Luta contra o zika

Número de casos de dengue cresce 48% com relação a janeiro de 2015

Especialistas falam em "forte epidemia", e país convoca 220.000 militares contra o ‘Aedes aegypti’

Solados e agente procuram larvas de Aedes aegypti
Solados e agente procuram larvas de Aedes aegyptiNelson Almeida (AFP)

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Os números são altos: 220.000 homens das Forças Armadas visitarão neste sábado três milhões de famílias em 350 municípios brasileiros durante um Dia D na guerra do Brasil contra o Aedes aegypti. Mas, do outro lado das estatísticas, o vetor do zika vírus mostra que a batalha será dura. Mesmo com os esforços já colocados em prática desde o final do ano passado, a presença do mosquito continua forte e ele já infectou mais gente do que no mesmo período de 2015.

Desde o início da epidemia de microcefalia, em outubro do ano passado, o Governo federal intensificou a campanha pública de combate ao Aedes, colocou 2.000 homens das Forças Armadas para reforçar as ações dos agentes de vigilância e promoveu faxinas em órgãos públicos. Mas os resultados não foram muito animadores e 2016 já acumula um dado que, se não é definitivo, ao menos aponta para um cenário pessimista. Os registros de casos prováveis de dengue, outra das doenças que o vetor transmite, foram 48% maiores até 23 de janeiro do que no mesmo período de 2015, ano em que os casos da doença bateram recorde no país, com 1,6 milhão de registros. Até este momento, o Brasil já acumula 73.872 notificações da doença, ante os 49.857 do ano anterior. Um sinal de que 2016 deve ser um ano de forte epidemia.

Para o infectologista Celso Granato, do Fleury, isso é uma evidência clara de que o país vai viver meses difíceis. “Esse aumento já era esperado, porque nos meses de junho, julho e agosto [de 2015], em que os casos de dengue caem drasticamente, nós continuamos a registrá-los e isso era um indicativo de que no ano seguinte teríamos um surto grande, como se está vendo agora”, comenta.

Um alto número de casos de dengue é um indicativo de que a circulação do Aedes é grande. E como o mosquito já é responsável também pela transmissão da febre chikungunya e, claro, do zika vírus, é possível se esperar um crescimento de casos dessas outras doenças. “Como são novidades, a população está mais suscetível a elas, por isso os casos de zika e chikungunya devem aumentar junto a um ano provavelmente forte da dengue”, comenta Margareth Capurro, bióloga da USP e especialista em mosquitos. Os hospitais ainda não são obrigados a relatar ao Ministério da Saúde todos os casos de zika que atendem, por isso não há estatísticas sobre esses casos. O número de infectados pela chikungunya chegaram a 20.662 em 2015, mas os dados de 2016 não foram divulgados.

“Como são novidades, a população está mais suscetível a eles, por isso os casos de zika e chikungunya devem aumentar junto com um ano provavelmente forte da dengue”

Para Marco Safadi, diretor do núcleo de estudos da Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovirose, é normal que os novos dados propiciem suposições de que este ano registrará mais casos de dengue, mas é bom ter cautela com previsões. “É um momento muito delicado, em que se tem dado muita atenção para o assunto e isso, de alguma maneira, pode aumentar a sensibilidade do critério de notificação. Temos que esperar para ver o que vai de fato acontecer”, opina. Para ele, o fato do zika vírus estar tão em evidência pode estar fazendo com que pacientes procurem mais o hospital ao sinal da doença. Os sintomas de zika são parecidos com os da dengue, mas costumam ser mais leves. Por isso, nem todos costumam procurar atendimento médico.

“É bem provável, sim, que haja um aumento em função da subnotificação [anterior] do sistema. Imagine, por exemplo, uma família de cinco pessoas em que uma delas tem dengue. É bem provável que no segundo ou terceiro caso da doença na família, a pessoa já não vá mais ao médico. Agora, com a preocupação em relação ao zika vírus, talvez isso já não aconteça”, concorda Capurro. Além de estar sendo associado ao aumento dos casos de microcefalia, o vírus também é apontado como responsável pela Síndrome de Guillain-Barré, que pode causar paralisia.

Outra hipótese, segundo os especialistas, é que aos médicos estejam notificando mais a dengue. Um  estudo revelado pelo EL PAÍS na semana passada apontava que o número reportado de dengue poderia ser 12 vezes maior do que demonstram os dados oficiais. Isso porque a notificação depende do médico que atende o paciente, que muitas vezes confunde aqueles sintomas com o de outra doença.

Além da questão da controvérsia nas notificações, outros fatores podem impactar os números de casos de dengue: o regime de chuvas, a temperatura, se há um novo tipo da doença circulando (atualmente há quatro) e também a vulnerabilidade da população atingida. “São Paulo, por exemplo, era uma cidade que tinha poucos casos de dengue e que ano passado registrou cerca de 100.000. Isso pode ter acontecido por muitos motivos, inclusive porque as pessoas passaram a estocar mais água em casa por causa da crise hídrica, mas o que temos de concreto é que quando a dengue chega a uma população mais vulnerável, as notificações aumentam muito”, diz Capurro.

Por isso, independentemente de um possível novo recorde de dengue em 2016, os dados indicam que o mosquito continua ativo em nosso cotidiano. E isso porque o combate não foi feito eficazmente, concordam os especialistas. Uma vacina ou alguma inovação tecnológica, como a inserção de mosquitos transgênicos no ambiente, seriam ótimas novidades. Contudo, para virar a guerra, por enquanto, só o trabalho tradicional diário: agentes nas ruas atrás de focos de Aedes e população consciente. “O Dia D, desse ponto de vista, é uma novidade animadora. Pela primeira vez, parece ser um esforço integrado e com disposição de enfrentar o problema de frente”, comenta Capurro.

Casos de microcefalia confirmados vão a 462

Um novo boletim divulgado nesta sexta-feira pelo Ministério da Saúde brasileiro aponta que os casos de microcefalia confirmados no país subiram para 462. Destes, 41 foram confirmados como relacionados com o vírus zika, algo difícil de se fazer porque os exames só detectam a presença do vírus no momento em que as gestantes estão doentes, mas a microcefalia no feto só é identificada meses depois do contágio. No boletim passado, eram 17 os casos relacionados com o zika.

Estão sendo investigados, no momento, 3.852 casos suspeitos de microcefalia de um total de 5.079 notificados pelos Estados desde 22 de outubro do ano passado. Já foram descartados 765 casos, ou porque os bebês não tinham a malformação, ou porque ela não foi causada por um agente infeccioso.

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