renato pereira | assessor político

“A população brasileira não se reconhece no atual jogo político”

Marqueteiro estrela do PMDB do Rio critica a desconexão dos políticos com a sociedade

Renato Pereira, marqueteiro político
Renato Pereira, marqueteiro político

Renato Pereira (Zurique, 1959) é o marqueteiro estrela do PMDB no Rio. O também antropólogo coleciona cinco vitórias consecutivas com as campanhas de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão para governador e Eduardo Paes à Prefeitura, hoje os principais aliados políticos de Dilma Rousseff para sair vitoriosa do processo de impeachment. Pereira também trabalhou no início da campanha presidencial de Aécio Neves, do PSDB, mas a parceria afogou-se em divergências insuperáveis.

Fora do Brasil, ele assumiu seu maior desafio ao abraçar a campanha da oposição venezuelana de Henrique Capriles em 2011. Depois de duas derrotas, para Chávez em 2012, e Nicolás Maduro, em 2013, Pereira comemora hoje a vitória das eleições parlamentares do domingo que levaram os anti-chavistas a conquistar o poder na Assembleia Nacional.

Com a tinta da carta de Michel Temer à presidenta ainda úmida e o processo de impeachment monopolizando a agenda política, Pereira reclama do “teatro” organizado em torno a interesses particulares e critica o “descolamento” dos políticos da sociedade.  "Todos estão torcendo para a resolução desse impasse, mas eu não sei te dizer se esse momento está próximo ou longe e acho que ninguém no Brasil é capaz de prever isso com clareza. Ninguém".

Pergunta. O que significa a carta de Michel Temer à presidenta Dilma?

Resposta. A carta simboliza uma dupla divisão. Primeiro uma divisão dentro da aliança que venceu as eleições em 2014, que já vinha se ampliando dentro do próprio Governo e que agora se mostrou explícita. E segundo, uma divisão dentro do próprio PMDB. Existe uma parte do partido que trabalha para manter a presidente, como é o caso do PMDB do Rio de Janeiro, e outra que acredita que a melhor saída é a saída da presidente.

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P. A quem beneficia a divulgação dessa carta?

R. O Brasil está vivendo um drama chamado impeachment, com algumas particularidades importantes, e é difícil dizer a quem beneficia, pois seu conteúdo está sendo usado pelos dois lados em confronto. É difícil você ver o que está acontecendo e quais são as apostas dos principais agentes políticos neste momento. Ao que tudo indica, Temer procurou contribuir com o Governo durante alguns momentos decisivos neste ano, e alguma coisa não deu certo.

P. É possível que tanto Dilma como Temer se beneficiem da divulgação dessa carta na hora de construir seus discursos? Ele como alguém que sempre esteve aí, mas não foi valorizado, e ela como a presidenta traída?

R. É possível.

P. O que acontece nos bastidores desse jogo político?

R. O trabalho que eles estão fazendo é essencialmente dentro do teatro político. Se você olhar com um pouco de profundidade a carta de Michel Temer ou a versão que o Governo dá sobre ela, tudo isso é tipicamente um drama num palco que é a cena política tradicional. Qual é o interesse da população brasileira nisso? É muito pequeno. Isso está ocupando os meios de comunicação, você vai ver alguns grupos organizados a favor e contra, mas você não vê um movimento espontâneo da população.

P. O que que está por trás do processo de impeachment?

R. Você tem uma parte da sociedade brasileira que acredita que a presidente não tem condições de restabelecer a confiança do mercado no governo. E, sem recuperar a confiança, não será possível superar o principal problema no Brasil hoje, que é a economia. Outra parte da sociedade olha para o processo de impeachment e vê um processo que não é legitimo, porque a presidente não teria cometido um crime de responsabilidade. E, portanto, avançar no processo nessas circunstâncias seria criar um trauma para a democracia brasileira de difícil superação. Mesmo entre estes que são contra o impeachment de Dilma, há os que reconhecem a existência de problemas sérios demais na economia, se seguirmos adiante com a atual política. Mesmo assim, na opinião destes, nada justifica o impeachment. Ambas as visões têm argumentos significativos e o drama que vivemos é esse. Agora, existem circunstâncias particulares, que é a maneira como o processo foi iniciado, por um presidente da Câmara [Eduardo Cunha] sobre o qual pesa uma série de suspeitas a respeito das motivações reais que o levaram a iniciar o processo. É uma questão importante: o pedido de impeachment vale independentemente das motivações do presidente da Câmara ou suas motivações contaminam irreversivelmente esse processo?

