Beth Carvalho: “O samba é do povo, que sofre, que sabe o que é a fome”

Cantora relembra os tempos em que o ritmo era desprezado por gravadoras por ser muito “popular”

Beth Carvalho, na sua casa, no Rio.
Beth Carvalho, na sua casa, no Rio.

Das grandes janelas de seu apartamento, em um condomínio de alto padrão na Zona Sul do Rio, Beth Carvalho (Rio de Janeiro, 1946) vê seus vizinhos baterem panelas toda vez que o ex-presidente Lula ou Dilma Rousseff aparecem na televisão. Um deles, conta a cantora, a incomoda especialmente porque, durante o panelaço, olha na sua direção. Ela dá risada, mas uma sombra de preocupação e tristeza ronda toda a entrevista. Sentada em uma cadeira de rodas – ela ainda se recupera de um grave problema de saúde na coluna após passar um ano no hospital – Beth cria longos silêncios após suas respostas e uma frase rompe vários deles: “Essa coisa com Lula está me preocupando”.

Três dias depois da Polícia Federal levar o ex-presidente para depor no dia 4 de março, Beth conversou com o EL PAÍS, quando criticou a operação, chamou as pessoas à luta e alertou para supostas conspirações dos Estados Unidos. A conversa central, porém, foi sobre o samba, o ritmo que levou uma das suas músicas até Marte. Uma engenheira na Nasa programou acordar um robô de uma sonda com a música Coisinha do Pai, de Beth Carvalho, em 1997.

Pergunta. O que a Beth Carvalho comemora no aniversário dos 100 anos do samba?

Resposta. Comemoro os 100 anos do samba e os 50, agora 51, da minha carreira. Houve um evolução grande, sobretudo. A gravação ficou muito melhor. Antigamente o som do samba era mal gravado, tecnicamente falando. As gravadoras pensavam que era botar um bando de negros lá dentro e diziam: “vamos lá, batuca aí”. As pessoas não tinham noção de que você tem que ter um microfone para o surdo, tem que ter um microfone para o tantã, entendeu? A coisa era mal tratada pelas gravadoras. Elas não entendiam o samba. Eu, Martinho da Vila, nossos produtores, os técnicos, fomos responsáveis por essa melhora.

P. Faltava profissionalização das produtoras ou havia um certo desprezo pelo samba?

R. Tinham desprezo também. Como tudo o que é popular é alvo de desprezo. Mas tiveram que engolir, tiveram que nos engolir, porque nós fomos durante muito tempo os tentáculos das gravadoras. Podia ter disco de elite, que não vendiam nada, por causa do samba. É a mesma relação que vemos no povo brasileiro, que sustenta este país com seu trabalho, é a mesma coisa. O samba é uma coisa da esquerda, do povo, os compositores são do povo, que sofre, que sabe o que é a fome, então eu me sinto muito honrada de formar parte disso tudo.

P. O samba é um gênero machista?

R. O Brasil é machista, né? Não é só a música, mas está melhorando muito. Dona Ivone Lara se tornou a primeira mulher a fazer samba-enredo numa escola. Antes não tinha nenhuma possibilidade de mulher fazer. E, mesmo assim, ela fez sem aparecer, só depois que o nome dela foi destacado. Da minha parte também houve uma revolução. Nos anos 70, eu, Clara [Nunes] e Alcione [Nazareth] fomos as primeiras mulheres a vender muitos discos. A gente quebrou um tabu que existia. Nós fizemos esse sucesso todo e lançamos novos compositores. Eu tinha moral na produtora, podia lançar os novos e resgatar os velhos.

Há jovens bons, mas não com a capacidade deles. Mas eu sou pelo jovem, viu?. Tanto que eu lancei muita gente nova. Se não ia parar, né?

P. Sua filha seguiu seus passos e faz parte de uma nova geração de talentos. O que estão trazendo as novas gerações à música brasileira?

R. Está muito boa a nova geração. A Luana é compositora, sabe tudo de samba porque viveu a vida inteira comigo, mas ela não é sambista. A nova geração, e no caso da Luana, traz coisas mais sofisticadas. Mais minimalista. Não é uma música tão popular como a que eu faço, mas tem chance de acontecer.

