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ANÁLISE

Islândia: Tempestade de piratas

Parece que o grande beneficiado político neste país será uma espécie de versão liliputiana do Podemos

Islândia e Panama Papers
O primeiro-ministro islandês, Sigmundur David Gunnlaugsson, nesta segunda-feira em Reykjavik. AP

Os islandeses querem sangue. Os piratas o sentem.

Tudo indica que o vazamento maciço de documentos conhecido já em todo o mundo como os Panamaleaks fará sua primeira vítima na Islândia. Traição, ultraje, vergonha eram as palavras na boca do povo islandês ante a revelação de que seu primeiro-ministro, Sigmundur David Gunnlaugsson, havia criado uma empresa offshore, aparentemente com a finalidade de reduzir o pagamento de impostos enquanto a população lutava para superar a assombrosa crise bancária que afundou o país em 2008.

No provável caso de que sejam realizadas eleições gerais antecipadas, o grande beneficiado político parece que será o Partido Pirata –uma espécie de versão liliputiana do Podemos–, líder nas pesquisas entre os partidos de oposição, antes mesmo de o escândalo vir à tona.

A intempestiva e indigna fuga de Gunnlaugsson no meio de uma entrevista na televisão no domingo, na qual se pediam explicações a ele, aprofundou a sensação geral na Islândia de que seu Governo, que tem também dois ministros na lista dos Panamaleaks, deve cair. Ao meio dia de domingo o primeiro-ministro, chefe de um Governo de coalizão de centro-direita, declarou em uma segunda entrevista que não tinha intenção de renunciar. Mas o mesmo disse Geir Haarde, que ocupava o cargo em 2008, quando os três principais bancos islandeses entraram em colapso, e ele não só acabou caindo, mas foi processado pela justiça.

Contatados nesta segunda-feira por telefone vários conhecidos islandeses, inclusive alguns que haviam simpatizado com o atual Governo, a sensação que transmitiram foi de um profundo desconcerto, somado a uma irada disposição de vingança. Profundamente decepcionados, tinham desejado acreditar que a avareza e o abuso de poder que há oito anos desencadearam a catástrofe em seu país era algo que pertencera ao passado. Os islandeses foram os primeiros a sucumbir à crise e os primeiros a sair. A economia islandesa, baseada na pesca e no turismo, é hoje mais potente que nunca. O desemprego neste país de 320.000 habitantes superou 9% em 2008; hoje está abaixo de 3%. A moeda sofreu da noite para o dia uma desvalorização brutal, mas hoje a Islândia é um país caro para os visitantes europeus.

Estive em Reykjavik há apenas duas semanas e o que se respirava no ambiente era orgulho pela firmeza, pragmatismo e coragem que os islandeses haviam demonstrado para se recuperar da crise. Falei nesta segunda-feira com uma das pessoas que vi naquela visita, Halla Tomasdottir, uma bem-sucedida empresária que aspira a ser eleita presidenta de seu país, um cargo mais honorário do que executivo, na segunda metade deste ano. Tomasdottir compartilhava a indignação geral.

"Os islandeses não querem que no restante do mundo seu primeiro-ministro seja associado a líderes mundiais conhecidos por sua hipocrisia", disse-me, referindo-se claramente a figuras como Vladimir Putin e certos líderes árabes mencionados nos Panamaleaks. "Embora possa não estar claro se leis foram violadas ou se impostos não foram pagos, permanecem perguntas válidas sobre a natureza da liderança e o comportamento ético que esperamos daqueles que nos servem no Governo. Nós, islandeses, não nos vemos refletidos nesse tipo de liderança. Os valores que sentimos que nos representam são a honradez, a igualdade, o respeito e a justiça."

Tomasdottir considera difícil que o primeiro-ministro Gunnlaugsson continue sendo capaz de refletir esses valores ante uma opinião pública manifestamente enojada uma vez mais com seus governantes. O Partido Pirata, erigindo-se como representante dos valores autênticos islandeses, não duvidou em tirar proveito do estado de ânimo geral.

Sua principal dirigente, Birgitta Jonsdottir, lidera o coro de vozes que pede a renúncia de Gunnlaugsson. Ela o acusou no domingo de ser um "mentiroso e uma fraude". Não haverá muitos de seus compatriotas que hoje divirjam dela, a possível primeira chefe de Governo pirata na Islândia desde os tempos dos vikings.

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