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Estados Unidos podem orientar grávidas a não viajarem ao Brasil por surto de microcefalia

Recomendação, citada pelo 'NYT', visa prevenir risco de que mulheres sejam infectadas com zika

Elison, 10, segura o irmão José, 2 meses, que nasceu com microcefalia.
Elison, 10, segura o irmão José, 2 meses, que nasceu com microcefalia. AP
São Paulo / Madri

O aumento dos casos de microcefalia no Brasil podem levar os Estados Unidos a recomendar que grávidas evitem viajar a cidades brasileiras e a outros destinos da América Latina e do Caribe onde há a presença do zika vírus. Segundo o jornal The New York Times, a avaliação de mudança na recomendação está sendo feita pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) e seria a primeira vez que o organismo aconselharia que mulheres grávidas evitem uma determinada região durante uma epidemia. O anúncio oficial sobre o caso pode sair até amanhã.

Até o último dia 11 de janeiro, o Ministério da Saúde brasileiro notificou a existência de 3.530 casos de bebês e fetos suspeitos de terem desenvolvido a malformação cerebral no recente surto, creditado ao contágio pelo zika vírus. Além de Brasil, Colômbia, El Salvador, Guiana Francesa, Guatemala, Haiti, Honduras, Martinica, México, Panamá, Porto Rico, Paraguai, Suriname e Venezuela já registraram casos de zika. Nos EUA, uma mulher do Texas que havia viajado para El Salvador teve o diagnóstico positivo para a doença.

Pesquisadores do CDC estão no Brasil para ajudar na investigação dos casos de microcefalia. Nesta quarta-feira, o órgão afirmou que as evidências de elo entre o contágio do zika e o desenvolvimento da malformação são “muito significantes”, informou a agência Associated Press. Segundo veículo, o órgão confirmou que o vírus foi localizado na placenta de duas mulheres que sofreram aborto e no cérebro de dois recém-nascidos com microcefalia que morreram. O Ministério da Saúde brasileiro já havia confirmado a correlação, após descobrir o vírus em análises feitas no sangue e nos tecidos de um natimorto com a condição no Ceará. Quando anunciou a existência do surto, no final de outubro, o próprio diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Claudio Maierovitch, afirmou que as mulheres do Nordeste, onde os casos surgiram primeiro, deveriam avaliar "a conveniência de engravidar neste momento”. A orientação gerou mal estar no Governo, que voltou atrás, apesar de muitos especialistas compartilharem da opinião de que a gravidez deve ser evitada nas regiões mais afetadas até que se tenha uma melhor compreensão do que está acontecendo.

Até o momento, o CDC vinha orientando que as grávidas tomassem a mesma precaução que os demais viajantes ao chegar ao Brasil: evitar a picada de mosquitos e usar repelentes. A recomendação de evitar a viagem pode ter impacto no turismo do país, especialmente no ano em que o Brasil sediará os Jogos Olímpicos.  No final do ano passado, o Brasil aprovou a isenção de vistos para turistas dos EUA, Japão, Austrália, Canadá durante as Olimpíadas justamente para estimular o turismo. Em 2014, ano de Copa do Mundo, mais de 6,4 milhões de estrangeiros visitaram o país, segundo os últimos dados consolidados do Ministério do Turismo – 657.000 deles eram dos Estados Unidos. As recomendações do CDC, entretanto, costumam ser referência para viajantes do mundo inteiro.

Explosão de casos

Os casos suspeitos de microcefalia no Brasil não param de crescer. Em apenas 51 dias, o número de bebês e fetos que podem ter desenvolvido a condição devido ao zika cresceu 377%. Em 21 de novembro, o país relatava a suspeita de 739 casos. No último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, com dados consolidados até 11 de janeiro, o aumento foi de 2.791 casos.

Esse aumento eleva a preocupação com a doença porque o Aedes aegypti -mosquito que transmite zika, dengue, febre amarela e chikungunya- se reproduz com mais força nos meses de maior chuva, já que ele depende de água limpa parada para se proliferar. No ano passado, o pico de dengue, por exemplo, foi entre março e abril, mostram dados do Ministério da Saúde -um novo boletim, divulgado nesta sexta-feira, mostra que os casos suspeitos de dengue chegaram a 1,6 milhão, um recorde no país. No momento, não há outra forma de combater a epidemia de zika que não seja o combate ao mosquito.

Para especialistas, no entanto, as medidas são apenas paliativas. “Agora, é urgente isolar esse vírus e tentar fazer uma vacina o mais rapidamente possível”, afirmou em entrevista ao EL PAÍS em dezembro Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovirose. O Governo brasileiro diz que uma vacina para o zika demorará, no mínimo, dois anos para chegar ao mercado. O ministro da Saúde, Marcelo Castro, afirmou nesta semana que é preciso “torcer” para que as mulheres contraiam o vírus antes de entrarem em seu período fértil e assim não precisarem da vacina.

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