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França considera cooperar com as forças de Assad contra o ISIS

Ministro francês das Relações Exteriores indica que será necessária uma ação terrestre

Declaração é bem recebida em Damasco

A reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o francês, François Hollande, rendeu um primeiro resultado: o ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, indicou na sexta-feira que Paris pensa em cooperar com as tropas do regime sírio na ofensiva contra o Estado Islâmico no marco da transição política que a comunidade internacional impulsiona na Síria. Fabius afirmou que os bombardeios não são suficientes, que é necessária uma ação terrestre, e que nela pode ter um papel o regime de Bashar Al Assad. Damasco deu boas-vindas à declaração.

Depois dos atentados de 13 de novembro, o Governo francês intensificou os bombardeios sobre posições do ISIS na Síria e no Iraque e lançou uma ofensiva diplomática para obter uma maior coordenação internacional nas operações contra o grupo terrorista. Entretanto, não pretende colocar suas tropas em terra, uma faceta da ação militar que Paris considera indispensável para o sucesso. “Devem ser tropas sírias, árabes, curdas...”, indicou Laurent Fabius, ministro francês das Relações Exteriores, em uma entrevista a cinco jornais europeus, entre eles o EL PAÍS. Fabius esclareceu posteriormente que seu Governo considera a possibilidade de “cooperar com as forças do Exército sírio no marco de uma transição política confiável”.

Esta é a primeira vez que o Executivo francês manifesta de forma explícita a possibilidade de cooperar sobre o plano militar com as forças do regime.

Para Fabius, entretanto, não se trata de uma mudança de posição porque a cooperação estaria condicionada a essa transição política síria, em que, considera, não pode participar Bashar Al Assad. O Governo de François Hollande admite, contudo, “elementos do regime” nessa transição.

A prioridade do Governo de Hollande, agora, é atacar duramente o ISIS e somar aliados a uma grande coalizão global. “A França lutará até o fim e ganhará sua batalha contra o terrorismo”, afirmou o presidente francês na sexta-feira durante a emocionante homenagem às 130 vítimas dos atentados de Paris. Moscou, que anteriormente bombardeou a oposição ao regime, foi sensível às demandas de Paris após os atentados e começou a coordenar suas ações com a França. Segundo Fabius, Putin e Hollande concordaram em “estabelecer um mapa das forças que não são terroristas e que combatem o ISIS”. Moscou se absterá de bombardear essas forças.

A possibilidade de que as tropas do regime sírio combaterem em terra com tropas aliadas contra o ISIS foi bem recebida em Damasco. “Antes tarde do que nunca”, respondeu em Moscou o ministro das Relações Exteriores sírio, Walid Mouallem. “Se Fabius for sério quanto a trabalhar com o Exército sírio, e com tropas em terra contra o Daesh [sigla árabe pejorativa em referência ao ISIS], damos boas-vindas à proposta”. No entanto, o ministro fazia ressalvas em suas declarações indicando que, para isso, seria necessária “uma mudança fundamental”.

“Por mudança fundamental, faz referência a uma mudança radical na política francesa em seu apoio a países como Turquia ou Arábia Saudita, que alimentam o terrorismo na Síria”, avalia em uma conversa por telefone Bassam Abu Abdallah, analista e professor de relações internacionais na Universidade de Damasco. “E isso inclui não interferir nos assuntos internos sírios como a eleição do presidente”, acrescenta. Para Abu Abdallah, as recentes visitas de três delegações parlamentares francesas à Síria evidenciam uma mudança “na atmosfera política francesa com relação à Síria”, exacerbada após os ataques de Paris.

O desenvolvimento da posição francesa se encaixa no esforço dos principais atores internacionais para impulsionar uma transição política na Síria. Recentemente o Irã se incorporou às conversações e os analistas observaram, nos últimos tempos, uma moderação das chamadas das potências ocidentais a uma imediata saída de Bashar Al Assad do poder.

Moscou foi a penúltima etapa de Hollande em sua ofensiva diplomática em busca de apoio à coalizão global contra o ISIS. Depois de encontrar-se com os mandatários de Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha e Itália, receberá neste domingo em Paris o chinês Xi Jinping.

Quatro países (Reino Unido, Alemanha, Finlândia e Irlanda) já ofereceram seu apoio ao projeto. O reforço das tropas no Mali aliviaria a carga francesa na região para poder se concentrar no Oriente Médio. A Alemanha ajudará em ambas as frentes. O Reino Unido, estendendo, se seu Parlamento permitir, os bombardeios à Síria (agora só o faz no Iraque). A Finlândia oferece apoio logístico em Erbil, no norte do Iraque, e também no Mali. Neste último país também poderiam acrescentar-se tropas irlandesas.

O reforço da chamada operação Chammal no Oriente Médio deixou a França no limite de suas capacidades militares no exterior. Paris mantém na região 3.500 efetivos e um grande arsenal bélico (38 aviões) que lhe permitiu nos últimos dez dias, desde 15 de novembro, realizar 106 voos sobre a Síria e o Iraque e lançar 20 bombardeios contra o ISIS. São operações que se desenvolvem paralelamente em outro barril de pólvora terrorista, o Sahel, onde a França manté 4.500 soldados.

Apoio alemão

A Alemanha é o país que pôs sobre a mesa a proposta mais concreta, ao aceitar enviar 650 soldados ao Mali, um país desestabilizado por grupos terroristas onde as tropas francesas brigam junto aos capacetes azuis da ONU. Além disso, Berlim enviará para o Oriente Médio entre quatro e seis aviões de reconhecimento Tornado, aviões-cisterna e uma fragata para defender o porta-aviões Charles de Gaulle.

O Sahel é um vespeiro. No dia 20, um grupo terrorista matou 19 pessoas em uma tomada de reféns no hotel Radisson Blu da capital malinesa Bamako. Graças às forças que mantém ali, a França pôde enviar imediatamente a 40 peritos antiterroristas que participaram na libertação dos reféns.

As últimas operações francesas no norte do Mali resultaram na morte de dois terroristas e na detenção de vários deles. A missão no momento é destruir os refúgios dos grupos terroristas, segundo informa o Ministério da Defesa, e tentar que não consigam reconstrui-los.

Essas operações contam com a aprovação da população francesa e de todo o arco político no parlamento. Na quarta-feira passada, a Assembleia Nacional aprovou quase por unanimidade (515 votos a favor contra quatro) o reforço da presença militar francesa no Oriente Médio.

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