Alertas de poluição do ar se tornam cotidianos

A ONU calcula que 70% da população mundial viverá em cidades em 2050 Megalópoles tentam reduzir os índices, invadidas pela poluição e problemas de saúde

Rua de Nova Délhi.
Rua de Nova Délhi.Chandan Khanna (AFP)

 “É um dos problemas de saúde pública mais importantes do mundo”, ressalta María Neira. A diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que “a poluição causa sete milhões de mortes prematuras por ano”. Além disso, não se tratam apenas de doenças respiratórias: “As partículas PM-2,5 [as menores] também entram em nosso sistema circulatório e causam enfarte e doenças cardiovasculares”.

Os sistemas de controle e alerta começam a se generalizar. Milão, Roma e Nápoles restringiram o trânsito em dezembro para reduzir a concentração de partículas PM-10 depois desses alertas. Em Madri, foi preciso aplicar medidas parecidas devido à acumulação de dióxido de nitrogênio.

Este é um fenômeno ligado à concentração da população nas cidades. Em 1994, 2,3 bilhões de pessoas viviam em regiões urbanas. Vinte anos depois já eram 3,9 bilhões, o que representa a metade da população mundial. A previsão da ONU é a de que em 2050 se chegue aos 6,3 bilhões: quase 70% dos seres humanos se concentrarão em ambientes urbanos. A ONU estima que a maior aceleração do índice de urbanização ocorrerá na África e na Ásia, onde já estão localizadas as maiores aglomerações do planeta: Tóquio (37,32 milhões) e Nova Délhi (22,7 milhões).

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Níveis perigosos

Um estudo recente da NASA mostrava a evolução das concentrações de dióxido de nitrogênio entre 2005 e 2014. Na Europa e nos EUA, houve uma redução da presença deste contaminante na última década. Mas se observa um crescimento considerável nas cidades da Índia e da China.

E também em cidades como o Cairo, onde o nível de poluição é 20 vezes maior do que o recomentado pela OMS. Os 18,8 milhões de habitantes da capital egípcia respiram uma quantidade de gases tóxicos equivalente a fumar uma carteira de cigarros por dia. Apesar disso, o Governo não realiza uma medição periódica da poluição. O Executivo suspendeu em 2015 a proibição de compra de carvão por parte das empresas para que o usam como combustível. “A qualidade do ar não é uma preocupação para o Governo. A substituição do gás pelo carvão vai trazer consequências muito negativas para a saúde”, aponta Amina Sharaf, especialista da ONG Centro Egípcio para os Direitos Econômicos e Sociais. Uma situação parecida é vivida em Nova Délhi, “onde não há um sistema de alertas”, relembra Neira.

Mas nas grandes cidades da China já estão sendo adotados planos de controle e avisos. A capital, Pequim, conta com um sistema de alerta desde 2013 baseado em uma escala de quatro cores; o vermelho é o mais grave. O programa contempla uma série de restrições ao trânsito, à construção e às indústrias. Em início de dezembro, a cidade ativou pela primeira vez o alerta vermelho, que é o que mais afeta a rotina de seus 20 milhões de habitantes pelo fechamento de creches e colégios e pelas restrições ao uso de veículos privados.

Mas, como relembra a secretária de Mobilidade de Madri, Inés Sabanés, estas são “medidas de emergência”. “O importante é estabelecer medidas estruturais”, acrescenta. Ações como as que contempla o plano estratégico de São Paulo (21,1 milhões de habitantes em sua região metropolitana) para o período de 2014-2016, como por exemplo que 100% da frota de ônibus seja abastecida com combustíveis de fontes renováveis ou programas para reduzir o uso de carros. “Uma parte fundamental do problema vem dos combustíveis fósseis”, aponta María Neira. Apesar de serem desencadeado por gases diferentes, o aquecimento global e a poluição representam um inimigo comum. “Se não se mudarmos o modelo em função do clima, que o façamos pela saúde”, acrescenta a especialista da OMS.

Com informações de Ricard González e Carla Jiménez.

Mais carros elétricos e menos carvão em Pequim

XAVIER FONTDEGLÒRIA

O número de alertas por contaminação aumentou significativamente este ano na capital chinesa. Mas o motivo é que o limite para que sejam acionados foi reduzido e ficou mais fácil rebaixá-lo ainda mais. Assim se explica que a capital chinesa nunca tenha decretado um alerta vermelho na história e que só neste mês de dezembro o tenha feito duas vezes. O último plano quinquenal de Pequim (2013-2017) contempla reduzir o uso do carvão: passar das 23 milhões de toneladas anuais de 2012 a 13 milhões em 2017. Também obriga certas fábricas que produzem aço, cimento e ferro a diminuir em 30% suas emissões. Outras foram ameaçadas com o fechamento se não melhorarem seus sistemas de tratamento de resíduos. Além disso, a cidade calcula que em dois anos o parque de veículos elétricos chegará a 200.000 unidades (em todo o país circulavam em 2014 algo mais de 83.000).

A Administração estatal se autodeterminou o objetivo de reduzir em 40% a concentração das partículas PM-2,5 em 2020 em relação aos níveis de 2013 no corredor Pequim-Tianjin-Hebei. Este é um desafio extremamente complicado, já que, com o crescimento previsto da população, só evitar que a poluição aumente já exige um esforço gigantesco.

Nova Délhi, o ar mais sujo do mundo

ANA GABRIELA ROJAS

A OMS qualificou em 2014 o ar de Nova Délhi como o pior do mundo. Neste inverno, o Tribunal Supremo de Délhi disse que era uma “situação de emergência”. O Supremo e o Governo da cidade decretaram medidas paliativas para o problema desde 1 de janeiro, durante duas semanas. Por exemplo, reduzir à metade o número de veículos privados na cidade, além de proibir temporariamente a venda de carros a diesel com motores acima de 2.0, assim como a entrada de caminhões de mais de 10 anos.

“Este é só o começo para reduzir a poluição, mas o consideramos bom”, assegura Anumita Roy Chowdhury, diretora do Centro para a Ciência e o Meio Ambiente. “Devem ser feitas mudanças duradouras: um transporte público que realmente faça as pessoas deixarem os carros, melhores estradas que interliguem diferentes partes do país para que os caminhões não tenham de atravessar Nova Délhi”, diz Prashant Kumar, da Universidade de Surrey.

Desde abril o Índice Nacional de Qualidade do Ar monitora a poluição nas cidades, mas não há um sistema de alerta; tampouco em Délhi, onde entre 2007 e 2014 as partículas aumentaram 98% e o dióxido de nitrogênio, 55%.

“Faz apenas dois anos que estamos tomando consciência da poluição na Índia. Este é um processo no qual todos estamos aprendendo, as pessoas, a mídia, o governo. Precisamos continuar as políticas a respeito e que se transformem em regulações em âmbito nacional em grandes cidades e também nas menores que já começam a sofrer destes problemas”, afirma Chetan Bhattacharji, editor da televisão NDTV.