P. Como você, defensora do popular, vê essas músicas mais sofisticadas, mais minimalistas?

R. Eu também pertenci à bossa nova durante muito tempo. A bossa nova é um braço do samba que tem sua sofisticação também. Não é que o samba não seja sofisticado, mas.... a bossa nova louvou a Zona Sul, não se falava em subúrbio, não se falava em Zona Norte. Eu sempre fui da Zona Sul, então me emocionava com aquelas músicas porque tinham a ver comigo, só que não me bastavam. Eu também quando ouvia um samba de raiz, um samba do Cartola ou do Nelson [Cavaquinho] eu me emocionava tanto quanto. Ou mais.

P. Você sente saudades da época do Cartola e do Nelson?

R. Sinto. Nelson para mim era o maior de todos. Eles sofreram muito, eram pobres, melhoraram, modéstia à parte, comigo. Muita gente pensava que o Cartola estava morto e ele veio à tona e a minha gravadora contratou ele, e passou a ter um disco por ano. Com Nelson Cavaquinho foi a mesma coisa. Não ficaram ricos, mas a vida deles melhorou bastante. Que é o justo, né?

P. Você voltou a encontrar talentos parecidos?

R. Parecidos. Mas todos da velha guarda. Há jovens bons, mas não com a capacidade deles. Mas eu sou pelo jovem, viu? Tanto que eu lancei muita gente nova. Se não o samba ia parar, né? Como vai seguir o samba então, sem inovação? Não podemos parar, por exemplo, no Paulinho da Viola, que é maravilhoso. Depois do Paulinho tem Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha, Zeca Pagodinho, Wanderley Monteiro... E agora já tem outra geração que é a do Alfredo Del-Penho, Sérgio Marques, Teresa Cristina... Tem muita gente aí.

P. Sua escola de samba, a Mangueira, foi campeã do desfile neste ano. O que significou isso para você?

Já perdeu todo o sentido a escola de samba. É um absurdo não dar moral para o compositor. Os enredos eram sobre a história do Brasil, hoje falam sobre iogurte

R. Foi lindo, estávamos há tantos anos sem ganhar. A Mangueira mereceu, a [Maria] Bethânia também. O samba pegou, né? Foi o samba mais cantado da Avenida, isso já faz ganhar. Estava pensando quanto as escolas ficaram diferentes. As escolas de samba eram um lugar onde os compositores tinham sua própria ala, davam o sangue pela escola e durante o ano todo eles cantavam seus sambas. Eu cansei de gravar músicas indo na quadra, ouvindo o compositor cantando... A coisa foi mudando, acabaram com o ala dos compositores, desmotivaram eles... Já perdeu todo o sentido a escola de samba. É um absurdo não dar moral para o compositor. Os enredos eram sobre a história do Brasil, que era uma obrigação que o Getúlio Vargas impôs pelo bem da nação, e a gente estudava através do samba-enredo. Mas agora mandam os patrocinadores. Ter uma escola patrocinada por uma marca de iogurte é brincadeira. Falar sobre iogurte! Veja bem! O que que é isso? Deturparam tudo. Cartola deve estar se mexendo lá...

P. O que há de verdade nessas histórias que contam sobre o mundo das escolas ser a maior lavagem de dinheiro transmitida pela televisão?

R. Eu não posso te falar isso porque eu não sei. Mas... Tudo é possível. O [Leonel] Brizola fez a maior homenagem ao samba que foi o Sambódromo. Porque o Sambódromo era também uma lavagem de dinheiro danada, porque era a arquibancada todo ano montada. Imagina a grana que era isso. Ele não só fez um lugar fixo, como transformou em escola, em CIEP [Centro Integrado de Educação Pública] durante o ano inteiro. Havia horário integral, as crianças tinham quatro refeições, saíam da escola de banho tomado… Acabaram com isso. Hoje nossa geração deveria ser de CIEP’s e não de garotos de rua como está agora.

