Ellen Page: “Sair do armário me fez voltar a amar meu trabalho”

Atriz viaja por vários países, como Brasil e Jamaica, para conhecer a situação da comunidade gay

Ellen Page, neste sábado em Austin.
Ellen Page, neste sábado em Austin.

“O que teria acontecido se eu não tivesse saído do armário?”, Ellen Page perguntou na entrevista com a qual abriu o segundo dia do festival de música e cinema SXSW em Austin (no Texas, EUA). “Fico refletindo sobre isso: o que teria acontecido…?”. E a resposta para ela parece clara. Depois de conseguir sucesso em Hollywood com filmes como Juno e A Origem, a atriz decidiu anunciar publicamente que era gay durante um congresso sobre direitos humanos em 2014. Longe disso ter lhe criado problemas para encontrar trabalho, ela se sente “com muita sorte” pelo momento que vive.

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“Para mim é difícil saber se me dão menos papéis, porque não estou nessas reuniões”, diz. Mas o fato de finalmente poder se expressar livremente e mostrar seu “autêntico eu” lhe permitiu se envolver em projetos que antes não teria feito. “Produzi filmes como Freeheld e continuo produzindo, como a história de amor que vou rodar com Kate Mara. Graças a sair do armário voltei a me apaixonar pela minha profissão”, confessou.

A atriz reconheceu que pôs o foco em filmes concentrados em mulheres e gays porque isso é o mais importante para ela no momento. “Mas não vou só fazer isso”, explicou, dizendo que não concorda quando a acusam de se concentrar em histórias com personagens gays. “Ninguém pergunta a um ator ou produtor por que faz tantos filmes sobre heterossexuais. E eu não julgo, mas esses são os dois pesos e duas medidas de que falamos sempre. É isso que precisa mudar”, disse.

Ellen Page foi ao festival de Austin para falar sobre Gaycation, série de documentários que gravou junto com seu melhor amigo, o documentarista Ian Daniel, para o canal Viceland. “Spike Jonze, que é o copresidente e um grande amigo, me perguntou se queria colaborar, e dois dias depois falei com eles sobre a ideia de um programa de viagens centrado na comunidade gay ao redor do mundo”, disse.

A atriz rodou quatro episódios, no Brasil, na Jamaica, no Japão e nos EUA. Entrevistou tanto pessoas gay, lésbicas, bissexuais e transexuais que passam por situações difíceis quanto políticos e líderes desses países. Nos EUA ouviu Ted Cruz, que tenta a candidatura republicana à presidência, e no Brasil conversou com Jair Bolsonaro, deputado federal mais votado no Rio em 2014 e de discurso homofóbico. “Com certeza as gravações fazem parte do meu processo de autodescobrimento, mas meu objetivo era somente conhecer histórias e dar voz a pessoas que não são ouvidas”, contou Page. “Sei que sou privilegiada: moro em Los Angeles, tenho um trabalho que me dá dinheiro, posso passear pelas ruas e beijar minha namorada. Mas há muita gente muito mais vulnerável que eu no mundo e nos EUA.” E com todas essas pessoas sentiu um vínculo emocional. “Pode ser tão solitário crescer numa sociedade em que se sente diferente.”

Seu amigo e cocriador de Gaycation afirmou então que “a coragem que Ellen teve” em 2014 inspirou muitas pessoas a sair do armário, inclusive diante das câmeras. “Porque é uma figura pública pudemos fazer este documentário, que tem provocado impacto em muitas pessoas”, disse Ian Daniel. “As pessoas se sentiam à vontade dividindo suas histórias com ela porque ela sabe ganhar sua confiança.”

Para Ellen Page foi fora do normal ficar na frente da câmera como ela mesma, sem interpretar um papel. “Não é o que faço, mas sou curiosa por natureza, quero saber sobre as pessoas, ouvir histórias inclusive de pessoas das quais sei que não gosto”, disse. “A interpretação é genial”, rebateu Daniel. “Mas acho que para você há uma carreira neste campo [de documentários e jornalismo], um campo que você não podia explorar antes de sair do armário”. Ela afirma que isso lhe trouxe só coisas boas: “Me sinto com tanta sorte de ter feito Gaycation por todas as pessoas que conheci; se ainda estivesse enfiada no armário não teria conhecido todas essas pessoas”.