Operação Lava Jato

Pecuarista Bumlai é preso por tráfico de influência usando o nome de Lula

Empresário foi preso em operação batizada de Passe Livre, por seu livre acesso ao Planalto

O empresário José Carlos Bumlai, em foto de 2010.
O empresário José Carlos Bumlai, em foto de 2010.Gabriela Biló (Estadão Conteúdo)

A Polícia Federal prendeu na manhã desta terça-feira o pecuarista José Carlos Bumlai em decorrência da 21ª fase da operação Lava Jato, que investiga os desvios bilionários da Petrobras. Apontado como amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Bumlai é acusado de fazer tráfico de influência usando o nome do ex-presidente Lula e até de seus parentes. Batizada de Passe Livre, essa nova fase da Lava Jato levou esse nome porque Bumlai tinha livre acesso ao Palácio do Planalto.

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O pecuarista estava hospedado em um hotel de luxo em Brasília, cidade onde estava para prestar depoimento para a Comissão Parlamentar de Inquérito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, a CPI do BNDES. Segundo a PF, ele foi preso momentos antes de tomar seu café da manhã.

A prisão de Bumlai aproxima as investigações do nome do ex-presidente e abre uma nova frente de apurações a de fraudes em empréstimos concedidos pelo BNDES. Em depoimento à Polícia Federal, o lobista e delator da Lava Jato Fernando Soares, o Baiano, disse que uma das empresas que ele representava, a OSX (do empresário Eike Batista), tinha interesse em participar de uma concorrência da Petrobras. Para isso, tentou se aproximar do ex-ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, que teria tentado essa aproximação via Bumlai. Em troca, o empresário pediu o pagamento de dois milhões de reais que, de acordo com Baiano, seriam destinados para uma nora do ex-presidente pagar parte de um imóvel adquirido por ela.

O lobista não especificou qual nora seria e a polícia ainda não confirmou as informações de Baiano. Diz apenas que o empresário usava o nome do ex-presidente e de familiares dele para fazer negócios. Apesar do uso do nome de Lula, o juiz responsável pelo caso, Sergio Moro, afirmou que não é possível vinculá-lo ao ilícitos. "Destaco o que parece mais relevante. Fernando Soares relatou outros três episódios nos quais José Carlos Bumlai teria invocado indevidamente o nome e a autoridade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva."

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo dias depois do depoimento de Baiano vir a público, Bumlai disse que não havia usado o nome de ninguém e que havia pedido dinheiro para ele mesmo pois suas empresas estavam em dificuldade. O pecuarista disse que pegou 1,5 milhão de reais emprestados de Baiano, mas que os recursos foram usados para pagar salários de funcionários de uma de suas empresas e teria como provar isso. “Não paguei conta de nora de Lula, apartamento, nada a ver. Não tenho nada a ver com isso”, afirmou na ocasião.

O juiz Sergio Moro afirmou que não é possível vincular Lula aos atos ilícitos

Em nota, a polícia disse que “complexas medidas de engenharia financeira foram utilizadas pelos investigados com o objetivo de ocultar a real destinação dos valores indevidos pagos a agentes públicos e diretores” da Petrobras. O pagamento a Bumlai teria sido feito por meio da simulação de um contrato falso de locação de equipamentos. Baiano relatou aos investigadores que o negócio com o navio-sonda não prosperou, mas que o pecuarista não devolveu o dinheiro que teria recebido. Tanto Lula, por meio de seu instituto, quanto Bumlai negam as irregularidades.

Empréstimos do BNDES

A PF informou que além da prisão do pecuarista, foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão e seis de condução coercitiva nas cidades de São Paulo, Lins, Sorocaba, Dourados, Campo Grande, Rio de Janeiro e Brasília.

Uma equipe da PF esteve na sede do BNDES no Rio onde buscou documentos sobre os contratos do banco com ao menos duas empresas de Bumlai, a São Fernando Açúcar e Álcool e São Fernando Energia. A suspeita é sobre irregularidades em empréstimos que somam 518 milhões de reais. “Queremos saber se os empréstimos se basearam em critérios políticos ao invés de técnicos”, afirmou o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos membros da força-tarefa da Lava Jato. Em nota, o BNDES negou qualquer irregularidade nos empréstimos feitos ao grupo São Fernando e que continuará colaborando com as investigações.

Segundo o Ministério Público Federal, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, ambos condenados pelo mensalão, interfiram em alguns dos empréstimos concedidos a Bumlai e a suas empresas.

A suspeita inicial era de que o banco Schahin, cujo seu acionista Salim Schahin também é investigado pela Lava Jato, teria emprestado ao menos 12 milhões de reais para o pecuarista e simulado que o valor teria sido pago. Inicialmente, as apurações apontavam que parte desse dinheiro fora entregue por Bumlai para dirigentes do PT, que usaram os recursos para pagar gastos de campanhas eleitorais. Porém, no decorrer da investigação constatou-se que o pecuarista, de acordo com o Ministério Público, transferiu os 12 milhões de reais para outros dois empresários e sócio dele em outros negócios, são eles Natalino Bertin e Silmar Roberto Bertin, donos do frigorífico Bertin. “Continuamos investigando, mas até o momento, não encontramos essa ligação com o PT”, ressaltou o procurador Santos.

Início da relação

Natural de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, Bumlai se aproximou de Lula na campanha eleitoral de 2002, quando o petista venceu o pleito. Naquele ano, o fazendeiro cedeu sua propriedade para o petista gravar parte de seu programa eleitoral. Desde então, ele é visto como um dos principais aliados do ex-presidente e o empresariado brasileiro, e já foi até chamado de o conselheiro rural de Lula.

Bumlai foi transferido para a sede da superintendência da PF de Curitiba, onde se juntará a parte dos outros mega-empresários detidos pelo esquema de corrupção na Petrobras.

A prisão do pecuarista foi uma surpresa para deputados, mas trouxe um certo alívio para a bancada governista, que temia o depoimento dele na CPI do BNDES. O Ministério Público lamentou a “infeliz coincidência” da prisão no mesmo dia em que ele deporia à comissão e justificou que a operação estava prevista para esta terça-feira porque precisava haver uma preparação dos agentes da PF e da Receita Federal que participaram da ação. Ao todo, 163 profissionais participaram desta fase da operação.