P. Em uma ocasião, anos atrás, você disse que a CIA pretendia acabar com o samba. O que você quis dizer?

R. A CIA está em tudo lugar, no mundo inteiro. Para dominar um país você tem que acabar com a cultura dele, essa é a teoria dos fascistas, dos Estados Unidos, principalmente. E, em termos de música, a coisa mais forte do Brasil é o samba. Melhor, é o forró, o sertanejo, o samba e o chorinho. Eles começaram a deturpar isso tudo. Hoje você ouve um sertanejo ou um samba que não é mais sertanejo, que não é mais samba.

P. Mas qual é a relação com a CIA?

R. Ela colocou o rap, o hip-hop nas favelas. Hoje você não vê uma criança tocando tamborim, hoje você vê uma criança vestida de garoto americano, com a calça bem baixa, capuz, uma roupa que não tem nada a ver com o clima brasileiro, aliás. E muitas igrejas evangélicas que são contra o samba, são contra o candomblé, contra a macumba, contra o espiritismo. E o samba vem disso. Não conseguiram acabar com essa nossa riqueza, mas a intenção é essa: um país que perde sua cultura é um país dominado. A CIA faz esse papel em todos os lugares do mundo. É claro que a direita ridicularizou essa minha declaração, mas eu continuo dando.

Para dominar um país você tem que acabar com a cultura dele, essa é a teoria dos fascistas, dos Estados Unidos, principalmente. E, em termos de música, a coisa mais forte do Brasil é o samba.

P. Você acha que antes as opiniões eram mais respeitadas?

R. Acho. Está muito desrespeitoso, muito violento, está uma coisa assustadora. Eles [a direita] não se conformam com perder o poder. Há discursos homofóbicos, racistas, uma coisa que a gente não via antes dessa maneira. Talvez poderia ser igual que hoje, mas a gente antes não percebia que era tanto.

P. O que você opina do chamado do Lula para sair às ruas? Isso não promove ainda mais tensão?

R. Tem que ser. É preciso lutar. Veja o que fizeram com o Chico [Buarque].

P. Você gostaria que a elite musical do país fosse mais engajada politicamente?

R. Sim. Mas estão oprimidos. Tem uns que são alienados mesmo, outros que temem portas fechadas. Mas a gente vai ganhar essa luta. 2018, Lula lá.

P. Você tem várias referências ao Che Guevara e Fidel Castro na sua casa. Como você avalia o processo de abertura que está vivendo a ilha?

R. Acho justo, pelo amor de Deus. Cuba é um exemplo para a humanidade. É engraçado quando você vê que há shows em solidariedade a Cuba... Cuba é quem tem sido solidária com o mundo inteiro, inclusive com os Estados Unidos!

P. Imagino que você já deve ter visto que em Cuba há pessoas que passam fome?

R. Não vi. Estão melhores que nós, com certeza. Lá não tem miséria, não. Mas não podemos esquecer que eles são uma ilha, o embargou piorou... Não dá para fazer milagre, mas todos estão na escola, não tem uma criança na rua.

P. Falando de Lula o que te preocupa?

R. É um absurdo o que está acontecendo. É inconstitucional. É um tiro no pé da direita, porque o povo se comoveu com isso. Então vai ter povo na rua. Se me chamarem, e eu puder, eu vou também. Me preocupa a inconstitucionalidade. Como é que faz uma coisa dessas? Não podem te levar da tua casa com a Polícia Federal sem te comunicar. Foi arbitrário. Eu não temo as investigações, Lula é inocente.

P. E o Rio dos Jogos Olímpicos, como você está vendo a preparação do evento e o futuro legado?

R. Aff! Estão fazendo de tudo para derrubar o Rio de Janeiro, né? Botaram até mosquito aqui dentro. Isso é guerra bacteriana, na minha opinião. Os Estados Unidos são capazes de tudo. Eles fazem isso na água de Cuba, botam dengue aí.

P. Você acha que o Zika é....

R. É para desmoralizar o Brasil. O pior é que a gente fica com a porra do mosquito aqui, né? Eles querem a Olimpíada para eles, não para um país como o nosso. É uma briga eterna. O legado estou achando bom, a população vai poder aproveitar algumas coisas, só não pode tirar pobres do seu lugar. Tira, mas coloca em outro lugar.