Ataque em San Bernardino

Obama defende endurecer luta contra Estado Islâmico sem cair no medo

“Ameaça do terrorismo é real, mas a superaremos”, disse o presidente neste domingo

Obama em seu discurso televisionado à nação. FOTO: SAUL LOEB (AP) / vÍDEO: Reuters Live (reuters_live)

Em um incomum pronunciamento no Salão Oval da Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, defendeu na noite de domingo a sua atual estratégia contra o Estado Islâmico (EI) como sendo a mais adequada para “destruir” a organização jihadista. Mas ele admitiu que, depois do massacre da semana passada na Califórnia, é necessário tomar novas medidas que dificultem a repetição de um ataque desse tipo no país, sem que isso implique entrar numa espiral de medo.

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Com uma atitude séria e didática, Obama procurou enviar uma mensagem de calma ao povo norte-americano depois que dois simpatizantes jihadistas –que não tinham vínculos com organizações e não estavam sendo investigados– mataram 14 pessoas na quarta-feira em um centro comunitário nos arredores de Los Angeles. Foi o pior atentado nos EUA desde os ataques da Al Qaeda em 11 de setembro de 2001.

O tiroteio obriga Obama a explicar e justificar sua estratégia contra o EI, mais de um ano depois do início dos bombardeios contra o grupo jihadista no Iraque e na Síria. Ele também busca se contrapor às críticas de que lhe faltaria uma estratégia e age a reboque dos acontecimentos, além de sentir a necessidade de oferecer um contexto à opinião pública, 14 anos depois de iniciada a chamada guerra ao terrorismo islâmico.

Em sete anos de mandato, foi apenas o terceiro pronunciamento de Obama transmitido pela televisão a partir do Salão Oval da Casa Branca. “A ameaça terrorista evoluiu para uma nova fase”, afirmou Obama no discurso de 15 minutos. A maior ameaça agora são os potenciais terroristas misturados na população, que podem agir de forma solitária, inspirados em grupos externos, mas não coordenados por eles.

“Sei que, depois de tanta guerra, muitos norte-americanos se perguntam se enfrentamos um câncer que não tem cura imediata”, refletiu o presidente, para imediatamente enviar uma mensagem de firmeza: “A ameaça do terrorismo é real, mas a superaremos”, afirmou. “Prevaleceremos sendo fortes e inteligentes, resistentes e implacáveis.”

Obama não anunciou nenhuma guinada substancial na estratégia, apenas mudanças pontuais com vistas à ameaça jihadista nos EUA. Defendeu o endurecimento dos controles sobre cidadãos de países aliados que podem viajar sem visto –um dos autores do ataque na Califórnia residia legalmente com um visto– e a imposição de limitações às comunicações dos jihadistas na Internet.

Também pediu ao Congresso que restrinja a vendas de rifles, repetindo um apelo que tem feito nos últimos anos após cada massacre com armas nos EUA. “Precisamos fazer com que matar seja mais difícil para eles”, afirmou. Syed Farook, de 28 anos, e sua esposa, Tashfeen Malik, de 27, usaram dois rifles e duas pistolas em seu ataque na localidade de San Bernardino. Todas as armas haviam sido adquiridas legalmente.

Os objetivos do discurso

Obama decidiu na sexta-feira que faria um pronunciamento por considerar que os atentados de 13 de novembro em Paris e da semana passada em San Bernardino acentuaram a preocupação dos cidadãos com a ameaça terrorista. O objetivo do discurso era “dar um passo atrás e fornecer um contexto” diante dos “medos reais e legítimos” que os cidadãos possam ter, segundo relatou um alto funcionário do Governo em entrevista coletiva antes da fala presidencial.

O Salão Oval, de onde Obama só havia discursado à nação em duas ocasiões anteriores, foi considerado, segundo esse funcionário, o local adequado para transmitir a “seriedade” com que o Governo encara o desafio jihadista.

Obama buscou ser pedagógico a respeito da estratégia dos Estados Unidos contra o Estado Islâmico e sua capacidade propagandística. “Esta é a ameaça, o enfoque, isto é o que devemos fazer, e isto é o que não devemos fazer”, disse a fonte em referência aos objetivos do discurso presidencial.

Mas Obama traçou limites. Numa recriminação implícita às propostas de alguns candidatos republicanos à sua sucessão, defendeu que não se pode cair em uma cultura de medo coletivo nem de estigmatização da comunidade muçulmana, porque isso seria contrariar os valores norte-americanos. “A liberdade é mais poderosa que o medo”, disse, enquanto pedia aos líderes muçulmanos do seu país que redobrem os esforços contra a atração extremista.

O presidente também se distanciou do passado, das chamadas guerras ao terrorismo no Afeganistão e Iraque, que ele prometeu encerrar quando chegou à Casa Branca, em 2009. Alegou que uma mobilização maciça de tropas, como na década passada no Iraque, seria contraproducente, porque alimentaria a radicalização e a insurgência do EI. “A estratégia que estamos usando agora –bombardeios, forças especiais e colaboração com forças locais que estão lutando para recuperar o controle do seu próprio país– é a forma pela qual obteremos uma vitória mais sustentável”, afirmou.

Um antes e um depois para Obama

Com o discurso deste domingo, acabou a presidência de Barack Obama –ao menos tal qual se conhecia até agora. Acabou porque o presidente precisará se empenhar ao máximo para que, nos 13 meses e meio de mandato que lhe restam, os EUA não sofram novos ataques como o de San Bernardino. Acabou o Obama dedicado a deixar um legado, seja o da reforma da saúde, da imigração ou, obviamente, o do controle de armas. O presidente há cinco dias se dedica a rever a estratégia antiterrorista, partindo agora da premissa de que o terrorismo dorme tranquilo dentro de casa.

Não se sabe o que vem pela frente. Não se trata de uma ameaça externa, e sim da possibilidade de que existam mais seguidores do EI armados até os dentes e dispostos a irromper numa pacata festa natalina de escritório e deixar mais de uma dezena de cadáveres. “Estamos numa fase completamente nova da ameaça do terrorismo global e do que é preciso fazer para defender a segurança da pátria”, disse o secretário de Segurança Doméstica, Jeh Johnson.

Em um país onde qualquer um tem bastante facilidade para adquirir uma arma –praticamente qualquer tipo de arma–, as autoridades terão de confiar na máxima tão repetida nos últimos dias: “Se você vir alguma coisa, diga alguma coisa”. Só que isso não bastará, porque ninguém, nem familiares nem vizinhos, viu nada de anormal nos supostos jihadistas californianos que moravam na casa ao lado. Por enquanto, forças federais e locais já mantêm programas que incentivam parentes e amigos a apontarem pessoas que aparentemente estão se radicalizando ou que tenham sido recrutadas pelo jihadismo.

San Bernardino marca um antes e um depois na presidência de Obama. O homem que encerrou as guerras do Iraque e Afeganistão –ao menos em termos da presença de tropas norte-americanas nesses conflitos– contava a seu favor com o fato de os EUA não terem sofrido nenhum ataque jihadista relevante dentro do seu território desde o 11 de Setembro.

Segundo a instituição de estudos Nova América, com sede em Washington, desde o 11 de Setembro houve 45 mortos pelo terrorismo islâmico dentro das fronteiras norte-americanas. A organização cita outras 48 pessoas assassinadas no mesmo período em atos terroristas perpetrados por supremacistas brancos ou pela extrema direita.