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Manifestação repete roteiro e batalha da tarifa segue em São Paulo

Protesto convocado pelo Movimento Passe Livre tem repressão da PM e quebra-quebra de 'black blocs'. Ativistas estudam intensificar bloqueios de vias. Próximo ato será na terça

Manifestantes no centro de São Paulo nesta sexta.
Manifestantes no centro de São Paulo nesta sexta. AFP
São Paulo / Rio de Janeiro

O roteiro foi seguido à risca. O Governo Estadual e a Prefeitura anunciam reajuste na tarifa do transporte público de São Paulo. O Movimento Passe Livre convoca uma manifestação contra o aumento. O centro da cidade é o local da concentração. O ato começa sem sobressaltos e os manifestantes tentam bloquear uma via. Há participação de black blocs - ativistas que usam violência e a depredação como tática política - e a marcha termina com forte repressão policial. Detidos, feridos de ambos os lados, e o centro da cidade tomado por sacos lixo em chamas e uma nuvem de fumaça de gás pairando. Fim.

A continuação da história, se o MPL vai conseguir a revogação do ajuste da tarifa como ocorreu em 2013, ou não, como aconteceu no ano passado, vai depender da capacidade de mobilização do movimento nas próximas semanas. O que há, por ora, é uma manifestação marcada para a próxima terça-feira, às 17h, ainda sem local divulgado.

O ato desta sexta-feira teve concentração no Teatro Municipal. Grupos políticos e a juventude de partidos como o PCdoB, PSTU e PSOL, além de grupos de estudantes secundaristas que participaram das ocupações nas escolas no ano passado estavam presentes. O protagonismo do ato, porém, foi do MPL.

Quando a marcha saiu, em direção à avenida 23 de Maio, os black blocs tomaram a dianteira, escoltados de perto, dos dois lados das ruas, pela polícia - vestida com os uniformes apelidados de Robocop. O contingente foi bloqueando algumas vias e direcionando o fluxo de manifestantes para outras, o que funcionou por cerca de 40 minutos, até que o ato chegou à avenida 23 de Maio. Uma faixa foi, então, fechada, mas quando algumas pessoas que protestavam tentaram bloquear o outro lado da avenida, rompendo o cordão da polícia, o tumulto começou.

Cerca de 30 segundos após o rompimento, vieram as bombas. Manifestantes e black blocs revidaram arremessando pedras e paus em direção aos policiais. Um grupo de 50 deles ficou isolada na avenida, sob uma chuva de pedras, enquanto a outra parte dos PMs atirava bombas de gás. Dezenas de pessoas ficaram ilhadas no Terminal Bandeira em meio à confusão. A estação República ficou fechada por alguns minutos. 

O ato se dispersou pelo centro da cidade, cujas vias foram bloqueadas. A partir de então, sacos de lixos foram queimados, caçambas viradas no meio das ruas e ao menos quatro ônibus foram depredados. Parte dos manifestantes seguiu para a avenida Paulista, onde o tumulto continuou. Ali, pontos de ônibus foram depredados e mais bombas estouraram. O MPL estima que 10.000 pessoas participaram do ato. A Polícia fala em 3.000.

Quando o ato se dirigiu para fechar o outro lado da avenida, rompendo o cordão da polícia, o tumulto começou

Ainda segundo a Polícia Militar, 17 pessoas foram detidas, por "práticas criminosas". De acordo com um comunicado da corporação, um artefato explosivo foi apreendido com um black bloc. "A atuação criminosa dos 'black blocs' atrapalhou o legítimo direito de manifestação dos demais", afirmou a PM, por meio da nota. Três agências bancárias foram danificados e quatro viaturas, uma da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), uma da SP Trans e duas da PM foram depredadas. Três policiais foram feridos por pedras arremessadas.

Antes do ato, o secretário estadual de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, já havia afirmado que a PM iria “agir fortemente” no combate a manifestantes que "depredassem o patrimônio público". O titular da pasta disse também que a tropa "sempre tem calma e sempre tem cautela", e que iria agir "para prender eventuais black blocs" no ato.

Travamentos

Na manhã desta sexta-feira, manifestantes, convocados pelo MPL, realizaram um travamento nas proximidades do terminal da Lapa. A técnica de protesto consiste em bloquear vias, por um pequeno grupo de pessoas, por alguns minutos. O caos no trânsito chama a atenção para a causa.

No final do ano passado, secundaristas se utilizaram dos travamentos, quando perceberam que as ocupações não estavam surtindo o efeito desejado, que era a revogação da reorganização escolar. Em uma semana caótica na cidade de São Paulo, dezenas de vias importantes foram bloqueadas por pequenos grupos de alunos. A polícia reprimiu com bastante violência os bloqueios.

É impossível saber com antecedência se haverá novos travamentos. As ações são espontâneas e podem acontecer em qualquer via da cidade. O MPL afirmou que está incentivando a população a fazer, por conta própria, os travamentos.

O espírito de 2013 sai dividido no Rio e acaba em confusão

Por María Martin

O protesto no Rio contra o aumento das tarifas esteve marcado pela discordância entre seus próprios manifestantes, que tiveram dificuldades para definir até o trajeto da marcha. De um lado estavam coletivos estudantis, como a União Nacional de Estudantes (UNE), e partidos como o PCdoB e PSOL, e do outro, movimentos mais à esquerda e apartidários como o Movimento Estudantil Popular Revolucionário acompanhados de encapuzados com bandeiras e camisetas anarquistas.

Apesar das divergências o protesto seguiu pacífico por 2,6 quilômetros, mas o ato também acabou em confusão ao chegar ao seu ponto final, na Central do Brasil, uma das principais estações de trens e metrô da cidade. Após quase três horas de caminhada, onde houve também reivindicações por uma maior qualidade na saúde e na educação, duas bombas caseiras explodiram entre os manifestantes.

Houve correria e confusão, mas a Polícia Militar, que acompanhou o ato, não interveio nesse momento. Mais bombas caseiras e pedras foram jogadas, dessa vez contra um centro operacional da Guarda Municipal frente a estação, e os guardas revidaram. A fumaça tomou conta da rua e assustou dezenas de pessoas que entravam ou saiam da estação. Crianças entraram em pânico e suas mães procuravam panos para proteger seus rostos do efeito abrasador do gás de pimenta. A estação ficou fechada por dez minutos para evitar tumulto nas vias, enquanto um grupo de encapuzados depredou ônibus, queimou lixeiras e formou barricadas nas ruas do entorno. O Choque e a Cavalaria da PM entraram então em ação. Segundo informou o Jornal Nacional, da Globo, uma pessoa foi presa durante a confusão, mas a polícia militar não atendeu às ligações da reportagem para confirmar a informação.

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