Executivo para desativar as investigações em curso.

Para muitos brasileiros, que saíram às ruas fartos da podridão, seria a enésima decepção. Mais decepcionante ainda seria para a imagem internacional do país. Em meio a uma gravíssima crise econômica, a única coisa que o Brasil ainda pode tirar dos escândalos de corrupção é a imagem de um país em que o Ministério Público e os juízes podem colocar a mão em um emaranhado que chega até ao palácio presidencial; algo inconcebível até poucos anos e que distingue claramente ao Brasil de outros países emergentes em que o Judiciário é a marionete do Executivo. Em um mundo onde o capital estrangeiro é tão importante, qualquer ato que reforce o Estado de Direito dará garantias aos investidores internacionais; e, ao contrário, tudo o que o debilitar será decepcionante. Se o Brasil quer tirar algo positivo desta derrota, a sociedade não pode permitir que tudo termine em pizza mais uma vez.

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