P. Onde entra comunicação política em um cenário tão polarizado?

R. Se você me permitir, gostaria falar de uma camada anterior aos lados interessados neste processo. Se você olhar para a população brasileira, ela assiste esse jogo e não se reconhece. O que a população vê são políticos interessados em uma disputa de poder que atende a interesse particulares e não da população. Se tem uma coisa importante no Brasil neste momento é o descolamento entre a política e o mundo real. E isso é muito grave. Esse descolamento começou em 2013, com as maiores manifestações espontâneas populares da história do país. É interessante porque em 2013 o Brasil não vivia uma crise econômica nem uma crise moral como vivemos agora. A perspectiva da população sobre a realidade mudou antes que a realidade mudasse. Agora em 2015, a população tem razões de sobra para confirmar os sentimentos manifestados então. Existe um desânimo com o jogo político brasileiro, existe uma depressão, mas não é um fenômeno só brasileiro. Aconteceu em vários outros lugares do mundo, como na Espanha com o abalo do seu sistema bipartidário. Esse é o horizonte que o Brasil vive neste momento sem que, por enquanto, a gente identifique novos protagonistas e novas instituições. Marina Silva, por exemplo, que é quem poderia ter organizado esse sentimento anti-establishment até agora não foi capaz de mostrar uma capacidade de organização que, por exemplo, na Espanha aconteceu com o Podemos, que em um ano podia oferecer uma alternativa política aos espanhóis.

P. Se você assessorasse Dilma Rousseff neste momento, qual seria seu conselho?

R. O principal equívoco do Governo Dilma foi não procurar dar o exemplo ao começar uma mudança de agenda. Ela foi eleita sob o compromisso de seguir na pauta do desenvolvimento, da distribuição de renda. Ela tomou consciência de que isso era impossível, talvez ela soubesse disso antes, e começou uma agenda de ajuste fiscal. Para iniciar essa agenda ela deveria ter começado dando exemplo com uma série de gestos. O que ela fez agora de cortar o próprio salário ou diminuir o número de ministérios, ela deveria ter feito em janeiro deste ano. Por mais simbólicas que essas medidas possam ser do ponto de vista financeiro, elas têm uma importância muito grande do ponto de vista de compreensão diante a população. Meu conselho teria sido esse.

P. E qual seria hoje?

R. O principal hoje é buscar essa reconexão com a população. E essa reconexão passa muito mais pelas atitudes do que pelas palavras. O que está em disputa nesse momento é que se o Governo vencer esta batalha do impeachment provavelmente sairá mais fortalecido politicamente do que estava antes e o Brasil superará um primeiro impasse.

P. Além da oposição, quem seria o principal beneficiário do impeachment?

R. Você tem um segmento importante que são os empresários. A expectativa da iniciativa privada brasileira é que, de alguma maneira, esse impasse seja superado porque tem muitas dúvidas se será possível resgatar a confiança na economia brasileira. Nós temos um problema claro de confiança. Será que é possível resgatar a confiança com o prosseguimento desse Governo? Essa é uma dúvida que o setor privado tem. Por outro lado, será que é possível superar esse impacto através de um processo político que não está 100% claro que seja legítimo? São respostas que eu não tenho.

Vitória na Venezuela

Pereira, envolvido no convulso cenário da Venezuela desde 2011, participou timidamente, e sem remuneração, da campanha vitoriosa de Henrique Capriles nas recentes eleições para o Parlamento.

Pergunta, Quais são os principais desafios da oposição venezuelana apos essa vitória?

Resposta. Eu vejo basicamente três: permanecer unida, pois é sempre mais fácil estar unido afastado do poder do que o exercendo; administrar as expectativas da população que espera ver seus problemas de desabastecimento, inflação e criminalidade enfrentados; e combater o oficialismo numa luta que se dará agora em outro nível.